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De Guindos: “Os mercados estão a descontar um cenário muito benigno”

Vice-presidente do BCE esteve pela última vez na Comissão de Assuntos Económicos e Monetários do Parlamento Europeu para apresentar o Relatório Anual do supervisor europeu

04 Mai 2026 - 14:53

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Aurore Lalucq, presidente da Comissão de Assuntos Económicos e Monetários com Luís de Guindos, vice-presidente do BCE

Aurore Lalucq, presidente da Comissão de Assuntos Económicos e Monetários com Luís de Guindos, vice-presidente do BCE

O vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE) considera que a política fiscal e monetária enfrenta hoje desafios muito diferentes daqueles que enfrentou em 2021 e 2022. “Na minha opinião pessoal, o choque na oferta energética refletiu-se muito mais rapidamente na inflação do que no crescimento económico”, referiu Luís de Guindos esta segunda-feira, em Estrasburgo, onde apresentou, pela última vez (o seu mandato como vice-presidente do BCE termina no final deste mês), o Relatório Anual do BCE.

De acordo com o responsável, “o valor das ações continua a estar muito elevado e os mercados estão a descontar um cenário muito benigno: que o conflito não vai durar muito, que a economia não vai sofrer significativamente, que a política monetária será irrelevante e que o investimento em Inteligência Artificial vai continuar a sustentar o crescimento económico. Se este cenário não se materializar, pode existir uma correção, e nós temos dado indicações disso nos nossos relatórios de Estabilidade Financeira”.

Na sua intervenção inicial, De Guindos referiu que “em 2025 concluímos também a avaliação da estratégia de política monetária do BCE. Reafirmámos a meta simétrica de inflação de 2% a médio prazo e reconhecemos a importância de uma resposta suficientemente enérgica e persistente a desvios significativos e sustentados da meta de inflação, em qualquer direção. A avaliação também sublinhou a importância de as nossas deliberações de política monetária considerarem não só a trajetória mais provável para a inflação e o crescimento, mas também os riscos e as incertezas inerentes – por exemplo, através da utilização ativa de cenários”.

Segundo o responsável, o “BCE mantém o foco no seu mandato de estabilidade de preços. A atual conjuntura económica é altamente incerta em função da guerra no Médio Oriente, e os mercados de energia permanecem voláteis. O Conselho do Governadores, que continua a seguir uma abordagem baseada em dados e em decisões tomadas em cada reunião, decidiu manter as taxas de juro inalteradas na sua última reunião, na semana passada. Acompanharemos atentamente os desenvolvimentos para cumprir o nosso mandato”.

O relatório anual do BCE inclui uma secção dedicada ao euro digital, onde a instituição liderada por Christine Lagarde refere que “o Conselho de Governadores decidiu, no final de outubro, avançar para a próxima fase do projeto do euro digital. Partindo do pressuposto de que o regulamento do euro digital será adotado em 2026, o BCE pretende estar preparado para uma possível primeira emissão em 2029”.

“Em março de 2026, os prestadores de serviços de pagamento foram convidados a participar num projeto-piloto que terá lugar no segundo semestre de 2027. O foco da fase atual do projeto centra-se em três linhas de trabalho principais: garantir a prontidão técnica, aprofundar o envolvimento do mercado e apoiar o processo legislativo. O trabalho segue uma abordagem modular e flexível, permitindo uma expansão gradual e limitando os custos até que seja tomada uma decisão final sobre a emissão”, refere o relatório.

No relatório anual o Banco Central Europeu (BCE) lembra que a moeda única tem mantido a sua posição como a segunda divisa internacional mais importante, a seguir ao dólar dos Estados Unidos, e refere que “a recente evolução geopolítica representa desafios e oportunidades para o papel internacional do euro”.

Por um lado, diz, “alguns bancos centrais aumentaram a respetiva compra de ouro, os países BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) estão a explorar alternativas aos sistemas de pagamentos transnacionais tradicionais e a Administração dos Estados Unidos está a apoiar a utilização a nível mundial de criptomoedas estáveis com base no dólar dos Estados Unidos”.

Por outro lado, avisa, “o reforço da credibilidade geopolítica da Europa e a reconstrução do seu poder coercivo deverão também ajudar a reforçar a confiança no euro a nível mundial”.

“Entretanto, as tarifas impostas pela Administração dos Estados Unidos no início de abril de 2025 desencadearam um enfraquecimento acentuado do dólar dos Estados Unidos, a par de taxas de juro de longo prazo mais elevadas – uma rara correlação cruzada entre ativos”, o que, segundo o BCE “indica que os investidores poderão estar a examinar de forma cada vez mais rigorosa o papel do dólar dos Estados Unidos como moeda segura”.

Segundo o BCE, “uma paisagem em mutação poderia abrir caminho a um maior papel internacional do euro”, com três potenciais implicações positivas.

No documento, o banco central admite que esse cenário levaria a “uma procura mais forte de títulos de dívida denominados em euros” que “permitiria aos governos e às empresas obter crédito a taxas inferiores”, refere que mais fluxos comerciais denominados na divisa europeia “protegeriam a a área do euro de flutuações das taxas de câmbio” e que a Europa ganharia autonomia estratégica que a ajudaria a proteger-se “de sanções ou de outras medidas coercivas”.

No entanto, diz, “o euro só prosperará se for apoiado por políticas adequadas”, como “a promoção da união da poupança e dos investimentos”, a “eliminação das barreiras na União Europeia” para melhorar a “profundidade e liquidez dos mercados de financiamento do euro”, e a “emissão planeada de obrigações a nível da UE”.

O BCE garante que está “a dar o seu contributo”, designadamente com a aposta no euro digital e com uma melhoria “dos sistemas de pagamentos transnacionais entre o euro e outras moedas”.

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