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3 min leitura

Sem cara nem coroa

Por Miguel Alexandre Ganhão, Editor Executivo do Jornal PT50

23 Mai 2026 - 07:30

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Miguel Alexandre Ganhão, Editor-executivo Jornal PT50

Miguel Alexandre Ganhão, Editor-executivo Jornal PT50

Não há cara nem coroa no euro digital. Trata-se de um token da moeda única, talvez o maior avanço na integração europeia desde o Tratado de Roma, em 1957. Mas existem forças conflituantes nesta caminhada para uma moeda soberana, defendida por um banco central, mas sem existência física.

De um lado estão aqueles que, como o Banco Central Europeu (BCE), o presidente do Eurogrupo ou o líder do Conselho de Estabilidade Financeira (Financial Stability Board), defendem que cada mês de atraso no processo de implementação do euro digital representa uma eternidade na corrida pela soberania dos meios de pagamento do futuro.

Do outro lado, em particular as instituições bancárias, mas também muitos políticos e até alguns supervisores, aconselham calma, ponderação e uma definição clara de calendários, como se observou esta semana após a reunião da Federação Bancária Europeia, no Chipre. O receio é o de um êxodo descontrolado de depósitos dos bancos para o banco central, com inevitáveis reflexos nos balanços bancários e na capacidade de financiamento da economia.

Esta temática assume renovada atualidade, uma vez que, tal como o Jornal PT50 noticiou, a fase de candidaturas para integrar o projeto-piloto do euro digital do Banco Central Europeu terminou no passado dia 14 de maio. Esta experiência-piloto decorrerá durante um ano, a partir do segundo semestre de 2027.

No ambiente controlado do Eurosistema serão realizadas transações reais com sistemas de pagamentos que aderiram à iniciativa e com comerciantes europeus que também aceitaram o repto lançado pelo BCE. Serão criadas carteiras digitais através das quais consumidores selecionados — nomeadamente funcionários dos bancos centrais que participam no Eurosistema — poderão adquirir bens e pagá-los com euros digitais.

O desafio é enorme. E enormes são também os receios e as dificuldades. Mas, como referiu Andrew Bailey, presidente do FSB, na sua audição no Parlamento Europeu, há importantes players internacionais que aguardam a chegada da moeda europeia digital e questionam as razões de tantas hesitações.

A questão do euro digital não pode ser resolvida através de um lançamento de moeda ao ar; tem de conseguir agregar todas as vontades num calendário ambicioso, mas seguro, para todo o sistema financeiro europeu.

Mas, para que isso seja possível, são necessários vontade e empenho. Vontade através de uma divulgação efetiva do projeto junto de todos os cidadãos europeus. Empenho na apresentação de soluções construtivas, ou até alternativas, por todos os players, para uma concretização o mais perfeita possível deste novo ecossistema financeiro.

Se estamos perante “um projeto existencial para a Europa”, como afirmou ontem Kyriakos Pierrakakis, presidente do Eurogrupo, é necessário que a dinâmica política tente acompanhar a sempre superior velocidade tecnológica, pois só assim teremos uma moeda segura e globalmente aceite.

No processo de evolução digital do sistema financeiro mundial, a União Europeia não pode perder a cara, já que dificilmente conseguirá exibir a coroa.

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