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Clientes bancários envelhecidos fazem menos crédito e optam por investimentos de menor risco

O Banco Central Europeu reflete sobre a supervisão financeira numa Europa que, em 2050, terá um em cada quatro cidadãos com mais de 65 anos.

25 Nov 2025 - 18:02

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Christine Lagarde, presidente do BCE, conversa com um comerciante no mercado de Florença (Itália)/BCE

Christine Lagarde, presidente do BCE, conversa com um comerciante no mercado de Florença (Itália)/BCE

A Europa está a envelhecer. E clientes mais velhos trazem novos hábitos de relacionamento com a banca. No blogue do Banco Central Europeu (BCE) dedicado à supervisão bancária, publicado esta semana, Patrick Montagner, membro do Conselho de Supervisão do BCE, refletiu sobre os desafios da supervisão numa Europa onde a idade mediana já ultrapassa os 44 anos e onde, em 2050, um em cada quatro europeus terá mais de 65 anos.

O responsável refere que “menos famílias jovens significam menos novos financiamentos imobiliários e empréstimos comerciais, enquanto uma população maioritariamente reformada significa uma maior procura de liquidez e de produtos de gestão de património”.

“Esta transformação levanta várias questões. Quão estável continuará a ser o financiamento local à medida que os idosos utilizarem as suas poupanças e outros ativos? Como poderão evoluir os valores das garantias em áreas onde a densidade populacional ou a procura de habitação diminuam? Poderão os padrões demográficos em constante mudança tornar-se uma nova fonte de vulnerabilidade para o sistema bancário? Todas estas questões merecem ser estudadas com maior profundidade”, acrescenta Montagner.

O responsável lembra que “uma taxa de substituição de 2,1 nascimentos por mulher é necessária para que uma população se mantenha estável sem migração”. Na Europa, esta taxa caiu para cerca de 1,5 em média.

Portugal apresenta uma taxa de natalidade abaixo da média europeia, com 1,4 nascimentos por mulher, segundo os dados de fertilidade do Eurostat, organismo responsável pelas estatísticas da União Europeia. Todos os países do bloco registam taxas de natalidade inferiores aos níveis necessários para renovar a população.

Neste contexto, o comportamento das famílias também se modifica. “À medida que as pessoas envelhecem, passam da acumulação para a desacumulação de poupanças, ajustando os seus padrões de consumo e investimento”, explica Montagner. “Os mercados imobiliários são diretamente afetados por esta dinâmica: em regiões com mais proprietários de idade avançada e menos compradores jovens, os preços podem estagnar ou cair, afetando o valor das garantias e o património das famílias. Por outro lado, as cidades que recebem fluxos migratórios podem enfrentar maior procura habitacional, ilustrando como a mudança demográfica pode tanto mitigar como amplificar desequilíbrios locais.”

Portugal exemplifica bem o cenário descrito por Patrick Montagner.

“Simultaneamente, as finanças públicas ficam sob pressão devido ao aumento da despesa com saúde e pensões. Tal pode afetar o risco soberano e, indiretamente, os balanços dos bancos, dada a relação entre Estado e setor financeiro. Nenhuma destas dinâmicas é nova, mas em conjunto formam uma tendência que poderá moldar as condições financeiras ao longo das próximas décadas”, refere ainda.

Do ponto de vista microprudencial, o envelhecimento populacional coloca questões sobre a sustentabilidade dos modelos de negócio dos bancos. “No lado do ativo, o pagamento de dívidas por parte dos reformados e a diminuição do número de jovens mutuários podem reduzir a procura de crédito à habitação em regiões envelhecidas, especialmente em áreas rurais em perda de população. Tal pode, por sua vez, pressionar o valor dos imóveis, afetando a qualidade das garantias e aumentando os rácios de financiamento em relação ao valor das propriedades”, defende o responsável do BCE.

No lado do passivo, o cenário é mais complexo. Patrick Montagner explica que “os depositantes mais velhos fornecem atualmente financiamento estável e têm um perfil de decisão financeira conservador. No entanto, à medida que vão utilizando as suas poupanças e as gerações mais novas se deslocam para centros urbanos ou optam por concorrentes digitais, as bases de depósitos em certos mercados podem ficar sob pressão. Isto aplica-se especialmente a instituições com forte presença em regiões de perda populacional”.

Neste contexto, o BCE, liderado por Christine Lagarde, considera que “os bancos focados em serviços tradicionais de retalho podem enfrentar dificuldades estruturais”, sublinhando que “redes de balcões desenhadas para clientes menos familiarizados com o digital podem ter dificuldade em atrair clientes mais jovens, que preferem canais digitais. Os rácios de custo/receita podem deteriorar-se à medida que os custos fixos se diluem numa base de clientes cada vez menor”.

Por outro lado, “instituições que consigam adaptar-se à ‘economia grisalha’ – por exemplo, reforçando oferta de gestão de património, consultoria financeira e planeamento da reforma – podem encontrar novas fontes de receita, embora isso exija reposicionamento estratégico e competências que nem todas possuem”, observa o BCE.

Os riscos demográficos podem concentrar-se em modelos específicos. É o caso dos bancos rurais, das caixas agrícolas e de instituições situadas em países com forte emigração e redução populacional.

Algumas dessas entidades podem beneficiar, no curto prazo, de rendibilidade sólida e bases de financiamento fiéis compostas por clientes envelhecidos. No entanto, o BCE alerta para três riscos principais: o primeiro diz respeito à base de clientes que pode diminuir em termos absolutos, à medida que gerações mais velhas desaparecem e jovens migram.

O segundo tem que ver com o planeamento de sucessão que pode tornar-se um desafio, já que tanto dirigentes como – no caso dos bancos cooperativos – os próprios proprietários estão a envelhecer.

Por último, a capacidade de adaptação é desigual, já que a transformação digital exige investimento e competências que bancos regionais mais pequenos podem não conseguir desenvolver ao ritmo necessário.

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