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Água: risco, eficiência e valor. O ciclo hídrico como variável financeira

Por, Dina Rato, ROC e senior adviser em Governance, Risk & Compliance

31 Jul 2026 - 07:30

7 min leitura

A água cobre 70% da Terra, mas menos de 3% é doce e apenas cerca de 1% é facilmente acessível. Ainda assim, só 3% é utilizada na produção de água potável, enquanto quase 67% da água doce se destina à agricultura, segundo o relatório Wastewater as a Resource, do Banco Europeu de Investimento (BEI). Acresce que muitas regiões ultrapassaram o stress ou a crise temporária e entraram numa condição estrutural de “falência hídrica”, segundo o relatório Global Water Bankruptcy de 2026, das Nações Unidas: durante décadas, retiraram mais água do que o clima e a hidrologia conseguem repor, consumindo não apenas o “rendimento” anual de rios, precipitação e humidade dos solos, mas também a “poupança” acumulada em aquíferos, glaciares, solos, zonas húmidas e ecossistemas fluviais.

Cerca de 70% dos principais aquíferos mundiais estão em declínio, a sobre-exploração das águas subterrâneas já provocou subsidência em mais de 6 milhões de quilómetros quadrados e perderam-se cerca de 410 milhões de hectares de zonas húmidas em cinco décadas.

Quase 4 mil milhões de pessoas enfrentam escassez hídrica severa pelo menos um mês por ano, mais de 1,8 mil milhões viveram em condições de seca em 2022–2023 e os danos anuais associados ascendem a cerca de 307 mil milhões de dólares. Em paralelo, a poluição, a salinização e outras formas de degradação reduziram a fração de água utilizável com segurança.

Quando os sistemas hídricos falham, diminuem as colheitas, aumentam os riscos sanitários e energéticos, agravam-se a desertificação, as tempestades de poeira e os incêndios, perdem-se empregos, deslocam-se comunidades e cresce a instabilidade (Global Water Bankruptcy, 2026). Entre 2021 e 2024, os incidentes em que a água foi causa, arma ou alvo, aumentaram de 140 para 419, segundo a Water Conflict Chronology.

A escassez de água é frequentemente abordada através da procura de novas origens: mais captações, barragens, transferências ou dessalinização. Num contexto de “falência hídrica”, ganha relevância a gestão eficiente de todo o ciclo da água, desde a captação ao tratamento e à circularidade, quando financeiramente justificada. O potencial de eficiência e poupança existe. Em Portugal, reduzir em 80% as perdas reais no abastecimento público permitiria poupar cerca de 74 milhões de euros anuais na aquisição de água em alta, segundo Relatório Anual dos Serviços de Águas e Resíduos em Portugal (RASARP) de 2025 da Entidade Reguladora dos Serviços de Águas e Resíduos.

A tecnologia existe: imagens de satélite sinalizam anomalias, sensores acústicos localizam fugas, caudalímetros, sensores de pressão, contadores inteligentes e sistemas de telemetria monitorizam a rede. Em conjunto, permitem identificar setores críticos, priorizar reparações e avaliar as intervenções.

Anualmente, são produzidos no mundo cerca de 380 mil milhões de metros cúbicos de águas residuais urbanas, volume que deverá aumentar 24% até 2030 e 51% até 2050, segundo o BEI. Contudo, mundialmente apenas 11% das águas residuais produzidas e 22% das tratadas são reutilizadas, segundo Jones et al. (2021), com dados de 2015 publicados na revista Earth System Science Data.

Em Portugal, em 2024, o volume tratado nas Estações de Tratamento de Águas Residuais (ETAR) correspondeu a cerca de 133% da água consumida, por conta de afluências indevidas (como infiltrações e entradas de águas pluviais), que sobrecarregam os sistemas de tratamento, cuja redução permitiria uma poupança potencial de cerca de 84 milhões de euros/ano (RASARP 2025). Em Portugal, em 2024, menos de 2% das águas residuais tratadas foram reutilizadas, sendo que num cenário de reutilização de 10% do volume tratado, o potencial de substituição de captações seria de cerca de 78 milhões de metros cúbicos por ano (RASARP 2025). A concretização deste potencial depende da gestão de riscos técnicos, sanitários, regulatórios e financeiros. A reutilização pode substituir água doce em usos compatíveis com a qualidade obtida, como rega agrícola e urbana, processos industriais, recarga de aquíferos e, com tratamento avançado e gestão do risco, abastecimento potável.

A agricultura é a principal aplicação mundial, seguida da rega paisagística e dos usos industriais. Windhoek, Singapura e a região da Flandres, na Bélgica, apresentam sistemas de grande escala em funcionamento. Na União Europeia, estima-se que 60% a 70% do valor potencial das águas residuais (água, calor, energia, nutrientes, minerais e outros materiais) permaneça por explorar. Estas contêm quase cinco vezes mais energia do que a necessária ao tratamento, sendo o potencial recuperável estimado cerca de 80% sob a forma térmica,  de 20% química e menos de 1% hidráulica.

Em Hamburgo, a ETAR produz 107% das suas necessidades de eletricidade e 113% das de calor, fornecendo ainda eletricidade a cerca de 5 700 habitações (Wastewater as a Resource, BEI). Este foi um dos temas do painel “Inovação empresarial nas transições climáticas urbanas”, que tive o prazer de moderar na 2.ª Conferência Internacional das Cidades pelo Clima, integrada na Lisbon Sustainability Week.

Debateram-se também a construção sustentável e industrializada, as comunidades de energia renovável, a mobilidade urbana e o papel das empresas na passagem da ambição climática para soluções práticas, escaláveis e financiáveis.

Compromisso, visão de longo prazo, colaboração no ecossistema e uma carteira previsível de projetos foram identificados como fatores essenciais. Aumentar a disponibilidade de água pode não significar captar mais, mas perder menos: impedir infiltrações e afluências indevidas, adequar a qualidade ao uso e reutilizar o recurso no ciclo económico.

A análise deve integrar redução de risco, diversificação de origens e viabilidade financeira. No setor agrícola, por exemplo, o custo das redes de transporte pode comprometer a reutilização: segundo o relatório Water Security: Scaling Up Water Reuse Solutions, da Veolia, esta infraestrutura pode custar até 20 vezes mais do que o tratamento. Possivelmente é necessário adotar um conceito de investimento mais amplo, que inclua não apenas captação, transporte, distribuição ou tarifa, mas também os custos da interrupção do fornecimento, da ineficiência e da degradação.

A interrupção do fornecimento implica perdas de produção, receitas e eventuais riscos de incumprimento contratual, que, segundo a Veolia, podem exceder 1 milhão de euros por hora em indústrias críticas, como a farmacêutica e a dos semicondutores. A ineficiência abrange água perdida e tratamento desnecessário: em Portugal, reduzir em 80% as perdas reais e as afluências indevidas representaria uma poupança potencial de 158 milhões de euros anuais (RASARP 2025).

Já a degradação inclui despoluição, tratamento adicional e perda de serviços ecossistémicos. Estima-se que a destruição de cerca de 410 milhões de hectares de zonas húmidas tenha eliminado serviços naturais (retenção de água, controlo de cheias, filtragem de poluentes, armazenamento de carbono e suporte à biodiversidade) avaliados em mais de 5,1 biliões de dólares, cuja perda pode traduzir-se em acrescidos custos de tratamento, proteção contra cheias, captações alternativas, reparação de danos e perdas na agricultura, turismo e pesca (Global Water Bankruptcy, NU).

O risco hídrico não é apenas ambiental: pode afetar receitas, margens, continuidade operacional. Projetos de eficiência, redução de perdas, reutilização e recuperação energética podem reduzir custos operacionais e exposição a interrupções.

O desafio consiste em avaliar não apenas o retorno direto, mas também os custos evitados e a resiliência reforçada. Integrar a disponibilidade, a qualidade, a eficiência e a circularidade da água não é, por isso, apenas uma questão de sustentabilidade, mas também financeira e gestão de risco, para as entidades gestoras do ciclo da água, para as empresas utilizadoras e para a sociedade em geral.

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