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Banco de Espanha faz exercício sobre um «mundo sem dinheiro físico»

Supervisor considera que o cenário «apresenta riscos significativos, tanto do ponto de vista técnico como social», mas prevê que, até 2046, os meios de pagamento digitais sejam os preferidos por todas as faixas etárias

28 Jul 2026 - 14:51

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Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal e José Luis Escrivá, governador do Banco de Espanha/Foto: Banco de Espanha

Álvaro Santos Pereira, governador do Banco de Portugal e José Luis Escrivá, governador do Banco de Espanha/Foto: Banco de Espanha

É uma reflexão baseada em dados e tendências. O Banco de Espanha realizou nesta terça-feira um exercício prospetivo sobre um mundo sem dinheiro físico. Intitulado «Um mundo sem dinheiro: utopia ou distopia?», o estudo reúne um conjunto de estatísticas sobre a realidade espanhola para analisar as consequências de uma eventual eliminação do numerário.

A primeira conclusão é que «57% dos consumidores espanhóis continuam a utilizar dinheiro em espécie como principal meio de pagamento nos pontos de venda físicos», embora este esteja a perder terreno para os pagamentos móveis e para o Bizum — sistema espanhol de pagamentos instantâneos entre particulares, equivalente ao MB Way em Portugal.

Segundo um estudo realizado pelo supervisor espanhol, a idade continua a ser um fator determinante nos hábitos de pagamento. «As pessoas com mais de 54 anos utilizam predominantemente dinheiro em espécie, enquanto os consumidores entre os 35 e os 54 anos preferem os cartões bancários. Já os mais jovens recorrem sobretudo aos pagamentos móveis. Se estas tendências se mantiverem, prevê-se que os meios de pagamento digitais passem a ser os mais utilizados em todas as faixas etárias até 2046.»

«O que parece claro, no entanto, é que uma sociedade sem dinheiro físico não é iminente — pelo menos nas próximas uma ou duas gerações. Quanto ao euro, o Banco Central Europeu (BCE) apoia o lançamento do euro digital como uma versão eletrónica da moeda única, mas mantém o seu compromisso com o dinheiro físico e prepara uma nova série de notas de euro», refere o Banco de Espanha.

Para o supervisor espanhol, «a transição de uma economia baseada no dinheiro físico para uma economia sem numerário está longe de ser inevitável. No entanto, quanto mais o processo avança, mais difícil se torna revertê-lo. A transição não ocorre de forma automática, mas cada passo, seja em frente ou atrás, tem um custo».

O Banco de Espanha alerta ainda para o facto de «a facilidade de acesso ao dinheiro em espécie não dever ser considerada garantida». E explica porquê: «A manutenção da infraestrutura associada ao numerário — gráficas, casas da moeda, redes de distribuição, empresas de transporte de valores, caixas automáticos e agências bancárias — é complexa e dispendiosa. À medida que a utilização de dinheiro em espécie diminui, o custo por transação aumenta, reduzindo a eficiência e colocando em causa a continuidade dos serviços associados ao numerário.»

Se o dinheiro em espécie deixar de ser utilizado no quotidiano, a infraestrutura necessária para o produzir e distribuir terá inevitavelmente de ser reduzida. Segundo o Banco de Espanha, este cenário representa um risco significativo, uma vez que «numa situação crítica, poderemos deixar de dispor de uma rede suficientemente densa para garantir o acesso ao dinheiro em espécie».

Por tudo isto, o Banco de Espanha conclui que «um futuro sem dinheiro físico está longe de ser um desfecho inevitável e apresenta riscos significativos, tanto do ponto de vista técnico como social». O supervisor acrescenta que «o sucesso do nosso sistema de pagamentos não será medido pela rapidez com que eliminarmos o dinheiro físico, mas pela nossa capacidade de preservar simultaneamente a eficiência dos pagamentos digitais e a segurança proporcionada pelos pagamentos em numerário».

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