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Criptoativos e dinheiro físico coexistem pacificamente, mas em alturas de crise quem ganha é o numerário

Um estudo do BCE mostra que quem possui ativos digitais e quem paga com eles são dois grupos distintos de pessoas. O dinheiro físico vence em toda a linha em termos de confiança.

08 Abr 2026 - 07:30

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Os criptoativos coexistem com o numerário/Foto: Freepick

Os criptoativos coexistem com o numerário/Foto: Freepick

É um dos estudos mais recentes do Banco Central Europeu (BCE) sobre a coexistência entre criptoativos e dinheiro em numerário. Intitulado “Quem detém criptomoedas na zona Euro? Fatores que impulsionam a adoção de criptomoedas, o seu uso em pagamentos e a sua interação com o dinheiro fiduciário”, da autoria do economista do BCE Alejandro Zamora-Pérez, baseia-se no Inquérito aos Pagamentos de 2022 do BCE, que abrange cerca de 40.000 adultos em 17 países da área do euro.

As suas conclusões abrem um novo horizonte sobre o desenvolvimento e a utilização destes dois meios de pagamento.

Em primeiro lugar, quem investe em criptoativos e quem os utiliza como meio de pagamento não são as mesmas pessoas: tratam-se de perfis distintos. De acordo com o estudo, “o detentor típico de criptoativos apresenta um perfil de investidor, revelando um conjunto misto de preferências. É financeiramente e tecnologicamente informado, valorizando a rapidez e a conveniência dos cartões digitais, mas, ao mesmo tempo, é mais propenso do que a média a manter reservas de numerário por precaução e a valorizar a privacidade associada ao dinheiro físico”.

“Em contraste, o grupo muito mais reduzido de indivíduos que utiliza criptoativos para pagamentos apresenta um perfil centrado no numerário. Não é motivado principalmente pela rapidez ou conveniência dos pagamentos digitais. Em vez disso, é fortemente orientado por características semelhantes às do dinheiro físico, como a privacidade e a facilidade de utilização, o que sugere a procura de um instrumento digital que replique os atributos essenciais do numerário”, salienta o estudo.

A segunda principal conclusão clarifica a relação entre numerário e criptoativos, tanto em tempos normais como em períodos de crise. Assim, “contrariamente à perspetiva de que os primeiros adotantes de tecnologia digital rejeitam o dinheiro tradicional em papel, as correlações simples sugerem que os dois ativos são complementares em tempos normais. Os detentores de criptoativos têm, na verdade, maior probabilidade de manter reservas de numerário, o que indica que estes ativos coexistem num portefólio diversificado”.

No entanto, o cenário altera-se completamente em períodos de crise. “A análise com variável instrumental mostra que, quando um indivíduo reforçou a sua reserva de numerário por precaução devido ao stress da pandemia de Covid-19, passou a ter aproximadamente menos 10 pontos percentuais de probabilidade de possuir criptoativos”, refere o estudo, acrescentando: “esta inversão de sinal revela um efeito de substituição em contextos de incerteza. A intuição é que, em tempos normais, criptoativos especulativos e numerário considerado refúgio seguro podem coexistir num portefólio, mas quando a incerteza aumenta, os agregados familiares procuram a segurança e a utilização imediata do dinheiro emitido pelo banco central”.

Para o autor do estudo, “isto demonstra que os indivíduos encaram o numerário como uma reserva de valor superior e afastam-se de ativos digitais privados voláteis”.

Esta conclusão é ainda corroborada por uma análise macroeconómica que, segundo o estudo, “mostra que, no início da pandemia, a procura por notas de euro aumentou significativamente, enquanto os mercados de criptoativos registaram quedas”.

“Estes resultados têm implicações relevantes para as políticas na área do euro. Em primeiro lugar, ajudam a explicar o ‘paradoxo das notas’ — a persistente procura de moeda física, mesmo com a diminuição da sua utilização nas transações diárias — ao evidenciar o papel crucial do numerário como refúgio seguro em tempos de crise, mesmo entre indivíduos tecnologicamente informados”, acrescenta o estudo.

Em segundo lugar, os resultados apontam para uma abordagem dupla na regulação dos criptoativos. Para a grande maioria dos detentores de criptoativos, que são essencialmente investidores, a política deve dar prioridade à proteção do investidor e do consumidor.

Já para a política dos sistemas de pagamentos e para o desenho de um eventual euro digital, são mais relevantes as preferências do grupo específico que utiliza criptoativos para pagamentos. O seu interesse por um instrumento digital que reproduza as características fundamentais do numerário — nomeadamente privacidade, simplicidade e robustez — sugere que uma moeda digital de banco central bem-sucedida para este grupo teria de se basear nessas características, em vez de se focar apenas na rapidez e funcionalidade oferecidas pelos sistemas de pagamento digitais existentes.

Por fim, os resultados do estudo “colocam ainda mais em causa a classificação destes ativos como ‘moedas’ no sentido económico. Com a sua utilização em pagamentos limitada a menos de 1,5% da população (e a uma pequena fração das suas transações) e com o seu valor a não se manter em períodos de stress, estes ativos não possuem atualmente nem a função de meio de troca nem a de reserva de valor exigidas ao dinheiro”.

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