Subscrever Newsletter - Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa no sistema financeiro.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa no sistema financeiro.

Submeter

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade

5 min leitura

Lagarde: “Não descarto a possibilidade de sair alguns meses antes do fim do meu mandato. Não será algo que mudará o mundo”

A entrevista da “coruja” de 70 anos faz um balanço de sete anos à frente do Banco Central Europeu, confessa a sua fé católica e elege o conflito no Médio Oriente como a maior ameaça da atualidade

01 Out 2026 - 11:03

5 min leitura

Christine Lagarde presidente do BCEFonte BCE

Christine Lagarde presidente do BCEFonte BCE

A presidente do Banco Central Europeu (BCE) deu esta semana uma entrevista que cheira a despedida. Conduzida pelos jornalistas Jean-Claude Bourbon e Marie Dancer, a conversa com Christine Lagarde percorre o passado e antevê um pouco do futuro da primeira mulher a ocupar o cargo de ministra da Economia de França.

“Não descarto a possibilidade de sair alguns meses antes do fim do meu mandato, mas não anunciei nada específico e uma coisa é certa: ainda estarei aqui em 2027. Portanto, se sair mais cedo, será apenas uma questão de alguns meses. Não será algo que mudará o mundo”, revelou Lagarde, que afasta a possibilidade de ser candidata às próximas eleições presidenciais francesas, marcadas para 18 de abril de 2027.

“Isso não seria uma boa ideia. Não é o mesmo trabalho. Primeiro, há a questão da vitalidade, energia e força. Depois, há o elemento de sacrifício inevitável com esse tipo de compromisso. E eu tenho 70 anos”, respondeu Lagarde.

A conversa não se limita a passar em revista os sete anos de Lagarde à frente do BCE e aborda também questões mais íntimas, como a sua formação humanista, decorrente da educação que recebeu dos pais, que costumavam receber em casa personalidades como Pierre Mendès France ou Jacques Delors. “Naquela época, eu era uma menina de dez anos. Ajudava a servir a comida e desconhecia completamente o papel desempenhado por aquelas figuras proeminentes. Mas, graças a esse ambiente familiar, pude desfrutar de muita confiança e amor e, ao mesmo tempo, de elevados padrões. Era também uma família muito aberta. Os meus pais costumavam receber visitas — não para jantares sofisticados, mas para se concentrarem em assuntos intelectuais e questões de fé. Os meus pais, e o meu pai em particular, viviam num meio influenciado pelo humanismo, pelo personalismo de Emmanuel Mounier e pelo movimento católico de centro-esquerda que procurava transformar a sociedade, mantendo-se fiel aos princípios do Evangelho”, refere a presidente do BCE.

Como presidente do BCE, Lagarde não se revê como “pomba” nem como “falcão”. Classifica-se a si própria como “coruja”: “A coruja é o símbolo de Atena, representando inteligência e sabedoria, mas, acima de tudo, é a minha maneira de rejeitar rótulos. Não estou do lado dos falcões, que defendem uma política monetária restritiva para combater a inflação, nem do lado das pombas, que querem apoiar a atividade económica através de uma política monetária expansionista. Não tomo partido em matéria de política monetária. Guio-me pelos factos e estou preparada para me ajustar quando as circunstâncias o exigirem. Num mundo tão incerto, o dogmatismo não é uma boa resposta”.

Em relação à atual situação geopolítica, Lagarde não tem receio em classificar como principal ameaça a “crise energética relacionada com o conflito no Médio Oriente. Ela está claramente a afetar os preços, mas também o crescimento. O impacto do aumento do custo das matérias-primas na atividade económica é frequentemente negligenciado. E, por trás da crise energética, há um cenário geopolítico em profunda transformação”.

Segundo a presidente do BCE, “um banco central não pode reabrir o Estreito de Ormuz nem criar novas reservas de petróleo ou gás. A nossa tarefa é, antes, evitar que um choque de oferta — neste caso, a queda da oferta e o aumento do custo da energia — se propague de forma duradoura pela economia e impulsione a inflação. Isso pode levar-nos a aumentar as taxas de juro, correndo o risco de prejudicar o financiamento da economia e, consequentemente, o crescimento. Estamos bem cientes disso e, por isso, analisamos com muita atenção a força da atividade económica antes de agir”.

Lagarde foi confrontada com a situação que se vive em França, onde a dívida pública está próxima dos 120% do Produto Interno Bruto, em vésperas de eleições presidenciais. A presidente do BCE refere que França pode aprender com os exemplos de Portugal, da Grécia e da Irlanda, países que superaram “crises muito dolorosas, reestruturaram as suas finanças públicas e restauraram a confiança”.

A presidente do BCE admite que a fé “ocupa um lugar fundamental” na sua vida e, em relação ao Papa Leão LXIV, destaca a encíclica Magnifica humanitas, que “abordou diretamente o debate sobre inteligência artificial que se desenrola hoje. Espero que esse debate siga na direção correta, mantendo as pessoas no centro do sistema e evitando reduzir o trabalho a um mero “acessório” substituível por robôs. O Papa insere-se firmemente na tradição da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, trazendo a doutrina social da Igreja para a era da inteligência artificial. Espero sinceramente que a sua voz continue a ser ouvida e que ele aprofunde o seu pensamento sobre o assunto”.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa no sistema financeiro.

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade