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Manuel Gonçalves Ferreira: “Os neobancos fizeram algo que a banca tradicional tinha deixado de fazer: colocaram o cliente no centro do design do produto”
Manuel Gonçalves Ferreira passou a integrar o advisory board da Zango AI, depois de anos na banca. Em entrevista ao Jornal PT50, falou sobre o que vai mudar no compliance, no comércio de criptoativos e na entrada dos novos players financeiros
14 Abr 2026 - 07:31
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Manuel Gonçalves Ferreira passou a integrar o advisory board da Zango AI
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Manuel Gonçalves Ferreira passou a integrar o advisory board da Zango AI
Foi convidado para integrar o advisory board da Zango AI, empresa multinacional fundada em 2024 que desenvolve soluções de inteligência artificial (IA) aplicadas à conformidade no setor financeiro, com presença na Europa, no Reino Unido, nos Estados Unidos e na Índia, e escritórios em Londres, Lisboa e Bangalore.
Manuel Gonçalves Ferreira passou mais de três décadas na chamada banca tradicional. Foi no banco espanhol BBVA que desenvolveu a maior parte da sua carreira, tendo exercido funções como Executive Board Director e Managing Director nas áreas de Corporate & Investment Banking, Global Markets e Asset Management.
Foi ainda Executive Chairman da BBVA Fundos (gestão de fundos de pensões) e Country Manager da BBVA Mediación (corretagem de seguros).
Em conversa com o Jornal PT50, Manuel Gonçalves Ferreira abordou o futuro do sistema bancário nos seus temas mais fraturantes: o futuro do compliance no combate ao branqueamento de capitais e ao financiamento do terrorismo, a comercialização de criptoativos e as relações entre os bancos tradicionais e a nova realidade financeira representada pelos “neobancos”.
Jornal PT50 – Quais os principais desafios ao nível do compliance que se colocam às instituições financeiras face às novas exigências da AMLA?
Manuel Gonçalves Ferreira – A AMLA representa uma rutura com o modelo que conhecemos. Durante décadas, a supervisão AML/CFT foi feita a nível nacional, com interpretações e níveis de exigência que variavam significativamente de país para país. Com a AMLA operacional desde julho de 2025 e o novo regulamento a entrar plenamente em vigor em 2027, isso muda de forma estrutural: passa a existir um único rulebook europeu, diretamente aplicável, sem grande margem para transposição nacional.
Para as instituições financeiras, os desafios são concretos. Primeiro, a harmonização obriga à revisão de políticas e procedimentos que foram construídos à medida de cada mercado — e essa revisão não é trivial, especialmente para grupos com presença em múltiplas jurisdições. Segundo, a AMLA vai supervisionar diretamente cerca de 40 instituições de maior risco e dimensão transfronteiriça — e quem for selecionado passará a ter um nível de escrutínio sem precedentes, incluindo inspeções e pedidos de informação detalhados sobre processos algorítmicos e de decisão. Terceiro, as sanções são substancialmente mais pesadas — até 10% do volume de negócios anual. O risco deixou de ser apenas reputacional; passou a ser financeiro e operacional de forma muito direta.
As instituições que ainda encaram o AML como uma obrigação meramente formal (check-the-box) poderão ter uma surpresa desagradável. Acredito que as estruturas bancárias afetas a este segmento terão de se tornar ligeiramente mais robustas.
PT50 – De que forma pode a IA ajudar na identificação de falhas ou fragilidades na relação entre os bancos e os chamados “bancos sombra”?
M.G.F. – O sistema bancário sombra (nomeadamente fundos de investimento, plataformas de crédito alternativo, family offices e entidades de financiamento não reguladas) representa um dos maiores pontos cegos do sistema financeiro europeu. A exposição dos bancos tradicionais a estas entidades é real, mas muitas vezes opaca: linhas de crédito, contrapartes em operações de mercado, relações de correspondência bancária. O problema não é a existência destas entidades — muitas são perfeitamente legítimas — mas sim a dificuldade em monitorizar a natureza e a evolução dessas relações ao longo do tempo.
É aqui que a IA tem um papel genuinamente diferenciador. A capacidade de analisar grandes volumes de dados transacionais, cruzar informação de múltiplas fontes e detetar padrões de comportamento anómalo — seja em termos de volume, frequência ou contraparte — vai muito além do que uma equipa humana consegue fazer de forma sistemática. Não se trata de substituir o julgamento do analista, mas de garantir que esse julgamento incide sobre os sinais certos, no momento certo. Num contexto em que a velocidade e a complexidade das transações financeiras continuam a aumentar, isso é uma vantagem que não pode ser ignorada. No limite, poderá mesmo deixar de ser necessário testar controlos por amostragem, passando-se a analisar a totalidade da população.
PT50 – Que cuidados são necessários quando uma instituição financeira decide entrar no negócio dos criptoativos?
M.G.F. – A entrada no universo dos criptoativos exige uma mudança de mentalidade, não apenas de procedimentos. As instituições financeiras tradicionais estão habituadas a operar com contrapartes identificadas, em mercados regulados e com trilhos de auditoria bem definidos. O mundo dos criptoativos introduz uma camada de complexidade qualitativamente diferente: pseudoanonimato, rapidez de liquidação, ausência histórica de intermediários centralizados e uma volatilidade que pode mascarar movimentos atípicos.
Os cuidados essenciais passam por três dimensões. A primeira é regulatória: o MiCA estabelece agora um quadro europeu mais claro, mas a implementação prática ainda está em curso e exige acompanhamento próximo. A segunda é tecnológica: a capacidade de rastrear transações on-chain, identificar wallets de risco e integrar essa informação nos sistemas de monitorização existentes é fundamental — e não está disponível de forma nativa nos sistemas bancários tradicionais. A terceira é de governance: quem decide, com que critérios e com que limites? Entrar neste mercado sem uma política interna robusta e uma linha clara de responsabilidades é um risco que nenhum conselho de administração deveria aceitar. A recompensa pode ser significativa, mas o custo de uma má gestão também.
PT50 – De que forma os neobancos transformaram o negócio bancário?
M.G.F. – Os neobancos fizeram algo que a banca tradicional tinha deixado de fazer: colocaram o cliente no centro do design do produto, e não a regulação ou a infraestrutura. O resultado foi uma experiência de utilização radicalmente mais simples, rápida e transparente — e isso criou uma nova expectativa nos clientes que já não é reversível.
Mas a transformação mais profunda não é a que se vê na interface; é a que acontece nos bastidores. Os neobancos demonstraram que é possível operar com estruturas de custo muito mais leves, sem o peso dos sistemas legados que continuam a condicionar os grandes bancos. Isso forçou uma reavaliação séria dos modelos operacionais em toda a indústria.
A resposta da banca tradicional tem sido híbrida: digitalizar o que é possível, adquirir o que faz sentido e tentar competir ao nível da experiência sem perder a vantagem da escala e da confiança. É um equilíbrio difícil, e nem todos o conseguirão alcançar. O certo é que o modelo de negócio bancário de há vinte anos já não existe — e quem ainda não interiorizou isso está a gerir uma realidade que já passou.
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