7 min leitura
Madalena Rugeroni: “O dinheiro é uma ferramenta, não um objetivo”
Após uma brilhante carreira corporativa, esta empreendedora em série, especializou-se em apoiar e fazer crescer negócios digitais, seus e de outros. Agora fala-nos do que aprendeu sobre risco, património e o que realmente significa ser rico
12 Ago 2026 - 13:30
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Madalena Rugeroni com a entrevistadora Francisca Solnado, no webcast "Capital de Ideias"
Empreendedora, investidora e fundadora de projetos como a Favourite People, a Madgrowth e a Mazo, Madalena Rugeroni tem um percurso que atravessa a Google, a ToogoodToGo, a Bitpanda e a Amplemarket antes de se dedicar por inteiro aos seus próprios negócios. Em conversa gravada no Work Café do Santander, para a 2ª série do podcast “Capital de Ideias”, a empresária falou sobre a forma como construiu carreira, como gere as suas fontes de rendimento e o que aprendeu sobre risco e dinheiro.
Um percurso que começou “por acaso”
Com mais de 15 anos de carreira, Rugeroni estudou nos Estados Unidos, onde começou a trabalhar antes de regressar à Europa. Depois de várias candidaturas falhadas, entrou finalmente na Google, em Londres, onde permaneceu quase quatro anos. Foi aí que os planos mudaram: decidiu voltar a Portugal e fundar a MISC, a sua primeira empresa própria, que acabaria por fechar ao fim de três anos.
Seguiram-se passagens pela TooGoodToGo — onde liderou o lançamento em Portugal e chegou a gerir equipas em Espanha e no Reino Unido —, pela Bitpanda e pela Amplemarket, sempre em funções ligadas à gestão geral ou ao crescimento (growth). Foi durante uma licença de maternidade que surgiu a ideia da marca de jardineiras Favourite People, negócio que fundou com a irmã e do qual é hoje mais investidora do que gestora do dia a dia. Atualmente lidera a Madgrowth, uma consultora de *advisory* para startups tecnológicas, e a Mazo, uma plataforma de apoio a fundadores de B2B SaaS.
Questionada sobre se sempre soube que iria construir empresas, a resposta é direta: não. “Surgiu por acaso”, diz, recordando que até à faculdade imaginava uma carreira estável dentro de uma grande empresa. A mudança de rumo aconteceu quando começou a interessar-se por livros de negócios e desenvolvimento pessoal.
A lição da persistência — e do feedback que ajudou
As várias candidaturas rejeitadas pela Google deixaram uma marca. Foi um recrutador quem lhe deu, finalmente, um conselho concreto: para uma posição júnior, faria mais sentido candidatar-se na Europa do que nos Estados Unidos, e valeria a pena procurar diretamente os “hiring managers” em vez de se limitar a candidaturas pelo site. Rugeroni destaca esse momento como uma lição sobre persistência: não basta insistir da mesma forma, é preciso ajustar a abordagem e ir além do que é esperado — na altura, chegou a construir um site e um plano de negócios completo para um produto imaginado para a própria Google.
A empreendedora lamenta, aliás, que muitas empresas evitem dar esse tipo de retorno construtivo aos candidatos, limitando-se a um “não” sem explicação.
O risco mais assumido: despedir-se grávida
Entre as decisões profissionais mais arriscadas da sua carreira, destaca a saída da Bitpanda. Ao contrário da TooGoodToGo, ligada ao combate ao desperdício alimentar, a Bitpanda representava uma indústria — a das criptomoedas — que lhe era desconhecida, mas que via como oportunidade de aprendizagem e de trabalho remoto, algo que procurava por ter uma filha pequena. A adaptação, no entanto, não aconteceu: sentiu que a cultura e os valores da empresa não correspondiam ao seu perfil.
Ao fim de seis meses, e já grávida do segundo filho, demitiu-se. Recorda que a própria chefe questionou por que não pediu baixa médica antes de procurar outro emprego — sugestão que rejeitou, por considerar a gravidez incompatível com a ideia de doença. Meses depois, viria a ser a antiga chefe a confessar-lhe que a sua saída tinha sido uma inspiração. Seguiu-se a contratação pela Amplemarket, já sabendo que estava grávida, não hesitou em contratá-la, sublinha.
Riqueza como liberdade de escolha
Confrontada com a forma como via, em adolescente, o que era “ser rica” — associada então à posse de bens materiais, como casa, carro ou viagens —, Rugeroni diz que a definição mudou por completo. Hoje entende riqueza como liberdade de escolha: poder gerir o próprio tempo sem depender da autorização de terceiros, sustentada por independência financeira. “O dinheiro acaba por ser uma ferramenta e não um objetivo”, resume.
Também mudou a forma como via a progressão profissional. Se antes imaginava um percurso convencional — crescer dentro de uma empresa até chegar a um cargo de topo, como CEO de uma Google ou de um YouTube —, percebeu depois que a criação de riqueza é, para si, mais acessível através de negócios próprios, pelo crescimento pessoal que esse caminho implica.
Sobre a relação entre dinheiro e liberdade, é cautelosa: considera que o dinheiro não compra liberdade de forma direta, mas permite mais opções — e são essas opções, quando bem aproveitadas, que geram liberdade real. Há, sublinha, muita gente com bastante dinheiro mas sem tempo para o desfrutar.
“Como gere hoje as suas fontes de rendimento”
A Madgrowth garante-lhe estabilidade financeira através da atividade de “Advisory”. A Mazo, lançada há cerca de um mês, é o projeto de investimento a mais longo prazo. Investe ainda, de forma pontual, em startups em que acredita — nomeadamente através de “angel investment”, muitas vezes a partir de oportunidades que lhe chegam de forma inbound pelo trabalho de consultoria — e, sempre que tem capital disponível, aplica em ETFs, sobretudo indexados ao S&P 500 e ao Nasdaq, que descreve como o destino habitual da maior parte do seu investimento.
Confessa que, sabendo o que sabe hoje, teria começado a investir — e a construir marca pessoal, sobretudo no LinkedIn — muito mais cedo. Quanto à tolerância ao risco, distingue claramente: pouco arriscada em investimento de capital, mas disposta a arriscar bastante em negócios próprios.
Inteligência artificial: mais riqueza, mas também mais desigualdade
Questionada sobre as tendências que a deixam otimista, aponta a inteligência artificial, que lhe permite hoje gerir vários negócios em simultâneo com maior produtividade — chegou a criar uma plataforma tecnológica sem qualquer conhecimento de programação, recorrendo inteiramente a ferramentas de “vibe coding”. Acredita que a IA vai permitir a criação de negócios com menos recursos, capital e tempo.
Ao mesmo tempo, reconhece um efeito ambivalente: se por um lado a tecnologia vai multiplicar pequenos negócios, por outro tende a acentuar desigualdades, já que quem já concentra poder em dados, capital e distribuição parte com vantagem sobre quem ainda não está preparado para lidar com a IA.
Conselho a quem tem 25 anos
Para quem quer começar a construir património, o conselho passa por três frentes: ler “Rich Dad Poor Dad”, investir cedo — mesmo que pouco — em ETFs indexados ao Nasdaq ou ao S&P 500, cuja rentabilidade média anual ronda os 7% a 10%, e começar desde já a investir numa marca pessoal, explorando publicamente temas de interesse e experiência profissional — o chamado “building in public”.
Sobre o que gostaria que se dissesse do seu percurso daqui a 20 anos, a resposta foge à vaidade: gostaria que o seu sucesso profissional se traduzisse também no sucesso de outras pessoas a quem ajudou a construir e a escalar os seus próprios projetos.
Carteira aberta — respostas rápidas
Poupar ou investir?
Investir
Startup ou imobiliário?
Startup
Negócio próprio ou mercado financeiro?
Negócio próprio
Cartão de crédito ou débito?
Débito
Casa própria ou arrendar?
Própria
Mais dinheiro ou mais tempo?
Tempo
Excel ou app de finanças?
App
Investir sozinho ou com aconselhamento?
Sozinho
Portugal ou internacional?
Internacional
Qualidade ou preço?
Qualidade
Fundo de emergência ou investir tudo?
Fundo de emergência
LinkedIn ou networking presencial?
LinkedIn
À pergunta final — se continuaria a construir e escalar empresas mesmo com a independência financeira garantida — a resposta não deixa margem para dúvidas: continuaria, porque é isso que a motiva.
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