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BdP revê em baixa crescimento económico devido às tempestades e conflito no Médio Oriente
O Banco de Portugal prevê agora que o crescimento do PIB português em 2026 seja apenas de 1,8%, face aos 2,3% projetados em dezembro.
25 Mar 2026 - 11:01
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Foto: Luís Alves Almeida | Jornal PT50
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Foto: Luís Alves Almeida | Jornal PT50
O Banco de Portugal (BdP) revelou, nesta quarta-feira, que estima um crescimento menor da economia, face à previsão anunciada em dezembro. No Boletim Económico divulgado, o banco central indica uma previsão de aumento do PIB em 1,8% para 2026, menos 0,5 pontos percentuais (pp) do que há três meses.
O supervisor bancário aponta a “deterioração do contexto internacional, na sequência do conflito no Médio Oriente”, como uma das razões principais para esta descida na estimativa. Paralelamente, surgem ainda as tempestades que arrasaram a zona centro do país no início do ano e uma evolução “mais fraca” da atividade no final de 2025 face ao projetado como motivos de revisão em baixa.
“A incerteza é elevada e os riscos intensificaram-se desde dezembro. As hipóteses do exercício de projeção têm por base as expectativas implícitas nos mercados financeiros até 13 de março, pressupondo uma duração relativamente limitada do conflito no Médio Oriente e efeitos contidos na confiança das famílias e empresas e nas cadeias de abastecimento globais”, acrescenta o Banco de Portugal.
Também a inflação deve agravar-se neste ano, segundo as projeções da instituição liderada por Álvaro Santos Pereira. A previsão de 2,1%, de dezembro, para 2026 teve um incremento de 0,7 pp. O banco central atribui esta atualização a “pressões de origem externa”, nomeadamente o aumento dos preços dos bens energéticos devido ao conflito no Médio Oriente.
Por outro lado, o BdP nota que “este quadro adverso é mitigado, em 2026, pela solidez do mercado de trabalho, a execução do PRR e uma política orçamental expansionista”. Ao contrário do crescimento do PIB, a taxa de desemprego teve uma revisão otimista, passando de 6,3% para 5,9%. “A criação de emprego abrandará, fruto da diminuição dos fluxos migratórios e do aumento mais contido da taxa de atividade”, refere o regulador.
Olhando para os anos adiante, o banco central prevê uma subida do PIB de 1,6% em 2027 e de 1,8% em 2028. O primeiro implica uma ligeira revisão em baixa face à projeção de dezembro, quando era 1,7%. “Em 2027 e 2028, a atividade será condicionada pelo abrandamento da oferta de trabalho e pela diminuição dos fundos europeus”, alerta.
No que diz respeito à inflação, esta teve também uma revisão em alta para 2027, subindo 0,3 pp. Já para 2028 a previsão mantém-se nos 2%, tal como em dezembro. “A dissipação do efeito do choque energético nos preços e a manutenção das expetativas de inflação de longo prazo ancoradas deverão contribuir para a redução da inflação para 2% em 2028”, explica o supervisor.
As previsões sobre a taxa de desemprego nos próximos anos também são mais otimistas. Tanto para 2027 como 2028, o valor baixa para 5,8%, abaixo dos 6,3% previstos em dezembro para ambos os anos.
Conflito no Médio Oriente é o maior risco
O governador do BdP, Álvaro Santos Pereira, indicou, na apresentação do Boletim Económico, que o maior risco se prende precisamente com o conflito no Médio Oriente. “O balanço de riscos é enviesado em baixa para a atividade e em alta para a inflação”, nota o banco central no boletim. O prolongamento do dito conflito pode levar a “novas subidas de preços das matérias-primas, aumentar a incerteza global e a volatilidade dos mercados financeiros e gerar disrupções nas cadeias de abastecimento”.
Questionado sobre a necessidade de uma reação do Banco Central Europeu (BCE) face a esta problemática, Álvaro Santos Pereira reitera que se está a partir de uma situação “muito diferente” da de 2022. Sem fazer “grandes especulações”, pois considera “prematuro”, o governador sublinha apenas que o supervisor europeu está atento aos dados e à evolução dos preços. “Estamos preparados para reagir a qualquer realidade”, garante. Contudo, “as guerras são guerras e às vezes há ocorrências inesperadas”, nota.
Sobre o impacto das tempestades, Santos Pereira recorda que o impacto estimado no PIB é, pelo menos, de 0,1 pp no aumento do mesmo.
Em relação aos cenários propostos pelo BCE, o governador indica que as expectativas do BdP estão inseridas nesses. Santos Pereira assegura que os cenários estarão sempre alinhados com os apresentados a nível europeu, com margem para as diferenças que existem entre os países, como ao nível da dependência de determinadas fontes de energia, por exemplo.
Questionado sobre o que pode estar a impedir um crescimento maior no país, Álvaro Santos Pereira recorda que o resto da economia europeia também está a expandir de forma reduzida, referindo o caso alemão e francês. “Se queremos ter um país com mais futuro, temos de fazer mais reformas para ter um país mais atrativo”, aponta o governador.
No que diz respeito à produtividade, o líder do banco central acredita que aplicar reformas é a melhor forma de aumentar a mesma. “Não podemos ser alérgicos às reformas estruturais”, afirma.
O governador revela ainda que o banco central pretende dar o exemplo no aspeto das reformas, referindo-se a cortes na regulação e simplificação das burocracias, mas mantendo o rigor e as regras necessárias. O BdP quer reduzir o ‘gold plating’, cortando regulação e burocracia criadas sobre as regulações europeias que são a base das mesmas. O governador adianta que o supervisor quer uma revisão alargada sobre estas burocracias, desde a abertura ao fecho de contas, de forma a simplificar processos em geral.
Questionado sobre se faz sentido manter políticas de atração de mão de obra barata – numa referência ao aumento da produtividade devido aos fluxos migratórios – Santos Pereira sublinha que, como pessoa que esteve emigrada em vários países, o sucesso aparenta estar em políticas que promovem uma imigração “focalizada”, ou seja, concentrada em captar capital humano que falta no país e pessoas qualificadas.
Santos Pereira tranquilo com lugares na administração
Questionado sobre os lugares no Conselho de Administração do BdP, Álvaro Santos Pereira não se diz preocupado com o facto de as pessoas poderem recusar tais cargos pelo facto de, mais tarde, não terem a hipótese de se tornarem consultores dessa mesma administração, dada a tendência de extinção deste posto no banco central. O governador entende que este é o topo da carreira no BdP e isso vale por si.
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