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CFA Society Portugal e Centro Português de Fundações unem-se para falar sobre ética no investimento fundacional
Andrew Crain, responsável global de Ética e Standards do CFA Institute, foi o orador convidado para proferir uma intervenção dedicada ao tema “Gestão de Investimentos em Fundações – Os mercados são incertos. As obrigações fiduciárias não são.” A palestra marcou o início de um acordo de colaboração entre a CFA Society Portugal e o Centro Português de Fundações.
07 Mai 2026 - 17:32
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Num contexto marcado por disrupção tecnológica, escrutínio público e crescente complexidade nos mercados financeiros, a ética deixou de ser apenas uma questão normativa para se afirmar como um verdadeiro fator estratégico. Foi esta a mensagem central de Andrew Crain, responsável global de Ética e Standards do CFA Institute, numa intervenção que marcou o início de um acordo de colaboração entre a CFA Society Portugal e o Centro Português de Fundações e que decorreu online no passado dia 5 de maio.
Dirigindo-se a uma audiência qualificada, Crain enquadrou a discussão num momento em que a confiança continua a ser um dos ativos mais críticos da indústria financeira. O objetivo da sessão foi claro: capacitar os profissionais para reconhecerem dilemas éticos e tomarem decisões informadas num ambiente de crescente ambiguidade.
Da conformidade à cultura de decisão
Um dos pontos-chave da intervenção foi a distinção entre cumprimento de regras e verdadeiro comportamento ético. “A ética não é uma fórmula que precisa de ser memorizada e repetida”, afirmou, sublinhando que se trata antes de uma prática contínua de julgamento.
Mais do que seguir normas, os profissionais são chamados a decidir em contextos onde nem sempre existe uma resposta evidente. A fronteira entre o que é legal e o que é correto emerge, assim, como uma linha crítica de decisão. “Fazer a coisa certa quando ninguém está a ver, mesmo quando fazer o errado é legal” foi uma das ideias-força destacadas.
Neste enquadramento, Crain alertou para a frequência com que os profissionais enfrentam este tipo de dilemas ao longo da carreira, reforçando a necessidade de preparação e consciência crítica.
O fator humano e o peso do contexto
A análise do comportamento ético não ficou limitada ao plano teórico. A intervenção abordou também a influência simultânea do carácter individual e das circunstâncias externas.
A referência à experiência de Stanford — frequentemente citada na literatura comportamental — serviu para ilustrar como “sob as condições certas, boas pessoas podem ser levadas a agir de forma antiética”. Num setor onde pressões de performance, incentivos e estruturas organizacionais coexistem, esta dimensão torna-se particularmente relevante.
Reputação: um ativo intangível, mas decisivo
Num ambiente de elevada visibilidade e rápida disseminação de informação, a reputação surge como um dos principais ativos — e riscos — das organizações.
Crain sublinhou que pequenas infrações, sobretudo em posições de liderança, podem gerar efeitos sistémicos, contribuindo para uma “deriva cultural” dentro das instituições. A crescente exposição mediática amplifica este risco, tornando cada decisão potencialmente pública.
Fundos de longo prazo e responsabilidade fiduciária
No plano mais técnico, a intervenção centrou-se no Endowment Code of Conduct, desenvolvido pelo CFA Institute, um conjunto de princípios e boas práticas destinado à gestão ética e profissional de fundações e instituições filantrópicas.
O modelo assenta em cinco princípios estruturantes — lealdade, competência, conformidade, respeito e revisão contínua — que refletem uma abordagem integrada à responsabilidade fiduciária.
Contudo, Crain destacou uma nuance relevante para o setor: “a escolha certa não equivale simplesmente ao maior retorno possível”. A gestão eficiente implica equilibrar retorno, risco, liquidez e alinhamento com a missão institucional.
Um modelo prático para decisões complexas
Para operacionalizar estes princípios, o CFA Institute propõe um framework de decisão ética baseado em quatro etapas: identificar, considerar, agir e refletir.
Este modelo visa estruturar o processo decisório em contextos de incerteza, reconhecendo que “não fazer nada também é uma ação”. A fase de reflexão, frequentemente negligenciada, foi apontada como essencial para aprendizagem organizacional e melhoria contínua.
Novos desafios: inteligência artificial e investimento de impacto
A evolução tecnológica introduz novas camadas de complexidade. A utilização crescente de inteligência artificial levanta questões relacionadas com confidencialidade, transparência e responsabilidade.
“Hoje em dia, não se consegue ter uma conversa sobre investimento sem falar de IA”, afirmou Crain, revelando que o CFA Institute está a desenvolver orientações específicas para enquadrar o uso ético destas ferramentas.
Paralelamente, o debate sobre investimento de impacto evidencia tensões entre missão e retorno. A integração destes investimentos pode reforçar o alinhamento estratégico, mas exige rigor na avaliação de riscos e sustentabilidade financeira.
Ética como vantagem competitiva
A principal conclusão da intervenção aponta para uma mudança de paradigma: a ética não é apenas um requisito de conformidade, mas um elemento central na criação de valor e confiança.
Num setor onde decisões são frequentemente tomadas sob pressão e com informação incompleta, a capacidade de julgamento ético emerge como uma competência crítica.
Mais do que códigos ou normas, é a consistência entre princípios e ação que define a credibilidade das instituições. Ou, como sintetizado durante a sessão, a ética manifesta-se naquilo que os profissionais fazem — especialmente quando ninguém está a ver.
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