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Recurso aos intermediários de crédito é mais frequente entre mutuários mais velhos, com menores rendimentos e menor literacia financeira

Estudo do Banco de Portugal revela que, no crédito ao consumo, a atividade dos intermediários simplifica o acesso ao financiamento, mas os juros são mais elevados no crédito pessoal

08 Jun 2026 - 14:59

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Foto: Pexels

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São as pessoas mais velhas, com menores rendimentos e menor literacia financeira que mais recorrem aos intermediários de crédito. A conclusão consta de um estudo realizado pelo Banco de Portugal, integrado na rubrica «Políticas em Análise» do Boletim Económico de junho divulgado nesta segunda-feira.

O supervisor refere nesse trabalho que, «em termos relativos, os mutuários que recorrem a intermediários para contratar crédito pessoal tendem a ser mais velhos do que os que contratam diretamente junto das instituições financeiras, com destaque para os maiores de 65 anos». Esta diferença reflete-se também na situação perante o trabalho, sendo a proporção de reformados mais elevada nos contratos celebrados através de intermediários do que nos contratados diretamente junto das instituições (17% face a 7%).

«Entre os reformados que contratam crédito pessoal através de intermediários, 24% dos novos montantes destinam-se a despesas de saúde e 44% à finalidade lar. Em contraste, entre os reformados que recorrem diretamente às instituições para obter crédito pessoal, 95% do crédito não tem finalidade específica ou destina-se a outras finalidades. No crédito automóvel, quer por idade quer pela situação perante o trabalho, não se verificam diferenças relevantes entre os dois canais de comercialização», adianta o relatório.

O estudo conclui ainda que os utilizadores dos intermediários de crédito são, em geral, «indivíduos com características normalmente associadas a menor literacia financeira». A distribuição dos mutuários por rendimento líquido evidencia também «uma maior proporção de mutuários com rendimentos mais baixos a recorrer a intermediários de crédito, em comparação com o crédito concedido diretamente pelas instituições financeiras, sobretudo no crédito automóvel».

Esta distinção não parece, contudo, influenciar os níveis de incumprimento. Segundo o Banco de Portugal, «embora seja expectável que mutuários com maior risco ex ante enfrentem custos de procura de financiamento mais elevados e, por isso, tenham maior incentivo para recorrer a intermediários, observa-se que os mutuários que contrataram crédito através deste canal entre 2021 e 2025 não apresentavam, em geral, historial de incumprimento».

Apenas 0,03% do crédito pessoal e 0,05% do crédito automóvel concedidos através de intermediários envolviam mutuários em situação de incumprimento em, pelo menos, um destes tipos de crédito. Em comparação, esses valores ascendiam a 1,2% e 0,3%, respetivamente, no crédito concedido diretamente pelas instituições financeiras.

De acordo com o supervisor, estes dados sugerem que os intermediários de crédito estão a cumprir a sua função de simplificar o processo de comercialização do crédito, tornando-o mais acessível.

Por outro lado, no que respeita ao custo do financiamento, e tomando a Taxa Anual de Encargos Efetiva Global (TAEG) como principal indicador, o trabalho do Banco de Portugal conclui que o crédito pessoal contratado através de um intermediário de crédito é, em regra, mais caro do que o contratado diretamente junto de uma instituição financeira.

«Para o crédito pessoal, os resultados sugerem que empréstimos semelhantes concedidos a mutuários semelhantes através de intermediários apresentam, em média, uma TAEG cerca de 1,2 pontos percentuais superior à observada na contratação direta», refere o estudo.

O Banco de Portugal acrescenta que «esta diferença pode refletir o valor que o consumidor está disposto a pagar para evitar procurar crédito diretamente junto das instituições financeiras e beneficiar do apoio do intermediário na comparação e explicação das propostas, aspeto que será tanto mais relevante quanto menor for a literacia financeira». Pode também refletir características de risco do mutuário que não são observáveis e cujo efeito, por isso, não está a ser medido. No crédito automóvel, não foi identificado qualquer diferencial significativo de TAEG entre os dois canais de contratação.

O documento salienta ainda que, «apesar do esforço de comparabilidade entre empréstimos, mutuários e mutuantes, os resultados desta análise não permitem eliminar totalmente um possível enviesamento das estimativas decorrente da autosseleção dos mutuários para cada canal de comercialização». Assim, os resultados devem ser interpretados como uma associação estatística e não como prova de que o recurso a intermediários conduz necessariamente a taxas de juro mais elevadas do que a contratação direta.

O estudo refere ainda que os «dados reportados pelas instituições de crédito ao Banco de Portugal relativos a 2025 indicam que cerca de 51% do montante de crédito aos consumidores e 56% do montante de crédito à habitação foram comercializados com a intervenção de um intermediário de crédito, ou seja, envolveram a participação de um intermediário em alguma fase do processo de contratação».

Desde a entrada em vigor do Regime Jurídico dos Intermediários de Crédito e após o termo do período transitório, em 31 de julho de 2019, o número de intermediários de crédito a operar no mercado do crédito aos consumidores tem vindo a aumentar gradualmente, atingindo os 4.835 no final de 2025.

Destes, cerca de 88% eram pessoas coletivas e 76,5%, 23,4% e 0,1% encontravam-se registados, respetivamente, como intermediários de crédito a título acessório, vinculados e não vinculados. Àquela data, cada intermediário a título acessório estava ligado, em média, a três instituições financeiras, enquanto cada intermediário vinculado trabalhava, em média, com oito instituições.

No final de 2025, 61% dos intermediários de crédito a título acessório registados como pessoas coletivas tinham como atividade principal o comércio a retalho de veículos automóveis, motociclos e respetivas peças e acessórios. Outros 8,6% desenvolviam atividades relacionadas com o setor automóvel, confirmando a relevância destes intermediários no segmento do crédito automóvel.

Os restantes atuavam sobretudo em atividades ligadas a outros setores do comércio e da saúde. Além disso, mais de metade dos intermediários tinha também registadas, como atividade secundária, atividades relacionadas com serviços financeiros, naturalmente associadas à intermediação de crédito.

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