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Como as guerras afetam o crédito
Banco de Pagamentos Internacionais analisou 50 anos de conflitos e conclui que a “confiança” é o valor mais precioso no negócio financeiro
23 Mar 2026 - 07:30
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Foto: Adobe Stock/Angelov
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Numa altura em que o conflito no Médio Oriente está a abalar o sistema financeiro mundial, o Banco de Pagamentos Internacionais (BIS), considerado o banco central dos bancos centrais, publicou esta semana um documento de trabalho que investiga como eventos geopolíticos, tanto negativos como positivos, afetam a atividade bancária global.
Com base em estatísticas bancárias confidenciais do BIS — consideradas das mais fiáveis do sistema financeiro — e abrangendo quase cinco décadas (1977–2024), a investigação, realizada por seis economistas (Lorenz Emter, Laura Kuitunen, Arnaud Mehl, Peter McQuade, Swapan-Kumar Pradhan e Goetz von Peter), analisa de que forma o crédito bancário internacional entre milhares de pares de países é influenciado pelas suas diferenças geopolíticas.
O objetivo é avaliar o impacto de eventos negativos e positivos na concessão de crédito, tendo sido considerados até 12.000 pares de países sob a ótica das respetivas diferenças geopolíticas.
As principais conclusões indicam que eventos negativos reduzem o crédito entre blocos geopolíticos entre 10% e 20% mais do que dentro dos próprios blocos. Em contrapartida, eventos positivos não apresentam um efeito comparável sobre o crédito, mesmo quando impulsionam os fluxos comerciais.
Segundo o relatório, esta assimetria decorre do maior nível de confiança exigido para que o crédito bancário internacional regresse à normalidade, em comparação com o comércio de bens, uma vez que o primeiro envolve uma dimensão intertemporal mais pronunciada, exigindo um grau de confiança sustentado ao longo do tempo.
O documento analisa a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, a anexação da Crimeia, em 2014, e a invasão do Afeganistão, em 1979, que pôs termo ao período de “détente” entre os blocos ocidental e soviético. Do lado dos acontecimentos positivos, foi analisada a queda do Muro de Berlim, em 1989.
Para todos estes eventos, os autores compararam posições transfronteiriças bilaterais de até 12.000 pares de países, com frequência trimestral, entre 1977 e 2024, constituindo, provavelmente, o conjunto de dados macrofinanceiros internacionais mais abrangente disponível para um período histórico tão alargado.
Os resultados mostram que a distância geopolítica entre países tende a penalizar a atividade bancária entre os mesmos. Uma diferença de apenas uma unidade nas posições geopolíticas entre dois países está associada a uma redução de 21% no crédito internacional. Para além deste efeito de nível, um aumento de uma unidade na distância geopolítica está associado a uma redução estimada de 17% no crédito.
O estudo refere ainda que “as diferenças geopolíticas afetam a concessão de crédito tanto nos balanços dos bancos como nas garantias e compromissos de crédito fora do balanço. A componente menos afetada é o crédito registado pelas filiais locais no país do mutuário: a atividade local revela-se, em larga medida, insensível às alterações geopolíticas”.
Talvez o resultado mais marcante seja a assimetria nos efeitos dos acontecimentos geopolíticos. Eventos adversos, como a invasão da Ucrânia pela Rússia, têm um impacto negativo significativo, traduzindo-se numa redução substancial do crédito transfronteiriço entre blocos geopolíticos, tipicamente entre 10% e 20% superior à verificada no crédito dentro dos blocos. Este efeito é comparável, em magnitude, ao impacto no comércio identificado em estudos anteriores.
Em contrapartida, o principal evento geopolítico positivo analisado — a queda do Muro de Berlim — não gerou um efeito expansionista semelhante no crédito internacional. Este resultado contrasta de forma marcante com o comércio internacional, que registou uma expansão generalizada em resposta ao mesmo acontecimento geopolítico.
Os autores referem que “o mecanismo económico subjacente a este resultado reside no facto de as transações financeiras assentarem, fundamentalmente, na confiança. O crédito, sobretudo o de longo prazo e sem garantias, é intrinsecamente mais dependente de confiança do que as transações de bens (Kiyotaki e Moore, 2001, 2002)”.
“Las decisões financeiras envolvem considerações intertemporais, compromissos entre o presente e o futuro, e requerem mecanismos de compromisso. Os passivos financeiros são promessas, frequentemente não garantidas, estabelecidas ao longo de vários anos. Em contraste, o comércio de bens envolve a troca de dinheiro por bens tangíveis, normalmente em horizontes temporais mais curtos. Quando a confiança é corroída por tensões geopolíticas, ou quando precisa de ser (re)estabelecida entre blocos geopolíticos distantes, a construção da confiança necessária às transações financeiras revela-se mais difícil do que no caso do comércio de bens”, refere o relatório.
Como resultado, conclui o trabalho do BIS, “quando as tensões geopolíticas diminuem, os fluxos financeiros entre blocos geopolíticos recuperam mais lentamente do que os fluxos comerciais. A resposta das finanças a acontecimentos geopolíticos tende, assim, a ser assimétrica, com os fluxos financeiros a não registarem uma expansão em resposta a eventos geopolíticos positivos que, simultaneamente, impulsionam o comércio”
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