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Piero Cipollone compara a tokenização à invenção da eletricidade
Membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu apela à rápida construção de uma nova arquitetura baseada na moeda do banco central
16 Abr 2026 - 10:16
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Piero Cipollone, membro do Conselho Executivo do BCE | Foto: ECB
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Piero Cipollone, membro do Conselho Executivo do BCE | Foto: ECB
A alteração do paradigma do sistema financeiro, com a introdução e negociação de ativos digitais, vai moldar o relacionamento futuro entre aforradores e prestadores de crédito. Piero Cipollone comparou a utilização da tokenização e da tecnologia de registo distribuído (DLT) à introdução da eletricidade no mundo industrial.
Num discurso proferido esta semana na Universidade de Harvard, em Washington, o membro do Conselho Executivo do Banco Central Europeu traçou um cenário futuro de um sistema financeiro baseado em tokens transacionados através de DLT.
“Desde o final do século XIX, o setor financeiro expandiu-se enormemente e a tecnologia tornou os mercados mais eficientes. No entanto, o custo de ligar um tomador de empréstimo a um aforrador praticamente não se alterou em termos agregados. O custo unitário da intermediação financeira nos Estados Unidos manteve-se relativamente constante, em torno de 2% dos ativos intermediados. Estas estimativas também são, em termos gerais, válidas para países europeus como a Alemanha, França e Reino Unido”, refere.
Para Cipollone, é possível que a tokenização venha a romper com este padrão histórico, permitindo ganhos de eficiência para aforradores e tomadores de crédito.
“A tokenização pertence a uma classe de inovação completamente diferente, que os economistas designam como tecnologia de uso geral”, afirma o responsável do BCE, explicando: “ao emitir ou representar ativos sob a forma de tokens digitais, cujas transações são normalmente registadas em redes DLT (Distributed Ledger Technology), a tokenização permite que todo o ciclo de vida de uma transação — emissão, negociação, liquidação e custódia — decorra num único ambiente digital, disponível 24 horas por dia, sete dias por semana”.
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“A tokenização pode fornecer uma única fonte de verdade partilhada, evitando a necessidade de conciliar múltiplos registos proprietários. Além disso, possibilita a automatização de processos, como o pagamento de cupões através de contratos inteligentes. Isto tem o potencial de simplificar o acesso ao financiamento, melhorar os serviços financeiros e reduzir custos”, acrescenta.
Mantendo o paralelismo com a introdução da eletricidade, Cipollone refere: “a eletricidade é o exemplo histórico mais claro. Foi uma tecnologia transformadora, mas exigiu uma reestruturação profunda da produção para desbloquear ganhos generalizados de produtividade. Como Paul David demonstrou na sua análise seminal das transições tecnológicas históricas, as fábricas inicialmente substituíram as máquinas a vapor por dínamos, mantendo inalterado o sistema centralizado de energia mecânica. Os ganhos de produtividade só se materializaram quando as fábricas redesenharam os seus fluxos de trabalho e layouts de acordo com a lógica da nova tecnologia, adotando motores individuais para cada equipamento e construindo instalações térreas mais leves e modulares”.
Para o responsável, “a tokenização pode ser igualmente transformadora, graças ao seu potencial para reestruturar as finanças. No entanto, para que os ganhos prometidos se materializem, os vários componentes do sistema financeiro terão de adotar a nova lógica”.
Cipollone defende que “é evidente que a tokenização e a tecnologia de registo distribuído (DLT) representam um tipo diferente de inovação financeira — uma inovação com potencial para gerar ganhos de eficiência incomparáveis às anteriores vagas de mudança tecnológica”.
Contudo, o que ainda não está claro para o responsável e para o BCE “é quanto tempo levará até que a tokenização e a DLT sejam amplamente adotadas e se a estrutura de mercado resultante promoverá a integração e a concorrência”.
“Esta questão é, na sua essência, institucional. Se a tokenização criará um sistema financeiro que reduza a distância entre aforradores e tomadores de empréstimo depende das escolhas políticas que fizermos, tal como a indústria elétrica foi moldada pelas decisões regulatórias e de normalização tomadas no início do século XX”, afirma.
Para o membro do Conselho Executivo do BCE, “temos uma janela de oportunidade para garantir que a arquitetura fundamental das finanças tokenizadas incentive um ecossistema integrado e competitivo — ancorado na moeda do banco central — que realmente melhore a forma como a economia é financiada”, concluindo: “isso determinará se a tokenização irá desencadear uma transformação que reduza efetivamente o custo do financiamento”.
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