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África aposta em sistemas de pagamentos não baseados no dólar
Com o impulso da China e da Rússia, os países africanos alegam questões de custo para adotarem um sistema de pagamentos e liquidações em moedas locais. EUA ameaçam com represálias.
24 Jun 2025 - 08:20
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Os esforços africanos para adotar sistemas de pagamentos em moeda local, outrora vistos como uma aspiração distante, estão a começar a concretizar-se, alimentando a esperança de um comércio intrarregional mais barato e eficiente. Isto devido ao recurso ao Sistema Pan-Africano de Pagamentos e Liquidações (PAPSS), lançado em janeiro de 2022, após uma fase-piloto em seis países da África Ocidental e que está a começar a disseminar-se.
A iniciativa representa um passo estratégico para reduzir a dependência do dólar norte-americano, cujo uso generalizado tem drenado os recursos financeiros do continente.
Contudo, segundo apurou a agência Reuters, o afastamento do dólar está a gerar resistência. O presidente dos EUA, Donald Trump, tem reiterado o seu compromisso em manter o dólar como a principal moeda de troca no comércio internacional, ameaçando represálias contra países que promovam alternativas.
África segue, assim, uma tendência global impulsionada por potências como a China, que procura desenvolver infraestruturas financeiras autónomas face às instituições ocidentais. Também a Rússia, alvo de sanções internacionais, tem manifestado interesse em sistemas de pagamento fora da esfera do dólar.
Apesar das implicações geopolíticas, os defensores africanos deste novo paradigma argumentam com base económica. “O nosso objetivo, ao contrário do que muitos pensam, não é a desdolarização”, afirmou Mike Ogbalu, diretor executivo PAPSS, à Reuters, destacando que este sistema permite transações diretas em moedas locais. “As economias africanas enfrentam sérias dificuldades na obtenção de moedas fortes para a liquidação de operações comerciais”, sublinhou.
Atualmente, os bancos comerciais africanos dependem fortemente de instituições financeiras estrangeiras para realizar pagamentos internacionais, mesmo quando se trata de comércio entre países vizinhos. Segundo a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), o comércio intra-africano é 50% mais caro do que a média mundial, em grande parte devido à intermediação cambial e à fraca infraestrutura logística.
Com a implementação de sistemas de pagamentos regionais, líderes africanos esperam estimular o comércio dentro do continente, fortalecendo a resiliência económica e promovendo a integração prevista no âmbito da Zona de Comércio Livre Continental Africana.
“A rede financeira existente, que é em grande parte baseada no dólar, tornou-se essencialmente menos eficaz para África e mais cara”, afirmou Daniel McDowell, professor da Universidade de Syracuse, em Nova Iorque, à agência noticiosa.
De acordo com dados compilados pelo PAPSS, no sistema atual de bancos correspondentes, estima-se que uma transação de 200 milhões de dólares entre duas partes em diferentes países africanos custe entre 10% e 30% do valor do negócio. A mudança para sistemas de pagamentos locais poderia reduzir o custo dessa transação para apenas 1%.
Sistemas como o PAPSS permitem que uma empresa de um país, como a Zâmbia, pague por mercadorias de outro país, como o Quénia, com o comprador e o vendedor a receberem o pagamento nas suas respetivas moedas, em vez de as converterem em dólares para concluir a transação.
A utilização de moedas como o naira nigeriano ou o rand sul-africano para pagamentos comerciais intra-africanos poderia poupar ao continente 5 mil milhões de dólares por ano em moeda forte, disse Ogbalu à Reuters.
Lançado em janeiro de 2022 com apenas 10 bancos comerciais participantes, o PAPSS está atualmente operacional em 15 países e integra 150 bancos comerciais na sua rede.
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