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Os bastidores da venda do Novo Banco: do marketing de Portugal à venda ao BPCE

O Novo Banco foi vendido ao Groupe BPCE, mas o caminho percorrido até esse ponto não é linear. Maria Fontes explica como, desde 2020, trabalhou para que o IPO se concretizasse, num processo que obrigou o banco a vender a imagem de Portugal antes de poderem abordar a sua.

12 Ago 2025 - 07:10

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Maria Fontes, Novo Banco | Foto: Rigby/JornalPT50

Maria Fontes, Novo Banco | Foto: Rigby/JornalPT50

Maria Fontes chegou ao Novo Banco em 2020 para liderar as relações com os investidores e o objetivo era claro: garantir que o banco tinha acesso ao mercado de capitais. A ‘investor relations’ e responsável pela Comunicação Corporativa desta instituição sentou-se à mesa com o Jornal PT50 e traçou o caminho percorrido até ao “melhor IPO que nunca existiu”.

Sobre o início desta demanda, Maria explica que, antes de vender a imagem do banco, teve de vender a imagem do país e da economia portuguesa. Foram centenas de reuniões (o chamado ‘roadshow’), acompanhada pelo CEO, Mark Bourke, e o CFO, Benjamin Dickgiesser, desde 2022 – altura em que o processo se intensificou – com muitos investidores, a maioria dos quais europeus, mas também dos EUA e do médio oriente.

Até lá, “o que se deu foi uma preparação das condições de acesso ao mercado”. O banco encarregou-se de implementar as “melhores práticas” ao nível da comunicação com o mercado de capitais, nota. Destaca o início das ‘calls’ trimestrais abertas, desde que a atual administração foi eleita, em que recebiam questões de analistas. O trabalho interno da instituição seguiu no sentido de ter um melhor ‘disclosure’, algo que os investidores elogiaram mais tarde, segundo a ‘investor relations’.

Outro ponto-chave inicial foi o contacto com as agências de ‘rating’ e o trajeto do banco nesta frente. Em 2020, o Novo Banco estava em C+, atenta Maria. Em dois anos e meio, a instituição subiu oito ‘notches’ – “algo histórico”. “Foi o que permitiu que achassem que o investimento em nós era atrativo” e que levou ao ‘investment grade’, sublinha a responsável pela Comunicação Corporativa. Assim foi a construção do “caminho de credibilidade” junto dos investidores, salienta.

Cinco argumentos para vender um banco

Com o IPO como objetivo final, o Novo Banco precisava de um ‘pitch’. Foram cinco os pilares que Maria apresentou aos possíveis interessados. Em primeiro lugar, destacou a empresa como um ‘pure portuguese player’. Isto é, a instituição considerou que os investidores não valorizavam presença internacional e procuravam-na do seu lado, se assim o desejassem. Desta forma, o Novo Banco sobressaía como um ator que operava só em Portugal.

O modelo de negócios diversificado foi outro ponto, que conjuga com a eficiência e rentabilidade sustentável e geração de capital do banco, também destacadas. A estas acrescia o baixo risco e, assim, estava fechado o compêndio de argumentos. “A partir destes pontos tínhamos as conversas”, explica Maria.

O maior desafio, aponta, foi deixar os investidores “à vontade” com a economia nacional e o sistema bancário português, pois “os mercados de capitais deixaram de acompanhar Portugal” devido à crise e grande reestruturação do sistema financeiro. “Havia toda uma história para recuperar e explicar”, esclarece, que é a razão para o processo ter começado tão cedo. “Houve muito trabalho a explicar a economia portuguesa, o que tinha acontecido ao banco e porque somos diferentes de outros que passaram por processos similares”, relata.

Também para Portugal foram elencados motivos pelos quais este era um destino de investimento atrativo. A economia portuguesa crescia acima da média europeia, com uma taxa de desemprego a atingir mínimos históricos e uma população qualificada e em crescimento. Este era o retrato pintado sobre o país a investidores que, por vezes, “não sabiam onde era no mapa”. “Atrevo-me a dizer que ninguém fez tanto marketing por Portugal como o Novo Banco nos últimos tempos”, arrisca Maria.

Apresentado o racional, Maria indica que “havia uma grande vontade de continuar a acompanhar” o banco. “Foi uma história apelativa”, considera, e, dado o início atempado dos trabalhos, “deu tempo de se familiarizarem com a história” e, “se estás familiarizado, mais à vontade te sentes com o investimento”, argumenta.

A construção da ‘equity story’ e da credibilidade do banco teve sucesso ao ponto de serem, a certo altura, os investidores a contactarem a instituição bancária, revela Maria. “Fez com que alguns que não estavam na lista pedissem reuniões para conhecer melhor o banco que foi construído muito antes do mercado saber que ia haver um IPO”, adianta.

O mercado escreve direito por linhas tortas

Maria Fontes, Novo Banco | Foto: Rigby/JornalPT50

“Se eu gostava de ter visto o IPO acontecer? Como pessoa do mercado de capitais, trabalhamos para isso e acreditei que era possível. E era possível”, reforça Maria. Mas não aconteceu.

A entrada em bolsa do Novo Banco foi anunciada a 13 de fevereiro deste ano. O banco já se tinha libertado do Acordo de Capital Contingente (CCA, na sigla inglesa), que o impedia de distribuir dividendos, algo que Maria admitiu complicar o apelo a alguns investidores. Ainda assim, esclarece que o CCA não era impeditivo no processo – pois o seu fim estava perto – e forçava apenas mais uma explicação aos interessados.

Precisamente quatro meses após o anúncio referido é comunicado que, afinal, o Novo Banco ia ser vendido ao Groupe BPCE por 6,4 mil milhões de euros. Apesar da sua apetência pelo mercado de capitais, Maria é peremptória: “Eu acredito que a venda foi o melhor para o banco a longo prazo, sem dúvida nenhuma”. Explica que existem vantagens claras na venda direta, pois “permite aos acionistas venderem tanto de uma vez sem estarem expostos à volatilidade do mercado”. A par disto, dá ao banco a possibilidade de “um crescimento e visão de longo prazo que até agora não tínhamos com a mesma intensidade”.

“Ter a hipótese de, com uma valorização muito simpática, vender o banco todo de uma vez basicamente minimiza o risco de execução para os vendedores e isso é que fez com que a venda fosse o resultado”, justifica Maria. Contudo, reforça que a operação foi possível “porque havia a opção do IPO. Se não houvesse a opção real do IPO, a venda não teria sido feita, muito provavelmente, a estes valores”.

Em relação a quem se sentou, ou não, à mesa das negociações ao longo de todo o processo, Maria reitera apenas que “era sabido que o banco ia entrar neste processo” e, portanto, “quem não quis entrar não quis entrar. Se alguém não fez uma proposta é porque não tinha interesse antes e tinha outra estratégia que não esta”. Sobre se esteve em cima da mesa uma possível venda a outro concorrente nacional, considera que é “uma boa pergunta para os outros dois ‘players’”.

Fazendo uma retrospetiva sobre o processo, Maria recorda que “muita gente não acreditava ser possível e provamos ser possível e, assim, chegamos ao melhor IPO que nunca aconteceu”. Acrescenta ainda que “‘investor relations’ é o final do processo em que todo o resto da máquina tem de funcionar e crescer para ter uma história para contar”. “Uma grande aventura”, sumariza.

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