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Lurdes Gramaxo: fundo de fundos do BPF “é fundamental para dar poder de fogo também aos fundos portugueses”

A presidente da Investors Portugal esteve à conversa com o Jornal PT50 sobre o setor do capital de risco em Portugal, passando pelos desafios e pelas políticas públicas.

03 Abr 2026 - 07:12

7 min leitura

Foto: Investors Portugal

Foto: Investors Portugal

A completar o primeiro ano do seu segundo mandato à frente da Associação Portuguesa de Investidores Early Stage – Investors Portugal, Lurdes Gramaxo sentou-se à conversa com o Jornal PT50 para conversar sobre as tendências do setor em 2026, bem como a evolução do mesmo nos últimos anos e que políticas têm favorecido, ou penalizado, a área.

Fundada em 2021, a Investors Portugal surgiu de outras duas associações do setor, entretanto extintas, com o objetivo de criar uma única entidade que abrangesse todo o setor do investimento ‘early stage’. Lurdes Gramaxo foi a primeira presidente da associação – e única até ao momento – e revela que esta está numa fase de consolidação.

Um dos pontos em que a Investors Portugal atua é na área do ‘networking’, que a líder da instituição considera importante para o setor, e no contacto com fundos e investidores internacionais. Aliás, neste aspeto, realça que “Portugal está no radar dos investidores internacionais” e “tem tido muitas situações de sucesso”.

Lurdes Gramaxo sublinha que os tais casos de sucesso dão nas vistas e trazem interesse de fora, sendo que muito dos fundos portugueses já contam com investidores internacionais. Contudo, numa ótica de procura de capital interno e investimento do mesmo em território nacional, elogia a criação do fundo de fundos do Banco Português de Fomento (BPF), algo que considera “fundamental”, pois “já se vê que muitos fundos portugueses estão a ir buscar, por exemplo, dinheiro a Espanha, aos bancos de fomento espanhóis”.

Esta situação permite internacionalizar os fundos, por um lado, mas, por outro, “é bom que se mantenha cá o sistema bem vivo”. “Portanto, um fundo de fundos português, como o BPF está a preparar, e que temos a indicação de que vai ser lançado ainda no segundo semestre deste ano, é fundamental para dar poder de fogo também aos fundos portugueses”, defende.

A principal vantagem deste avanço, segundo a presidente da Investors Portugal, é o “acesso a capital institucional”, que, lamenta, falta no país. Isto é crucial, considera, uma vez que ajuda a atrair outras fontes de capital institucional, como é o caso dos fundos de pensões e seguradoras, exemplifica.”

Questionada sobre se esta atração de capital de vários pontos não pode criar um risco de contágio, precisamente por se tratar de capital de risco, Lurdes Gramaxo rejeita imediatamente a ideia. “Nunca houve um risco sistémico de maneira nenhuma, nunca aconteceu. Pelo contrário, muitas vezes o capital de risco está em contra-ciclo com o mercado de capitais. A bolsa anda aí a oscilar e nunca se sabe onde é que ela vai parar. O capital de risco é mais regular”, reitera.

Então, qual o maior risco para o capital de risco? Lurdes Gramaxo prefere explicar o porquê de haver menos risco: diversificação. “É uma segurança adicional”, considera, destacando que existe uma “diluição” por envolver vários investimentos em várias empresas de diferentes áreas. “A não ser que sejam muito mal geridos. Mas isso também só fazem uma vez, não fazem a segunda. O mercado não os deixa”, assegura.

Falta pensamento político a longo prazo

Passando para o domínio das políticas públicas sobre o capital de risco, a presidente da Investors Portugal lamenta que não haja pensamento a longo prazo ou “previsibilidade”, devido às alterações implementadas pelos diferentes governos. Dando o Reino Unido e a Alemanha como exemplos na Europa, e os EUA e Israel fora desta geografia, Lurdes Gramaxo acredita que é necessário criar um ecossistema de empreendedorismo com um sistema de incentivos estáveis, cujas regras não se alteram consoante os executivos.

Esta linha de raciocínio deriva da recente suspensão dos fundos SIFIDE. A associação, precisamente por sentir que havia decisões políticas a serem tomadas com base em “informação não factual”, quis fazer um estudo, que foi publicado em setembro de 2025, sobre o impacto económico do capital de risco e dos fundos SIFIDE, e cujos resultados superaram as expectativas da Investors Portugal.

O SIFIDE, explica Lurdes Gramaxo, é “um sistema de incentivos à inovação, à investigação e ao desenvolvimento” e as empresas que investissem nos fundos SIFIDE tinham benefícios fiscais. De forma resumida, o estudo, realizado pela NOVA SBE, concluiu que as empresas que recebem capital de risco “são empresas que crescem mais depressa, que exportam mais, que contratam mais, contratam pessoas com mais habilitações e pagam mais”. Mais ainda, ao fim de dois anos, está reposto o benefício fiscal recebido à partida, gerando um impacto fiscal “positivo” para o Estado.

Lurdes Gramaxo explica que as decisões sobre o programa SIFIDE, tomadas ainda pelo executivo de António Costa, nomeadamente a sua suspensão, advieram de um relatório da Autoridade Tributária e Aduaneira (AT), que considerou que “havia muitos fundos parqueados” e que “não estavam a ser aplicados porque não havia mercado”.

No entanto, a líder da associação explica que esta conclusão está errada porque se baseia em dados de uma altura específica do ano. O início de 2025, no caso. Lurdes Gramaxo esclarece que os fundos de risco levantam capital durante um determinado período para depois o aplicar nos seus investimentos e, mais tarde, proceder ao desinvestimento, o que resulta num período de vida de cerca de dez anos para um fundo deste género. Ou seja, o que a AT encontrou, segundo Lurdes Gramaxo, foi uma fase do fundo em que há levantamento de capital para investir.

Apesar de reconhecer alguns problemas com o regulamento dos fundos SIFIDE, não duvida de que o modelo funcionou em Portugal, “no sentido em que deu crescimento ao setor”. “Havia mais capital disponível, portanto, também cresceu o setor. Fez-se rondas mais facilmente, as ‘startups’ tiveram mais acesso a investimento também. Ele funcionou e conseguiu ir mais longe na cadeia de valor”, destaca.

Questionada sobre o que pode ser feito em termos de políticas públicas para ajudar a área do capital de risco, a líder da Investors Portugal refere que deve existir uma política de incentivos mais transversal, nomeadamente para os ‘business angels’, que, argumenta, “não têm absolutamente nada”. “São pessoas que investem o seu dinheiro, o seu capital, correm risco, individualmente – quando investem não recebem nenhum tipo de apoio – e quando saem pagam impostos como os outros; ou então, se tiverem prejuízos, paciência, não têm sequer a possibilidade de os deduzir em termos fiscais”, critica.

Ainda dentro dos incentivos públicos que “deixaram de existir praticamente”, Lurdes Gramaxo menciona os vistos ‘gold’. Eram uma forma de levantar capital, adianta, “mas com tantas mudanças que foram feitas e tantos anúncios de que ia acabar, deixou de haver previsibilidade e caiu um pouco em descrédito”, lamenta. “Esse capital, além de tudo, obriga a investir em Portugal. Nós, pelos vistos, gostamos de desperdiçar capital estrangeiro”, ironiza.

No entanto, reitera que estas entradas de capital estrangeiro precisam de ser controladas e de passar por uma “triagem”. A líder da associação considera que a regulação apertada que existe sobre prevenção de lavagem de dinheiro e de financiamento do terrorismo era precisamente uma boa forma de triar o capital que entrava no país.

“Fixamo-nos em pequenos detalhes… podia prejudicar a habitação… mas isto é capital de risco, não tem nada a ver com habitação! Já não podiam investir em comprar propriedades, era investimento para desenvolver o ecossistema português”, sublinha.

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