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Quando a reputação da Administração faz toda a diferença no financiamento das sociedades
A segunda edição dos Top Talks Governance abordou o tema da governance na perspetiva dos acionistas e discutiu de que forma a escolha do ‘board’ pode ditar o êxito ou o fim de uma boa empresa
16 Set 2026 - 07:30
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Painel que falou sobre o relacionamento entre os acionistas e a gestão na segunda edição das Top Talks, moderado por de Marcos Soares Ribeiro, Presidente da CFA Society Portugal/Foto: Melissa Dores
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Painel que falou sobre o relacionamento entre os acionistas e a gestão na segunda edição das Top Talks, moderado por de Marcos Soares Ribeiro, Presidente da CFA Society Portugal/Foto: Melissa Dores
Uma boa governance é garantia de uma boa reputação, que é uma “via verde” para aceder aos mercados de financiamento. Esta foi uma das principais conclusões da segunda edição dos Top Talks, organizada pelo Jornal PT50 em parceria com a CFA Society Portugal, a Euronext Lisbon e a IVENS Governance Advisors, que se realizou ontem, em Lisboa, na sede da Euronext.
Enquadrado na Euronext Sustainability Week uma iniciativa promovida pela Euronext nos seus vários mercados europeus, que reúne empresas cotadas, investidores, reguladores e especialistas, o evento contou com um painel de personalidades com uma vasta experiência nas questões de Corporate Governance.
Isabel Ucha, CEO da Euronext Lisboa, João Talone, antigo CEO da EDP e um dos primeiros presidentes da Direção do Instituto Português de Corporate Governance, e o professor da NOVA SBE Executive Education, Duarte Pitta Ferraz analisaram, com a moderação de Marcos Soares Ribeiro, presidente da CFA Society Portugal, de que forma o relacionamento entre acionistas e o ‘board’, bem como as ligações entre este órgão e a administração executiva, podem ditar o sucesso ou o fim de uma sociedade, seja ela cotada, não cotada ou familiar.
Isabel Ucha deu as boas-vindas a todos os participantes e salientou a sua convicção de que só com mais integração será possível dar aos investidores mais serviços e plataformas mais eficientes onde a negociação ocorra cada vez mais célere e com custos cada vez mais baixos”.
A CEO da Euronext Lisboa recordou que esta é a 4ª edição da semana europeia da sustentabilidade e, “apesar de enfrentar algumas dúvidas de stakeholders e acionistas, temos a convicção de que sustentabilidade nas vária vertentes é uma condição de desenvolvimento e crescimento”, acrescentando que “continuamos empenhados em realizar estas sessões”.
O presidente da CFA Society Portugal considerou que olhar para a perspectiva dos acionistas sobre a governance na semana da sustentabilidade é uma “feliz coincidência”. Marcos Soares Ribeiro lançou o debate com a pergunta provocatória sobre “o que é ser um bom acionista?”, lançando o mote para o painel refletir sobre o relacionamento entre os vários órgãos de governance dentro das sociedades.
Isabel Ucha: “Informação, transparência e respeito pelo poder de decisão”
Em relação à questão da governance, seja em sociedades cotadas ou não cotadas, a CEO da Euronext Lisbon não tem dúvidas: “O elemento central para que tudo funcione bem é a informação, a transparência e o respeito pelo poder de decisão”.
Mas Isabel Ucha refere um outro fator: “a identificação dos próprios acionistas”, e justifica a sua escolha: “Hoje em dia, um cidadão japonês pode dar ordem a um banco do seu país para comprar ações na Europa. Por vezes, não é fácil fazer todo o circuito de informação perante este tipo de investidor. Procuramos, com o sistema bancário, identificar regularmente todos os acionistas, de modo a que a informação lhes possa chegar”.

Isabel Ucha, CEO da Euronext Lisboa/Foto Melissa Dores
“Se os acionistas não forem todos informados em igualdade de circunstâncias, não vão poder exercer os seus direitos”, referiu a CEO da Euronext, salientando o grande esforço que tem sido feito nesse sentido.
Já Duarte Pitta Ferraz, professor da NOVA SBE Executive Education e ‘Chairman’ das Infraestruturas de Portugal, defendeu que “os administradores trabalham para um ecossistema de ‘stakeholders’, onde os acionistas são os ‘stakeholders’ centrais”.
Para aquele académico, no sistema americano de governance existem três prioridades: “o acionista, o acionista e o acionista”. Já no sistema europeu, “não é apenas o acionista o foco central. Embora desempenhe um papel fundamental, uma vez que é quem tem a ideia, quem põe o dinheiro e quem vai nomear o Conselho de Administração”.
Pitta Ferraz: “A tentação é escolher para a Administração o meu parceiro de golfe”
E é para este último ponto que Pitta Ferraz chama a atenção: “A tentação é escolher o meu parceiro de golfe ou de pingue-pongue… mas é fundamental escolher bem um Conselho de Administração”.

Duarte Pitta Ferraz, Professor da Nova SBE Executive/Foto Melissa Dores
Para o professor, a “governance tem um grande objetivo: chama-se reputação. Se eu tiver reputação, vou conseguir duas coisas: levantar capital no mercado e ser capaz de atrair, motivar e reter talento. E é isto que me vai dar sustentabilidade ao negócio”, acrescentando, “se eu for ao mercado para me financiar, serei escrutinado”.
João Talone, um dos precursores das questões de governance em Portugal, não resistiu a contar os primeiros passos das boas práticas de gestão no nosso país. “Em 29 de janeiro de 2010, nesta mesma sala da Euronext, ia realizar-se a Assembleia Geral do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG), onde ia ser discutido e votado o primeiro Código de Governo das Sociedades. Na véspera dessa Assembleia, fui chamado pelos acionistas das principais empresas do PSI-20, que me avisaram de que se iam todos desvincular do IPCG porque estavam em desacordo com as regras do Código”.
João Talone: “Têm de existir regras para que, de uma forma preventiva, as organizações façam o seu papel na sociedade e na economia”
“Mais tarde, essas regras ficaram todas consagradas — com efeito, o IPCG aprovou o seu primeiro Código de Governo das Sociedades em 2013 — e hoje são indiscutíveis”, referiu Talone, acrescentando que “muitas das pessoas que, naquela altura, estavam à frente das empresas do PSI-20 abandonaram a atividade porque não cumpriram essas regras”.
O antigo CEO da EDP admitiu a sua relação dual com as questões da governance: “Têm de existir regras para que, de uma forma preventiva, as organizações façam o seu papel na sociedade e na economia, mas também acho que os códigos são um conjunto de normas brutal e que são muito difíceis de ler”.

João Talone, Presidente da Magnum Capital, Foto/Melissa Dores
“Temos imensas sociedades, também em Portugal, que ganharam os prémios de governance e, passados poucos anos, entraram em rutura por incumprimento dos princípios básicos que prometeram cumprir”, referiu Talone, acrescentando que “as empresas cotadas funcionam muito na ótica de uma boa localização no ranking da S&P, mas, na prática, não cumprem as regras de boa governance”.
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