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Patrícia Afonso Fonseca: “Financiar a transição climática é uma das áreas onde podemos gerar maior impacto positivo”
O financiamento verde já representa cerca de 25% da produção de crédito do Novo Banco. A administradora executiva defende que integrar o risco climático, apoiar empresas na transição energética e reforçar a inclusão financeira são hoje pilares da estratégia do banco.
12 Mar 2026 - 10:26
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Foto: Novo Banco
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As recentes tempestades em Portugal vieram reforçar a urgência de integrar o risco climático nas decisões financeiras. Para o Novobanco, a resposta passa por reforçar a análise de riscos ambientais nas carteiras de crédito, acelerar o financiamento verde e manter instrumentos de apoio a famílias e empresas afetadas por fenómenos extremos.
Em entrevista ao Jornal PT Green, a administradora-executiva Patrícia Afonso Fonseca dá conta de que o financiamento verde já representa cerca de 25% da produção de crédito do Novobanco, tendo superado as metas definidas para 2024-2026, e também que a sustentabilidade faz parte da estratégia central do banco que vai integrar o grupo francês BPCE.
A instituição liderada por Mark Bourke prepara-se, assim, para assinalar a primeira Semana da Sustentabilidade, com arranque marcado para 16 de março, onde pretende reforçar a integração dos temas ESG (sigla para ambiental, social e governação) na cultura interna e no relacionamento com empresas e sociedade.
As recentes tempestades mostraram que o risco climático é cada vez mais relevante. Como o Novobanco está a integrar os riscos climáticos na gestão de crédito das suas carteiras e se prepara para cenários adversos, incluindo os exigidos nos testes de stress regulatórios?
Para o Novobanco, esta é uma questão central para garantir a resiliência e a solidez do nosso modelo de negócio. Temos vindo a integrar considerações climáticas e ambientais de forma progressiva e consistente na avaliação de risco de crédito, assegurando que estes fatores, de riscos de transição, ambientais e físicos são integrados na análise de riscos das contrapartes e na definição de condições comerciais. Esta abordagem permite antecipar tendências, compreender vulnerabilidades e reforçar a robustez da carteira ao longo do tempo.
Para compreender as vulnerabilidades e melhor gerir os riscos, realizamos anualmente exercícios internos de avaliação de impacto e sensibilidade, os chamados testes de stress, onde simulamos diversos cenários de riscos climáticos mais adversos, e cujos resultados incorporamos na avaliação anual que fazemos à adequação do capital do banco face aos riscos, atuais e futuros, a que está exposto.
Este processo aprofunda a nossa visão prospetiva do risco climático e reforça o compromisso com práticas prudentes e alinhadas com expectativas regulatórias europeias.
Ainda relativamente às tempestades, o banco lançou recentemente duas linhas de crédito bonificadas, totalizando 100 milhões de euros, para apoiar famílias e empresas afetadas. Qual foi a aceitação destas linhas e acredita que este tipo de resposta deve integrar de forma permanente a estratégia de sustentabilidade do banco, considerando o impacto social na comunidade?
Para nós, apoiar famílias e empresas em momentos críticos está no centro da nossa missão e é parte essencial do nosso compromisso social. Assim, disponibilizámos aos nossos clientes acesso às moratórias para crédito à habitação e crédito a empresas criadas pelo governo, a que aderiram já mais de 230 clientes num total de quase 90 milhões de euros.
Mas disponibilizámos também linhas bonificadas, que registaram uma procura muito expressiva, acima dos 250 milhões de euros, sobretudo nas zonas mais afetadas, e permitiram dar uma resposta às necessidades imediatas das comunidades.
Ao abrigo da nossa linha de crédito própria que lançámos de imediato, com spread e comissões zero, concedemos já 50 milhões de euros a empresas, a que se juntam a Linha de Apoio à Reconstrução do Banco Português de Fomento, que deu também já enquadramento a cerca de 500 empresas com pedidos de financiamento acima dos 200 milhões de euros.
A experiência demonstra que instrumentos simples, acessíveis e de impacto imediato são fundamentais em situações de fenómenos climáticos extremos. No entanto, esta atuação tem de ser coordenada com a estratégia mais alargada de gestão de riscos do banco – e alinhada com as políticas públicas nacionais e europeias – para assegurar, de forma progressiva, uma melhor adaptação da economia às alterações climáticas.
De que forma estão a reforçar a integração das políticas de sustentabilidade no processo de tomada de decisão e na cultura organizacional, para garantir que o ESG influencia efetivamente todas as áreas de negócio?
A sustentabilidade é parte integrante da estratégia e modelo de gestão do Novobanco, e não um projeto paralelo. Temos um modelo de governo que assegura a integração de fatores ESG nas políticas internas, nos processos de risco e de negócio, e na definição da estratégia.
Esta integração traduz se também em critérios objetivos que orientam decisões em áreas como financiamento, gestão de risco e definição de prioridades estratégicas, e que estão enquadradas no “Dividendo Social” – o conjunto de objetivos ESG que o banco publica trimestralmente, com metas claras e resultados transparentes.
Ao mesmo tempo, investimos de forma contínua na capacitação das equipas, promovendo literacia ESG, ética, diversidade e conduta responsável. O objetivo é garantir que a cultura interna reflete a ambição estratégica e que todos os colaboradores reconhecem o seu papel na transição para uma economia mais sustentável.
A Semana da Sustentabilidade, que realizamos pela primeira vez este ano, é um exemplo claro deste propósito. Com uma agenda dedicada em grande parte à formação das nossas pessoas, com foco na área comercial, reforça a integração da sustentabilidade e dos tópicos ESG na forma como todos trabalhamos. Vamos também promover um espaço de debate com a participação de agentes relevantes, sobre os desafios da descarbonização e riscos físicos na economia portuguesa, mas também temas sociais como a inclusão e a educação.
Com estes eventos, pretendemos também contribuir para o debate, a partilha de conhecimento e a capacitação do tecido empresarial nacional.
Em termos de financiamento verde, que peso já tem no negócio do banco e que tipo de projetos apoiam primordialmente?
Para o Novobanco, financiar a transição climática é uma das áreas onde podemos gerar maior impacto positivo. O financiamento verde tem crescido de forma muito significativa, refletindo a nossa aposta em apoiar projetos que contribuem para a descarbonização da economia, alcançando cerca de 25% da produção global de financiamento em 2025.
O banco adotou princípios claros na identificação de elegibilidade verde de projetos, assegurando transparência e confiança junto de investidores e stakeholders. Destacam se dentro destes projetos os investimentos em energias renováveis, construção sustentável, eficiência energética, mobilidade de baixas emissões e de iniciativas de economia circular.
Esta atuação tem permitido ao Novobanco ultrapassar persistentemente as metas definidas no seu plano de médio prazo – nomeadamente o nosso objetivo de gerar uma produção de financiamento verde acima de 2.000 MEUR entre 2024 e 2026, que foi já alcançado no final de 2025. Estes resultados permitem-nos reforçar e crescer ainda mais a nossa ambição.
O ESG não se resume apenas ao ambiente e à governança. No caso da componente social, que iniciativas concretas o Novobanco está a desenvolver para integrar aspetos como inclusão financeira, diversidade e impacto social nas suas operações?
Para nós, a dimensão social do ESG começa dentro de casa e nas nossas próprias operações, na forma como tratamos as pessoas e garantimos que todos têm iguais oportunidades de atingir o seu potencial. Por isso, reforçámos políticas de diversidade e não discriminação, assegurando igualdade de oportunidades no desenvolvimento e progressão interna, e promovendo um ambiente onde cada colaborador é valorizado. Esta cultura é acompanhada por programas de bem-estar e formação, que ajudam as equipas a sentirem-se apoiadas e preparadas para servir os clientes com empatia e competência.
Na relação com os clientes, a inclusão financeira é uma prioridade muito clara. Sabemos que as necessidades são diversas, e por isso adotamos medidas que reforçam a proteção financeira dos mais vulneráveis: soluções ajustadas para clientes com endividamento elevado, aconselhamento especializado, e produtos acessíveis para diferentes perfis e fases de vida. Nos balcões, continuamos a promover acessibilidade física, garantindo que qualquer pessoa — independentemente de idade, condição física ou experiência digital — consegue utilizar os nossos serviços em segurança e autonomia.
E porque acreditamos que a inclusão também se promove pelo conhecimento, investimos de forma consistente em programas de capacitação financeira e digital para a comunidade. Através de iniciativas como o hub “Futuro em Dia” e programas educativos com parceiros de referência, ajudamos jovens, seniores e PME a tomar decisões mais informadas e a navegar com confiança num sistema financeiro cada vez mais complexo. Esta atuação complementa o trabalho interno e traduz a nossa visão: um banco só é verdadeiramente sustentável quando as suas operações, as suas pessoas e a sua relação com os clientes promovem inclusão, igualdade e oportunidades reais para todos.
E a nível externo, que iniciativas do banco destacaria que poderão ajudar a desenvolver a componente social da comunidade?
A nossa intervenção externa tem vindo a ganhar maior foco e coerência, organizada em três eixos: literacia, inclusão social e cultura. Na área da literacia, para além dos projetos já referidos, trabalhamos com parceiros como a Junior Achievement Portugal e a EPIS, levando competências financeiras, digitais e de cidadania a jovens e comunidades que beneficiam de apoio adicional. Trabalhamos também, no sentido da comunidade mais alargada, no sentido de reforçar a literacia ESG junto da PME nacionais.
No campo da inclusão social, privilegiamos parcerias com instituições que têm intervenção direta junto de públicos vulneráveis. A APAV, a Acreditar e a Associação Salvador são exemplos de organizações com quem colaboramos para apoiar vítimas de crime, famílias em contexto oncológico e pessoas com deficiência motora. Estes projetos permitem-nos chegar a quem mais precisa, com respostas muito concretas, e reforçam o nosso papel na proteção e dignidade das pessoas.
A cultura é também uma ferramenta de inclusão, e aqui temos procurado desenvolver projetos que aproximam as pessoas da criação artística. O Prémio Novobanco Revelação, em parceria com Serralves ou a partilha do património da coleção de pintura Novobanco, com quadros expostos em Museus em todo o país, são alguns exemplos que mostram como a arte pode abrir horizontes, envolver comunidades e criar novos espaços de participação. Ao juntar estas dimensões — literacia, inclusão e cultura — procuramos contribuir para um impacto social que seja sentido no território e que reflita o nosso compromisso com as pessoas.
Com a evolução das leis europeias, como a CSRD, que exigem reporte mais detalhado e transparente de métricas ESG, quais têm sido os principais desafios do banco na implementação destes padrões ?
A CSRD, diretiva europeia de reporte de sustentabilidade, representou para o Novobanco uma oportunidade para elevar os padrões de transparência e de qualidade no reporte da informação não financeira. A sua implementação exigiu um reforço significativo de processos, governança de dados e articulação entre várias áreas internas. Mas a análise de dupla materialidade permitiu aprofundar a reflexão estratégica e compreensão dos nossos impactos e riscos, tornando o reporte mais útil para investidores, reguladores e clientes.
Atualmente estamos a analisar os resultados do processo de simplificação regulamentar, associados à iniciativa Omnibus, e a replanear algumas das nossas iniciativas. Como em todas as empresas europeias esta indefinição obrigou-nos a reavaliar a direção e planeamento dos nossos esforços e programa, mas acreditamos que, com o fim deste processo, podemos avançar agora num caminho mais certeiro, mantendo-se, no entanto, o grande desafio de sempre: o acesso a dados fiáveis e complexos dos nossos clientes, exigidos pela regulação aos bancos, mas que não são de reporte obrigatório por parte da grande maioria das empresas.
Que impacto concreto o Novobanco espera alcançar ao nível de sustentabilidade e de gestão de risco climático nos próximos anos?
Nos próximos anos, queremos aprofundar de forma clara a nossa ambição na sustentabilidade, começando pelo reforço das metas de financiamento verde, apoiando cada vez mais projetos que acelerem a transição energética do país. E essa ambição é já claramente evidente. Em termos acumulados de 2024 a 2025 a produção de financiamento e investimento verde do Novobanco ascendeu a 2,8 mil milhões de euros, ultrapassado largamente o objetivo de 2 mil milhões de euros de produção acumulada de 2024 a 2026. Estamos igualmente comprometidos em cumprir as trajetórias de descarbonização definidas para 2030, assegurando que a descarbonização das nossas carteiras de crédito e investimento evolui num ritmo alinhado com critérios científicos e com as melhores práticas internacionais.
Ao mesmo tempo, vamos aprofundar a integração dos modelos de avaliação de riscos físicos e de natureza na forma como fazemos negócio. E, finalmente, tudo isto converge para um objetivo maior: alinhar o banco com a ambição do Grupo BPCE para 2030, a que nos juntaremos nos próximos meses, integrando sustentabilidade, gestão prudente do risco e impacto positivo como pilares estruturantes do nosso modelo de negócio.
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