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O ministro e o equívoco sobre a banca

Por Cristina Dias Neves, Diretora do Jornal PT50

13 Mar 2026 - 23:28

3 min leitura

Tenho alguma dificuldade em perceber como é possível que um ministro com responsabilidades na pasta da Economia se queixe publicamente da banca, alegando que esta está com os cofres cheios e não os abre para financiar as empresas, enquanto, por outro lado, os bancos, em uníssono, defendem que só não emprestam mais porque simplesmente não têm a quem emprestar.

Alguma coisa está mal neste quadro. Um ministro com a pasta da Economia deveria, à partida, estar alinhado com o funcionamento do sistema bancário. Se não está, há duas hipóteses: ou está muito afastado da realidade ou procura uma explicação fácil para o que não corre bem. Devo dizer que até admiro o voluntarismo e a dinâmica deste ministro, mas não tenho dificuldade em reconhecer aqui uma enorme patacoada.
Já a resposta uníssona da banca apenas revela que todos os bancos partilham o mesmo entendimento quanto ao nível de risco que estão dispostos a assumir — e esse nível não é certamente o que o ministro imagina.

Acredito, no entanto, que esta divergência resulte sobretudo de um equívoco. De expectativas generalizadas sobre a função da banca comercial que não correspondem inteiramente à realidade. Expectativas essas que, diga-se de passagem, são também alimentadas pelos próprios bancos através das suas máquinas de marketing, na ânsia de se diferenciarem numa concorrência feroz.

Ao contrário do que muitas campanhas fazem crer, os bancos não existem para financiar o arrojo, a inovação ou o empreendedorismo. São instituições absolutamente essenciais ao financiamento da economia, mas, de um modo geral, não pelas razões que a publicidade sugere. Os bancos guardam o nosso dinheiro, processam pagamentos — naturalmente mediante comissões — e emprestam, sim, mas quase sempre mediante garantias reais. Não são instituições vocacionadas para novos empreendimentos por muito mérito que tenham. Talvez tenham sido, mas há uns séculos.

Experimente abrir uma empresa baseada apenas no seu talento e experiência e vá pedir financiamento a um banco. Veja o que acontece. Nada. Ou tente obter crédito para uma empresa em dificuldades. A resposta será invariavelmente a mesma: garantias reais.
Curiosamente, o ministro da Economia parece saber tanto disto como o cidadão comum que vê por aí as campanhas coloridas e aspiracionais que apelam ao espírito empreendedor dos cidadãos. Mas não, Sr. Ministro — isso é sobretudo marketing.

A ideia seria até cómica, se não fosse ligeiramente preocupante. Um equívoco desta natureza por parte de um governante com esta responsabilidade é grave. As políticas públicas devem ser desenhadas com base na realidade. É essencial conhecer bem todos os intervenientes do sistema económico e o que se pode esperar de cada um deles.

Se o ministro acredita que serão os bancos a resolver o problema da falta de competitividade das empresas portuguesas, está profundamente enganado. A banca comercial não foi desenhada para assumir esse papel — e fingir que foi apenas atrasa a discussão séria sobre como financiar o crescimento da economia.

 

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