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BCE regressa ao essencial: “vamos estabilizar a inflação através das taxas de juro”, diz Lagarde

Um regresso ao fundamental sem ser um regresso ao passado. A presidente do BCE diz que é possível estabilizar a economia com uma política monetária baseada essencialmente na variação das taxas de juro diretoras

29 Jun 2026 - 20:00

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Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu/Foto: BCE

Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu/Foto: BCE

A inflação foi o tema central do discurso da presidente do Banco Central Europeu (BCE) no jantar oferecido pelo Conselho Executivo do BCE nesta segunda-feira e que marca o início do Fórum realizado em Sintra. Christine Lagarde escolheu o tema Regresso ao essencial num ambiente de incerteza” para defender que o supervisor europeu pode controlar a inflação através dos movimentos das taxas de juro diretoras.

Depois de recordar a diversidade de instrumentos a que o BCE recorreu nos últimos anos para responder às crises económicas, Lagarde afirmou que, no contexto atual, a política monetária se encontra numa posição diferente.

“Já não precisamos de recorrer a instrumentos não convencionais. Embora continuemos a tê-los disponíveis, podemos agora concentrar-nos na estabilização da inflação através das taxas de juro diretoras como principal instrumento”, referiu, acrescentando: “Já não precisamos de agir com a mesma intensidade. Podemos fazer ajustamentos ponderados às taxas, calibrados de acordo com os choques que enfrentamos”.

A responsável salientou ainda: “Já não precisamos de formas complexas de orientação futura. As nossas decisões dependem dos dados disponíveis e são tomadas reunião a reunião”.

Mas, para a presidente do BCE, um “regresso ao essencial não significa um regresso ao passado”. Uma das razões que justificam este “regresso ao essencial” prende-se com o facto de “as taxas de juro se terem afastado do limite inferior efetivo, impulsionadas em parte por pressões estruturais que incluem o aumento da despesa em defesa. Estes choques têm maior probabilidade de afetar o lado da oferta do que o lado da procura. Como estes choques negativos sobre a oferta têm tendido a pressionar os preços em alta, as taxas de juro afastaram-se do limite inferior efetivo”, afirmou Lagarde.

A presidente do BCE referiu que a própria resiliência da economia europeia perante estes choques reduziu “a necessidade de respostas de política monetária não convencionais ou particularmente intensas”.

Isto significa “também que podemos aumentar as taxas de juro para combater a inflação sem a preocupação de que o próprio aperto monetário se transforme numa fonte de instabilidade financeira”.

“A supervisão bancária europeia e o quadro europeu de resolução bancária tornaram o setor bancário mais resiliente, fazendo com que os choques sejam menos facilmente amplificados pelo sistema bancário — embora seja necessário continuar atento ao facto de poderem estar a acumular-se desafios de estabilidade financeira na intermediação financeira não bancária, onde a supervisão não acompanhou o mesmo ritmo”, afirmou a presidente do BCE.

Ao mesmo tempo, defendeu Lagarde, “existem razões para acreditar que as respostas das políticas europeias estão também a reduzir a intensidade com que os choques se transmitem à economia real”.

“A nossa avaliação da estratégia concluiu que a ancoragem das expectativas de inflação se aproximou dos 2%, refletindo o objetivo claro e simétrico do BCE, bem como o seu historial no combate tanto a uma inflação demasiado baixa como a uma inflação demasiado elevada. Isto é fundamental para proteger a economia contra efeitos de segunda ordem excessivos resultantes de choques energéticos importados”, afirmou.

Segundo Lagarde, a resiliência da economia europeia “permitiu que a política monetária se concentrasse mais diretamente na sua principal missão: estabilizar os preços através das taxas de juro, sem estar condicionada pelos riscos de fragmentação, pelas vulnerabilidades do setor bancário ou pelo limite inferior das taxas de juro”.

A presidente do BCE chamou a atenção para o ambiente geopolítico tenso que enfrentamos e para os sucessivos choques produzidos por esse contexto.

“Choques deste tipo apresentam duas características que desafiam os nossos modelos analíticos tradicionais. Em primeiro lugar, os efeitos económicos destes choques dependem de reações estratégicas que podem não seguir os padrões históricos. A imposição, no ano passado, de tarifas norte-americanas mais elevadas constitui um exemplo claro”, afirmou Lagarde.

Para a responsável, “a maioria dos modelos económicos previa que o euro se depreciaria face ao dólar norte-americano, impulsionado pelas expectativas de taxas de juro mais elevadas nos Estados Unidos e por um menor défice comercial norte-americano, e que a incerteza pesaria fortemente sobre o investimento. Muitos observadores esperavam que a União Europeia respondesse com medidas de retaliação, aumentando os custos das importações”.

No entanto, “o euro valorizou-se significativamente face ao dólar, à medida que os investidores reavaliaram o papel dos Estados Unidos no sistema financeiro mundial. A União Europeia não retaliou, dando prioridade à sua relação estratégica com os Estados Unidos em detrimento dos seus interesses comerciais”.

A segunda característica destes choques, segundo Lagarde, “é a sua capacidade de se agravarem rapidamente, mas também de se dissiparem com igual rapidez. A guerra no Médio Oriente é um exemplo disso”.

“O conflito gerou pressões inflacionistas significativas. Mas, em cada fase, as avaliações sobre a sua duração, intensidade e implicações para as perspetivas económicas foram-se alterando. Ciclos de escalada, negociações, acordos anunciados e recuos fizeram os mercados petrolíferos oscilar rapidamente, por vezes no espaço de apenas alguns dias”, referiu.

Este novo cenário mundial coloca a política monetária perante um novo contexto.

“Embora seja mais provável que enfrentemos choques que afastem a inflação do objetivo definido, a resiliência que a Europa construiu significa que os seus efeitos sobre a nossa economia são mais limitados”, afirmou a presidente do BCE, acrescentando: “Podemos, por isso, encontrar-nos com maior frequência numa zona intermédia, entre choques que podemos ignorar e aqueles a que temos de responder de forma determinada”.

O pressuposto dessa reação passa pela recolha e análise de informação.

“Uma perspetiva defende que, dadas as características dos choques atuais, a política monetária deveria atribuir maior peso às expectativas de inflação. Como não conseguimos compensar diretamente as perturbações do lado da oferta, as nossas decisões devem ser calibradas de modo a manter as expectativas ancoradas”, afirmou Lagarde, salientando que “quando nos encontramos na zona intermédia que descrevi, confiar nas expectativas para calibrar a política monetária apresenta algumas limitações”.

Segundo a presidente do BCE, “expectativas estáveis de longo prazo podem levar os decisores de política a adiar uma resposta a uma inflação que já está acima do objetivo e que já é sentida pelas famílias e pelas empresas, mesmo quando as previsões e os dados mais recentes apontariam para a necessidade de agir”.

“Por outro lado, se os decisores atuarem para antecipar uma futura perda de ancoragem das expectativas, não existe uma forma fiável de avaliar até que ponto as taxas de juro devem ser aumentadas, nem de saber, posteriormente, se uma resposta preventiva era necessária ou excessiva”, acrescentou.

Em relação à última decisão de subida das taxas de juro, Lagarde explicou que “enfrentávamos uma perspetiva de aumento da inflação global e da inflação subjacente, bem como uma projeção que previa que a inflação só regressaria aos 2% no último trimestre de 2027 — e essa projeção dependia, por si própria, de um ajustamento da política monetária. A nossa análise mostrou que manter as taxas de juro inalteradas teria deixado a inflação acima dos 2% em 2027 e 2028”.

“Esta foi uma decisão baseada naquilo que tínhamos perante nós. E a nossa capacidade para a tomar com confiança, num ambiente de elevada incerteza, resulta de anos de investimento nos nossos dados, nos nossos indicadores e nas nossas projeções”, concluiu a responsável.

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