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BCE vai realizar ronda de supervisão aos bancos sobre exposição ao crédito privado

Fundo privado norte-americano Apollo limitou os resgates a 5% das ações. Membro do Conselho de Supervisão do BCE pede reforço na partilha de dados sobre instituições financeiras não bancárias

24 Mar 2026 - 15:00

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BCE sede | Foto: ecb multimedia

BCE sede | Foto: ecb multimedia

O Banco Central Europeu (BCE) vai iniciar uma ronda de controlos aos bancos que supervisiona, com o objetivo de limitar a sua exposição ao crédito privado, segundo noticiou nesta terça-feira a Bloomberg. A instituição planeia solicitar às entidades bancárias mais informação sobre as suas ligações a este tipo de fundos e empresas, conhecidos como “bancos sombra”.

Desde o ano passado, têm surgido vários problemas associados à instabilidade no mercado de crédito privado. Alguns dos maiores fundos do mundo começaram a registar saídas significativas de capital, tendo mesmo suspendido resgates em alguns dos seus veículos de investimento.

Esta semana, o fundo privado de crédito norte-americano Apollo (com 25 mil milhões de dólares sob gestão) anunciou, na segunda-feira, que estava a restringir os resgates a 5% das suas ações, após os investidores terem dado ordens para retirar aproximadamente 11,2% do total.

A falta de confiança em torno do crédito privado — definido como empréstimos diretos a empresas fora do sistema bancário tradicional — tem-se ampliado, à medida que os investidores aumentam a sua preocupação com a falta de transparência e disciplina desses empréstimos, bem como com a sua exposição a empresas de software cujos negócios podem ser prejudicados pela inteligência artificial.

A maior opacidade destes créditos fora do sistema bancário tradicional, o crescimento da sua atividade e o aumento do número de investidores de retalho nestes fundos têm levantado várias preocupações. O Fundo Monetário Internacional (FMI) alertou que este modelo de negócio e o seu peso crescente “podem amplificar os riscos” no sistema financeiro, constituindo uma das principais ameaças.

O BCE tem estado particularmente atento a esta evolução. Esta terça-feira, Patrick Montagner, membro do Conselho de Supervisão do BCE, divulgou um artigo para a revista Eurofi, onde aborda a questão da “Supervisão bancária num mercado de crédito fragmentado: as interconexões importam”.

Nesse texto, divulgado no site do BCE, Patrick Montagner refere que “o financiamento da economia nunca foi monopólio do setor bancário. Contudo, na última década, a participação dos bancos no total de empréstimos diminuiu. Essa diversificação parece ter distribuído o risco de forma mais ampla por todo o sistema financeiro. Mas a realidade é mais complexa. Embora outros agentes financeiros se tenham tornado cada vez mais ativos nos mercados de crédito, os bancos não foram excluídos”.

O responsável revela ainda que os dados recolhidos pelo BCE em 2024 mostram que “os bancos não conseguem identificar sistematicamente as transações em que concedem empréstimos juntamente com fundos de crédito privado à mesma empresa. Isso significa que podem não ter uma visão completa da sua exposição total a um único tomador de empréstimo ou grupo. Como resultado, os riscos de concentração podem ser subestimados e mal geridos. Quando um banco concede empréstimos tanto a um fundo de crédito privado como diretamente a empresas na carteira desse fundo, a exposição combinada pode ser substancialmente maior do que quando cada posição é analisada isoladamente”.

Montagner refere que o BCE tem procurado colmatar essas lacunas de informação através de várias iniciativas. “Um exercício de monitorização específico sobre a exposição dos bancos aos mercados privados destacou o desafio de captar estruturas de alavancagem complexas, em que os empréstimos ocorrem em múltiplos pontos ao longo das cadeias de investimento, desde os investidores dos fundos até às empresas do portefólio”, salientando que “uma análise exploratória de cenários sobre o risco de crédito da contraparte, com foco nas vulnerabilidades relacionadas com instituições financeiras não bancárias, revelou uma variação significativa nos perfis de risco dos bancos, com diferenças nas práticas de garantia a terem uma influência considerável nos resultados em situações de stress”.

O responsável deixa ainda um alerta: “pode haver a tentação de alargar o leque de investidores que assumem riscos, distribuindo produtos do mercado privado a investidores de retalho. Isso requer cautela. Se conflitos de interesse levarem a vendas inadequadas, como ocorreu na crise financeira de 2008, as consequências podem ir além da estabilidade financeira, afetando as esferas social e política”.

Para mitigar estes riscos, Patrick Montagner defende que “os enquadramentos regulatórios devem assegurar padrões adequados de divulgação e conduta, particularmente no que diz respeito a conflitos de interesse. A complexidade, a falta de liquidez e a opacidade das estruturas de crédito privado tornam-nas particularmente inadequadas para investidores que não dispõem de recursos para realizar uma due diligence apropriada ou de capacidade financeira para absorver perdas”.

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