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Bárbara Barroso: “Portugal continua a ser um país de aforradores, não de investidores”
A fundadora da MoneyLab, no webcast "Capital de Ideias", defendeu que a educação financeira deve começar no primeiro ano de escolaridade e alertou para o custo de manter o dinheiro parado. Não perca tudo o que aprendemos com a Bárbara Barroso do MoneyLab e veja o webcast na integra.
29 Jul 2026 - 07:15
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Bárbara Barroso do MoneyLab partilha as suas ideias principais com Francisca Solnado do Jornal PT50
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Bárbara Barroso do MoneyLab partilha as suas ideias principais com Francisca Solnado do Jornal PT50
Portugal tem hoje mais informação financeira disponível, mas isso não significa que os portugueses estejam necessariamente mais preparados para investir. Para Bárbara Barroso, especialista em finanças pessoais e fundadora da MoneyLab, o país continua muito ligado à poupança tradicional e ainda não fez plenamente a transição de uma cultura de aforro para uma cultura de investimento.
“Continuamos a ser um país de poupadores e não um país de investidores!, afirmou no webcast “Capital de Ideias”, promovido pelo Jornal PT50, em parceria com o Santander.
Ao longo da conversa, realizada no novo Work Café do Santander em Campo de Ourique, Bárbara Barroso falou sobre a origem da MoneyLab, a importância de ensinar as crianças a lidar com o dinheiro, a sua própria estratégia de investimento e os principais mitos que ainda afastam os portugueses da construção de património.
Uma escola para ensinar a lidar com o dinheiro
A MoneyLab nasceu com o objetivo de levar a educação financeira às crianças e aos jovens. Numa primeira fase, o projeto não foi pensado como uma empresa, mas como uma iniciativa de literacia financeira que cresceu de forma gradual e orgânica.
O primeiro projeto chamava-se Laboratórios da Poupança e funcionava através de um modelo apoiado por parceiros, nomeadamente dos setores bancário e segurador. Esse financiamento permitia disponibilizar gratuitamente formação e conteúdos às populações.
“Não foi pensado necessariamente, numa fase inicial, como um negócio. Foi crescendo à medida que o próprio projeto foi crescendo”, explicou.
Com o tempo, a atividade alargou-se aos adultos e deu origem à atual MoneyLab, que Bárbara Barroso define como uma escola de educação e literacia financeira destinada a ajudar os portugueses a tomar melhores decisões e a construir património.
Educação financeira deve começar no primeiro ano
A fundadora da MoneyLab considera que a literacia financeira deveria estar integrada no ensino desde o primeiro ano de escolaridade.
A experiência adquirida em projetos com pessoas de diferentes idades, desde crianças de cinco ou seis anos até adultos com mais de 90 anos, mostrou-lhe que é possível trabalhar conceitos financeiros desde muito cedo.
“Quando começamos a trabalhar os hábitos desde pequeninos, vamos contribuir para cidadãos mais responsáveis e que vão tomar melhores decisões no futuro”, sustentou.
Embora reconheça que existem programas de educação financeira no âmbito da disciplina de Cidadania, considera que estes conteúdos continuam a não chegar de forma consistente a todas as escolas e a todos os alunos.
A especialista deu como exemplo os próprios filhos, que frequentam o ensino secundário e o terceiro ciclo e que, apesar de serem filhos de uma das figuras mais conhecidas da literacia financeira em Portugal, nunca tiveram educação financeira na escola.
“Quando algumas vozes dizem que isto já existe, não existe verdadeiramente. Cabe a cada escola escolher os programas que leva para dentro da Cidadania e ainda não está presente em todo o território”, afirmou.
Mais informação, mas pouca preparação para investir
Bárbara Barroso reconhece que a literacia financeira está hoje mais presente no debate público do que há duas décadas, quando começou a trabalhar estes temas no jornalismo e na produção de conteúdos.
“Lembro-me da primeira vez que disse “literacia financeira”. Ficaram a olhar para mim como se eu fosse uma “alien”. Hoje está na agenda e na boca de toda a gente”, recordou.
Contudo, a maior disponibilidade de informação não significa necessariamente que os portugueses estejam mais preparados para tomar decisões.
A especialista aponta para os elevados montantes aplicados em depósitos bancários e para a forte procura de Certificados de Aforro como sinais de uma cultura que continua a privilegiar a preservação do capital.
Não vê qualquer problema em poupar. O risco surge quando o dinheiro permanece durante longos períodos em produtos cuja remuneração não acompanha a inflação.
“Só geramos efetivamente capital e património se conseguirmos ganhos acima da inflação. Quando os valores estão alocados a instrumentos que não superam a inflação, não estão a criar riqueza”, alertou.
É este paradigma que a MoneyLab procura alterar, ajudando os portugueses a passarem de aforradores a investidores.
“Investir é para ricos” é o mito mais prejudicial
Entre os vários mitos financeiros que encontra nas formações, existe um que Bárbara Barroso considera particularmente prejudicial: a ideia de que é necessário ter muito dinheiro para começar a investir.
“Investir não é para ricos. Mas, se almejamos ser ricos, temos de investir”, afirmou.
A complexidade da linguagem financeira constitui outra barreira, mas a especialista considera que o maior obstáculo é a convicção de que o investimento não está ao alcance de quem não nasceu numa família privilegiada ou não dispõe de um rendimento elevado.
Para contrariar essa ideia, defende que se deve começar com pequenos montantes e criar uma rotina regular. Mais importante do que o valor inicial é desenvolver o hábito.
O primeiro dinheiro trouxe liberdade
A relação de Bárbara Barroso com o dinheiro foi influenciada pelos pais e pelos avós, que lhe transmitiram hábitos de poupança, prudência e contenção.
Ainda assim, recorda ter crescido numa geração em que não era habitual falar de salários ou de finanças em família. Só depois dos 40 anos soube quanto é que o pai ganhava.
“Sou de uma geração em que não se perguntava a idade às senhoras e não se falava de dinheiro”, contou.
Apesar desse silêncio, o pai investia em bolsa e foi uma das primeiras referências de Bárbara Barroso no contacto com o investimento.
A primeira experiência com dinheiro ganho pelo próprio trabalho aconteceu aos nove anos, quando recebeu mil escudos por ajudar a avó, que era empresária. Com esse dinheiro, entrou num café e ofereceu gelados à mãe e à família.
“Percebi o poder e a liberdade de ter o nosso próprio dinheiro. Se eu tenho o meu dinheiro, eu escolho e ainda posso pagar aos outros”, recordou.
Embora só tenha compreendido plenamente o significado desse episódio muitos anos depois, considera que aquele momento foi determinante para a relação que viria a desenvolver com a independência financeira.
Bolsa, imobiliário e negócios
Atualmente, Bárbara Barroso distribui o seu património por três grandes áreas: bolsa, imobiliário e participação no capital de empresas.
“Faço o chamado “walk the talk”. Não digo aos outros para fazerem aquilo que eu não faço”, afirmou.
Na bolsa, mantém uma carteira diversificada, embora com uma exposição significativa a ações, por considerar que esta é a classe de ativos que melhor remunera o capital no longo prazo.
O imobiliário cumpre diferentes objetivos, desde a geração de rendimento através do arrendamento até à valorização de imóveis por meio de obras e remodelações.
O terceiro pilar é constituído pelos negócios. Para além da MoneyLab, Bárbara Barroso participa no capital de várias empresas, conjugando a vertente financeira com o interesse pelo empreendedorismo e pela criação de novos projetos.
“Em termos de aceleração de património, os negócios têm uma componente importante de multiplicação”, explicou.
Entre os três pilares, a bolsa continua a ser a área que mais a entusiasma e na qual acumulou maior conhecimento. O imobiliário, admite, pode ser mais desgastante, sobretudo durante as obras.
Um risco que não tira o sono
A gestão dos investimentos tornou-se, ao longo dos anos, relativamente automática. Bárbara Barroso acompanha os mercados e presta maior atenção à carteira em determinados momentos económicos, mas procura manter um nível de risco que não a obrigue a monitorizar permanentemente os ativos.
“Estou muito confortável com o risco que tenho. Posso não olhar para os investimentos durante um ou dois meses e isso não me vai tirar o sono”, assegurou.
A experiência também lhe ensinou a reconhecer quando um investimento não é adequado ao seu perfil. Sempre que sente necessidade de acompanhar continuamente uma posição ou quando o risco começa a afetar o descanso, interpreta esse desconforto como um sinal de alerta.
Inteligência artificial serve para pesquisar, não para decidir
Bárbara Barroso já utiliza ferramentas de inteligência artificial na análise de informação, designadamente para resumir relatórios e apoiar pesquisas sobre empresas e mercados.
Contudo, rejeita a utilização da tecnologia como substituto do investidor ou do especialista.
A experiência mostrou-lhe que algumas ferramentas ainda cometem erros na recolha de dados e na realização de cálculos financeiros. Por isso, considera que toda a informação produzida por inteligência artificial deve ser sujeita a validação.
“Nunca utilizaria a inteligência artificial para tomar a decisão. Tem sempre de haver um especialista, um humano, a validar aqueles dados”, defendeu.
Ainda assim, acredita que a transformação provocada pela inteligência artificial será comparável ao aparecimento da internet e obrigará as empresas a rever modelos de negócio, processos e estratégias.
Para quem investe em bolsa, essa transformação terá também impacto nas cotações, uma vez que a capacidade de cada empresa para se adaptar à tecnologia acabará por refletir-se nos resultados e no valor de mercado.
Crédito à habitação exige uma decisão pessoal
Na escolha entre taxa fixa, variável ou mista no crédito à habitação, Bárbara Barroso rejeita respostas universais.
A taxa fixa pode ser indicada para famílias com orçamentos mais limitados, que valorizam a previsibilidade e não dispõem de margem para enfrentar uma subida das prestações. Contudo, essa segurança tende a ter um preço mais elevado.
A taxa variável pode ser mais adequada para quem pretende amortizar ou renegociar o empréstimo antecipadamente, enquanto a taxa mista ganhou popularidade por combinar um período inicial de estabilidade com uma componente variável.
“No final do dia, as pessoas não devem delegar esta decisão. Devem estar confortáveis, porque isto tem a ver com a gestão do orçamento familiar e com a gestão de risco”, afirmou.
Concentrar produtos no mesmo banco depende do perfil
Também não existe uma regra única sobre a conveniência de concentrar contas, cartões, poupanças e investimentos numa só instituição financeira.
Ter todos os produtos num banco pode simplificar a gestão quotidiana, mas não é necessariamente a solução mais barata. Em sentido contrário, distribuir produtos por várias instituições pode permitir encontrar melhores condições, embora exija maior acompanhamento e disponibilidade.
Segundo Bárbara Barroso, há consumidores que procuram permanentemente o preço mais baixo e outros que estão dispostos a pagar mais em troca de simplicidade.
O essencial é que a escolha seja consciente e não resulte de inércia.
“O sistema financeiro acaba por beneficiar da apatia que existe às vezes por parte dos portugueses”, observou.
Para a especialista, uma maior literacia financeira também beneficia as próprias instituições, porque permite aos clientes reconhecerem com maior facilidade o valor das soluções e distinguirem as ofertas que melhor respondem às suas necessidades.
“Não fazer nada também tem um custo”
Questionada sobre o conselho que daria aos portugueses se tivesse apenas um minuto, Bárbara Barroso respondeu sem hesitar: poupar e investir, mesmo que se comece com pouco dinheiro.
“Criar o hábito de poupar e investir. Não temos de ganhar dinheiro em tudo. Temos de entender e de estar confortáveis, mas temos de criar esse hábito”, afirmou.
A especialista alerta que adiar indefinidamente o investimento não é uma posição neutra.
“Não fazer nada tem um custo enorme. Não fazer nada é, por si só, uma decisão.”
Educação financeira como instrumento de transformação
Apesar de manter ambições para o crescimento da MoneyLab e de continuar a investir em diferentes projetos, Bárbara Barroso afirma que o principal objetivo já não é apenas financeiro.
O maior retorno, diz, está na transformação provocada na vida das pessoas que aprendem a gerir melhor o dinheiro, a controlar dívidas, a poupar e a investir.
“A educação financeira rompe a pobreza entre gerações. Vemos isso acontecer todos os dias e isso vale mais do que qualquer montante que eu possa adicionar”, sublinhou.
Mesmo perante a hipótese de ganhar 50 milhões de euros, acredita que mudaria pouco o seu estilo de vida. O capital serviria sobretudo para financiar projetos capazes de gerar impacto em Portugal.
“Tenho o grande privilégio de amar aquilo que faço. Provavelmente alocaria esse capital a alguns projetos que ainda gostava de desenvolver.”
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