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Banca portuguesa sem pressa para aderir a consórcio de bancos que quer lançar ‘stablecoin’ indexada ao euro

A Qivalis, empresa criada por um consórcio de bancos europeus, ainda não conta com nenhuma instituição portuguesa. Entidades nacionais veem potencial, mas preferem ser prudentes.

30 Mai 2026 - 08:38

5 min leitura

Foto: Magnific

Foto: Magnific

A Qivalis, empresa sediada nos Países Baixos, incorpora o objetivo de lançar uma ‘stablecoin’ europeia, indexada ao euro, por um consórcio de bancos que já conta com 37 membros. Este projeto, lançado no ano passado, é uma forma de enfrentar o domínio americano na área dos pagamentos. As instituições aderentes pretendem que o lançamento ocorra até ao final de 2026. No entanto, nenhuma destas entidades é portuguesa.

O Jornal PT50 procurou saber, entre algumas instituições bancárias do país, se existem planos, ou vontade, de vir a integrar este consórcio. A conclusão: não há entusiasmo ou pressa, em geral, entre os bancos portugueses para aderir à Qivalis nem para entrar sequer no campo dos criptoativos – com exceções.

A única instituição que admitiu “vir a avaliar uma eventual participação futura” foi o Bison Bank, que, por sua vez, se tornou recentemente na primeira instituição bancária portuguesa a lançar precisamente uma ‘stablecoin’. Além dos produtos comercializados pelo Bison Bank, apenas o Novo Banco anunciou recentemente o acesso a criptoativos através da sua plataforma Trading Pro.

Sobre a adesão à Qivalis propriamente dita, “o Bison Bank mantém-se atento e aberto à avaliação de participação em iniciativas inovadoras no domínio dos criptoativos, incluindo projetos colaborativos entre instituições financeiras europeias”, aponta. O banco acrescenta ainda que esta possibilidade depende “da evolução do projeto e do enquadramento estratégico”.

O Bison Bank esclarece ainda que não considera que a iniciativa Qivalis seja concorrente direta da ‘stablecoin’ lançada pelo banco português, pois são direcionadas a públicos distintos. “A nossa solução foi concebida com foco em clientes institucionais regulados, enquanto iniciativas como a Qivalis parecem ter uma vocação mais orientada para o segmento de retalho”, indica.

A instituição reitera, contudo, que o desenvolvimento da sua ‘stablecoin’ “resultou de um projeto estratégico iniciado internamente há cerca de dois anos”, antes da entrada em vigor do MiCA ou do surgimento da Qivalis, o que, defende, “reflete uma visão própria e antecipada sobre o papel dos ativos digitais no setor financeiro”.

Ainda que não haja bancos nacionais a aderir ao consórcio, alguns dos acionistas das instituições portuguesas já fazem parte, como é o caso do Groupe BPCE, dono do Novo Banco, e do CaixaBank, proprietário do BPI. Este último, em resposta ao Jornal PT50, salienta que o seu acionista “é um dos grandes impulsionadores do referido consórcio e que este “é um tema que o Grupo CaixaBank acompanha e continuará a acompanhar”. No entanto, o BPI confirma que não prevê entrar no campo dos ativos digitais.

Já o Crédito Agrícola vai no mesmo sentido, revelando que, “até ao momento, não foram implementadas iniciativas concretas na área de criptoativos ou de ‘stablecoins’, mantendo-se o foco na modernização da infraestrutura tecnológica, na digitalização dos serviços e na melhoria contínua da experiência do cliente”.

Mais ainda, o banco liderado por Sérgio Raposo Frade indica que “o grupo tem vindo a privilegiar uma abordagem prudente, centrada na avaliação do enquadramento regulatório, dos riscos associados e do valor acrescentado para os clientes”.

Também a Caixa Geral de Depósitos (CGD) deixa no ar preocupações sobre a Qivalis, defendendo que “será essencial assegurar que a governação e o controlo, por parte dos bancos promotores, não compromete a equidade de acesso entre instituições, nem conduz à fragmentação dos mercados e à exclusão de clientes do novo ecossistema de pagamentos digitais”.

Bancos sublinham potencial de inovação

Mas nem tudo é mau. Os bancos portugueses reconhecem também o potencial do projeto e os possíveis benefícios. A CGD acredita que a Qivalis “pode contribuir para a modernização das infraestruturas financeiras europeias e a prossecução da União da Poupança e dos Investimentos”. Por sua vez, “o Crédito Agrícola reconhece o crescente papel da digitalização e da inovação tecnológica no setor financeiro, incluindo o desenvolvimento de ativos digitais e de novas infraestruturas de pagamento”, acrescenta.

O Bison Bank considera que “o principal benefício de iniciativas como a Qivalis reside na sua capacidade de mobilizar a banca europeia para a reflexão ativa sobre esta indústria, cuja relevância para o futuro do sistema financeiro é inequívoca”. “Este tipo de esforço conjunto contribui para acelerar o conhecimento, a experimentação e a adoção responsável de soluções baseadas em tecnologia blockchain no setor bancário”, remata.

CGD focada no euro digital

A CGD prefere, por outro lado, olhar para o euro digital enquanto parte relevante neste ecossistema de pagamentos. “O sucesso esperado da Qivalis irá refletir-se na inovação, competitividade e rendibilidade das instituições financeiras europeias, fortalecendo a adoção rápida e universal do euro digital em 2029, respeitando o papel central do BCE, contribuindo para o reforço da soberania monetária e a estabilidade do sistema financeiro”, argumenta o banco.

Neste sentido, refere que “tem vindo a acompanhar atentamente as tendências de evolução do sistema financeiro e das infraestruturas de pagamentos na era digital”. Mais ainda, a CGD assegura que “será um protagonista relevante no lançamento do euro digital, com capacidade para aproveitar as oportunidades associadas à criação de ‘stablecoins’ europeias, respondendo às expectativas e necessidades dos seus clientes”.

O Banco Montepio e o Millennium BCP recusaram prestar declarações sobre o assunto. O Novo Banco e o Santander Portugal não responderam até à publicação desta notícia.

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