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Lisa Cook: “A inflação está muito alta”
Governadora da Reserva Federal que Trump tentou demitir aponta o investimento em IA como um dos fatores de pressão sobre os preços e admite subir as taxas de juro
06 Ago 2026 - 15:29
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Trump e Lisa Cook | Fotos: whitehouse/wikipedia
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Trump e Lisa Cook | Fotos: whitehouse/wikipedia
“A inflação está muito alta.” Este foi o diagnóstico feito por Lisa Cook, governadora da Reserva Federal (Fed) norte-americana, cuja demissão foi tentada por Donald Trump, que invocou uma alegada irregularidade relacionada com um empréstimo hipotecário contraído para a aquisição de uma segunda habitação. O Supremo Tribunal dos Estados Unidos considerou inconstitucional, por cinco votos contra quatro, a tentativa da Casa Branca de afastar a governadora do cargo.
Num discurso proferido esta semana na Corporação para o Desenvolvimento Económico de Anchorage, no Alasca, Lisa Cook afirmou que “vejo a economia dos Estados Unidos como resiliente e a crescer de forma sólida. A inflação continua persistentemente elevada e permanece acima da meta de 2% há mais de cinco anos, situando-se em 3,5% em julho. Ao mesmo tempo, o mercado de trabalho parece estável, com baixos níveis de contratação e de despedimentos”.
“Pensando, em primeiro lugar, na vertente da estabilidade de preços do nosso mandato, a minha avaliação é simples: a inflação está muito alta. Esta tem sido a minha opinião há bastante tempo e constatei que a inflação se afastou significativamente da nossa meta ao longo do último ano. O panorama da inflação melhorou ligeiramente em junho, o mês mais recente para o qual dispomos de dados. No entanto, não atribuiria demasiada importância a um único indicador, sobretudo num contexto que continua a ser altamente incerto”, acrescentou.
Segundo a governadora, “o índice de preços das despesas de consumo pessoal (PCE) aumentou 3,7% nos 12 meses terminados em junho, quase o dobro da nossa meta. Os preços elevados da energia, em consequência do conflito no Médio Oriente, contribuíram significativamente para a inflação ao longo do último ano, mas não são o único fator. O índice subjacente, que exclui os preços dos alimentos e da energia, aumentou 3,3% no mesmo período”.
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“Este ano surgiram duas fontes inesperadas de pressão sobre os preços: o conflito no Médio Oriente aumentou os custos da energia e de determinados bens, enquanto as empresas intensificaram os investimentos em infraestruturas de inteligência artificial (IA). Esta vaga de investimento fez subir os preços dos semicondutores, do equipamento tecnológico, do software e dos serviços públicos. Em conjunto, estes desenvolvimentos agravaram os riscos de subida da inflação”, afirmou.
Cook salientou ainda que “o crescimento económico dos Estados Unidos continua sólido este ano. Em termos reais, o PIB cresceu a uma taxa anualizada de 1,8% no primeiro semestre e deverá acelerar no segundo semestre. Um dos principais motores deste crescimento é precisamente o investimento em inteligência artificial. O investimento empresarial total aumentou a uma taxa anual de 10% durante o primeiro semestre”.
Quanto à política monetária, Lisa Cook reiterou que “a inflação continua muito elevada e considero que, neste momento, os riscos para a inflação são superiores aos riscos para o emprego no âmbito do nosso duplo mandato. Por essa razão, estou preparada para aumentar as taxas de juro, se tal se revelar necessário”.
“O mercado de trabalho e o crescimento da economia permanecem atualmente estáveis. Naturalmente, avaliaria o impacto que uma subida das taxas de juro poderia ter sobre essa estabilidade. Ainda assim, apoiaria um aumento, se necessário, para reduzir a inflação. É possível, contudo, que tal não venha a ser necessário. Algumas forças desinflacionistas já estão em ação e poderão conduzir a inflação de volta à nossa meta de 2% sem necessidade de novas subidas das taxas”, referiu.
Para Lisa Cook, existem vários fatores que poderão contribuir para a desaceleração da inflação. “Os efeitos das tarifas anunciadas no ano passado sobre o nível geral dos preços já ficaram para trás. Assim, embora essas tarifas expliquem uma parte importante da inflação observada nas variações homólogas dos últimos 12 meses, poderão deixar de exercer uma pressão significativa sobre os preços no futuro.”
“Em segundo lugar, embora os preços do petróleo continuem elevados face ao início do ano devido ao conflito no Médio Oriente, muitos analistas antecipam uma descida até ao final do ano, proporcionando algum alívio desinflacionista. Ainda assim, tal como acontece com a política comercial, a incerteza permanece elevada”, afirmou.
“Por último, parte da recente pressão sobre os preços dos bens resulta da alteração da procura provocada pela expansão da inteligência artificial. A forte procura por semicondutores, em particular, levou a aumentos expressivos dos preços dos equipamentos eletrónicos de alta tecnologia. À medida que as cadeias de abastecimento se ajustarem e os ganhos de eficiência se consolidarem, acredito que uma parte da pressão inflacionista associada à expansão da IA diminuirá”, concluiu Lisa Cook.
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