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“Se perguntar a um motor de IA como fazer uma bomba, ele não responde. Mas responde a como construir um portfólio ótimo. Devia responder?”
Afonso Fuzeta Eça falava na conferência da CMVM, onde debateu com Mafalda Rebordão vários tópicos relacionados com IA e literacia na área dos investimentos.
27 Mai 2026 - 12:51
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Afonso Fuzeta Eça, administrador executivo do BPI | Foto: BPI
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Afonso Fuzeta Eça, administrador executivo do BPI | Foto: BPI
A Conferência Anual da Comissão do Mercado de Valores Mobiliários contou com um painel em que intervieram Afonso Fuzeta Eça, professor da Nova SBE e administrador do Banco BPI, e Mafalda Rebordão, ‘lead digital & AI transformation’ na Microsoft for United Nations. Os dois participantes discorreram sobre a literacia financeira, a proteção do investidor e, sobretudo, a literacia digital.
Mafalda Rebordão lançou o mote com a preocupação sobre a procura de informação sobre investimentos e instrumentos financeiros junto de motores de IA e também de criadores de conteúdo sobre este tema, os chamados ‘finfluencers’. Neste sentido, aponta que a literacia financeira anda de mão dada com a literacia digital, que, por sua vez, nos dias hoje engloba a literacia da IA.
Ainda sobre a utilização de IA para obter aconselhamento sobre investimentos, Afonso Fuzeta Eça questiona se isto devia sequer ser possível. “Se perguntar a um motor de IA como fazer uma bomba, ele não responde. Mas responde a como construir um portfólio ótimo. Devia responder?”
Ou seja, os motores de IA têm a indicação de que, por motivos éticos e de segurança, não devem responder a questões relacionadas com armas e outros tópicos adjacentes. Tratando-se de investimentos e a alocação das poupanças das pessoas, esta matéria deveria estar reservada a quem de direito.
Mafalda Rebordão acrescenta que a utilização destas ferramentas para tal é um problema tendo em conta que a larga maioria da população não tem a tal literacia de IA e, portanto, não sabe como, por exemplo, construir um ‘prompt’ para obter uma resposta adequada da parte do motor de IA. Exemplificando, pedir conselhos sem dar contexto sobre a situação económica ou qualquer outra informação vai levar a uma resposta mais pobre e, provavelmente, errada.
Esta questão leva a uma outra que tem ganhado preponderância no sistema financeiro e também na sociedade em geral, que se prende com a fraude. Afonso Fuzeta Eça realça que os esquemas fraudulentos são cada vez mais sofisticados e defende até que “a fraude é um organismo vivo”, no sentido em que se adapta quando algo está a ser bem defendido dentro de uma organização.
O administrador do BPI reforça que “a fraude é um negócio” e também “uma economia que, se fosse calculada, teria um valor significativo”. “É nosso dever denunciar as fraudes que vemos. A primeira linha de defesa somos nós, que consumimos o conteúdo”, apela, referindo-se à publicidade fraudulenta que surge nas redes sociais.
Pegando neste tema, Mafalda Rebordão recorda que as redes sociais também são um negócio por si mesmas e o algoritmo tem sempre como objetivo manter o utilizador dentro da plataforma, expondo-o ainda mais a estas tentativas de fraude.
Por fim, os dois intervenientes chegam a uma questão que não tem uma resposta concreta. A responsabilidade está no indivíduo ou nas instituições? Isto é, pode culpar-se uma pessoa por procurar a informação nos sítios errados ou cair em esquemas fraudulentos ou devem as instituições, tanto comercias como reguladoras, assumir uma parte da responsabilidade?
Mafalda Rebordão, que se formou em economia na Nova SBE, sublinha que quem tem uma educação superior é “privilegiado” e já tem uma vantagem face à restante população. Ainda assim, esta formação não garante um total conhecimento sobre o tópico nem assegura compreensão total de certos conceitos ou instrumentos financeiros. Logo, precisa de haver uma camada de proteção e ensino para contrariar isto, aponta, argumentando que é responsabilidade da sociedade garantir que existe informação fidedigna e acessível a todos.
Por sua vez, Afonso Fuzeta Eça deixa a nota de que a proteção do investidor não significa “seguros contra perdas”. “Investir vem com o risco de perda de capital. É essencial perceber isso”, defende. Rejeita ainda a ideia de que os portugueses são avessos ao risco. “[O português] é avesso à perda”, considera. “O português é capaz de gerir o risco. Basta ver a velocidade a que andam na autoestrada”, conclui, num tom mais leve.
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