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Razões Sociológicas Subjacentes ao Combate ao Branqueamento de Capitais e as Oportunidades de Transformação Oferecidas pela Web3 e Blockchain

António Henriques, Chief Executive Officer do Bison Bank e Presidente do Conselho de Administração da Bison Digital Assets./Artigo publicado na revista Inforbanca do Instituto de Formação Bancária

30 Jan 2026 - 07:15

7 min leitura

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Resumo

O branqueamento de capitais é uma ameaça sociológica que compromete a confiança social e a legitimidade institucional. Este artigo analisa as raízes históricas do combate ao branqueamento, as limitações dos modelos tradicionais e propõe a integração da Web3 e da blockchain como instrumentos para reforçar a transparência, a rastreabilidade e a conformidade através de contratos inteligentes e de identidades digitais verificáveis. Apesar dos desafios éticos e regulatórios, estas tecnologias oferecem oportunidades para criar ecossistemas financeiros mais seguros e inclusivos.

Introdução

O branqueamento de capitais é, por definição, um processo de dissimulação da origem ilícita de fundos, com o objetivo de os integrar no sistema financeiro formal. Mas para além da sua dimensão técnica e jurídica, este fenómeno representa uma ameaça profunda à integridade das instituições, à confiança social e à equidade económica. O combate ao branqueamento não é apenas uma questão de conformidade regulatória — é uma resposta civilizacional à corrosão dos valores que sustentam a vida em sociedade.

Neste contexto, a tecnologia blockchain e os princípios da Web3 têm sido frequentemente vistos com desconfiança por parte do sector financeiro tradicional. A descentralização, a pseudonimização e a ausência de intermediários suscitam receios legítimos sobre segurança, controlo e regulação.

Este artigo propõe uma leitura alternativa: e se estas tecnologias, corretamente enquadradas, pudessem ser aliadas poderosas na luta contra o branqueamento de capitais?

A reflexão sobre este tema é particularmente relevante num momento em que a economia global enfrenta desafios de confiança e de transparência. A crescente digitalização dos serviços financeiros, a emergência de ativos digitais e a pressão regulatória internacional criam um cenário onde a inovação tecnológica pode ser não apenas uma ferramenta, mas um imperativo estratégico.

  1. Fundamentos Sociológicos do Combate ao Branqueamento

O combate ao branqueamento de capitais tem raízes históricas que remontam à institucionalização da luta contra o crime organizado e ao reforço da cooperação internacional pós-Guerra Fria. Organismos como o GAFI (FATF), o FMI e o Banco Mundial contribuíram para a construção de um enquadramento normativo global, que hoje se traduz em obrigações de reporte, diligência e controlo por parte das instituições financeiras.

Do ponto de vista sociológico, o branqueamento de capitais representa uma forma de violência simbólica: distorce os mercados, perpetua desigualdades e mina a legitimidade das instituições. A sua existência normalizada em determinados contextos culturais revela falhas sistémicas na arquitetura social e económica. Combater o branqueamento é, por isso, mais do que aplicar normas — é reconstruir confiança.

 

Este fenómeno também ilustra como a criminalidade económica se adapta às estruturas sociais existentes, explorando vulnerabilidades culturais e institucionais. Em sociedades onde a informalidade é tolerada, os mecanismos de branqueamento encontram terreno fértil, reforçando redes ilícitas que se infiltram nas esferas política e empresarial. Assim, a luta contra o branqueamento é inseparável da promoção de uma cultura de legalidade e transparência.

  1. Limitações dos Modelos Tradicionais

Apesar dos avanços regulatórios, os modelos tradicionais de controlo enfrentam limitações estruturais. A centralização da informação, a dependência de intermediários e a fragmentação das jurisdições dificultam a eficácia dos mecanismos de prevenção. A burocracia excessiva, por vezes, transforma o compliance numa atividade formalista, mais preocupada com o preenchimento de requisitos do que com a deteção real de risco.

Além disso, a velocidade da inovação financeira — com o surgimento de fintech, ativos digitais e novos modelos de negócio — desafia a capacidade de adaptação dos sistemas existentes. O sector financeiro tradicional, por prudência ou por inércia, tende a reagir com resistência à mudança, o que pode representar uma oportunidade perdida.

Outro problema é a assimetria de informação entre reguladores e instituições financeiras. Enquanto os reguladores procuram impor normas universais, as instituições enfrentam realidades operacionais complexas, onde a aplicação literal das regras nem sempre garante eficácia. Esta tensão gera custos elevados e, paradoxalmente, pode criar zonas cinzentas que facilitam práticas ilícitas.

  1. Web3 e Blockchain: Uma Nova Perspetiva

A Web3 e a tecnologia blockchain introduzem uma nova lógica de funcionamento: descentralizada, transparente e programável. Ao contrário do que se possa pensar, estas características podem ser altamente compatíveis com os objetivos do combate ao branqueamento.

A imutabilidade dos registos, a rastreabilidade das transações e a possibilidade de integrar regras de compliance diretamente em contratos inteligentes (Smart Contracts) oferecem um novo paradigma de controlo. Em vez de confiar em intermediários, o sistema pode confiar na própria estrutura tecnológica para garantir integridade.

Além disso, a identidade digital verificável, baseada em credenciais criptográficas, permite conciliar privacidade com responsabilidade. Protocolos descentralizados de KYC (Know Your Customer) e AML (Anti-Money Laundering) estão a ser desenvolvidos por comunidades Web3, com o objetivo de criar ecossistemas financeiros mais seguros e inclusivos.

Exemplos práticos já começam a surgir: plataformas DeFi (Decentralized Finance) que incorporam mecanismos de verificação descentralizada, redes que utilizam protocolos criptográficos ZKP (zero-knowledge proof) para garantir privacidade sem comprometer a conformidade, e iniciativas globais que exploram interoperabilidade entre sistemas regulatórios e blockchains públicas. Estes avanços demonstram que a tecnologia não é inimiga da regulação, mas pode ser um catalisador para uma nova era de confiança digital.

  1. Desafios Éticos e Sociotécnicos

Naturalmente, esta transformação não está isenta de riscos. A tensão entre privacidade e transparência exige uma reflexão ética profunda. A inclusão digital torna-se uma condição essencial para que ninguém fique excluído dos novos modelos. E a regulação precisa de evoluir para acompanhar a complexidade dos sistemas distribuídos.

Mas estes desafios não devem ser vistos como barreiras intransponíveis. Pelo contrário, representam uma oportunidade para o sector financeiro português — e europeu —, liderar uma abordagem equilibrada, que combine inovação com responsabilidade.

Outro desafio é a governança das redes descentralizadas. Quem define as regras? Como garantir que os mecanismos de compliance não sejam capturados por interesses privados ou por atores maliciosos? A resposta passa por modelos híbridos de governança, onde comunidades tecnológicas, reguladores e instituições financeiras colaboram para criar padrões abertos e auditáveis.

  1. Perspetivas Futuras e Recomendações Estratégicas

Para que esta integração seja bem-sucedida, é necessário um plano estratégico que envolva:

  • Educação e capacitação: formar profissionais capazes de compreender tanto os aspetos técnicos da blockchain, como os princípios regulatórios.
  • Regulação adaptativa: desenvolver normas flexíveis que acompanhem a evolução tecnológica sem comprometer a segurança.
  • Parcerias público-privadas: fomentar projetos-piloto que testem soluções descentralizadas em ambientes controlados.
  • Inclusão digital: garantir que os benefícios da Web3 não se restrinjam a elites tecnológicas, mas cheguem a toda a sociedade.
  1. Conclusão

O combate ao branqueamento de capitais é, em última instância, uma luta pela integridade das instituições e pela justiça económica. A Web3 e a blockchain, longe de serem inimigas desse combate, podem ser aliadas poderosas — se forem compreendidas, enquadradas e aplicadas com inteligência.

Cabe ao sector financeiro dar o primeiro passo: abandonar a resistência e abraçar a transformação. Não como uma cedência, mas como uma evolução natural. Porque, tal como na arquitetura organizacional, a verdadeira força está na capacidade de adaptação. E as soluções encontradas até agora, não resolveram.

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