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Famílias assustaram-se com a guerra no Médio Oriente e cortaram imediatamente no consumo

Banco Central Europeu mostra que a quebra da confiança levou a uma redução dos gastos superior ao esperado

03 Ago 2026 - 15:02

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Christine Lagarde, presidente do BCE, conversa com um comerciante no mercado de Florença (Itália)/BCE

Christine Lagarde, presidente do BCE, conversa com um comerciante no mercado de Florença (Itália)/BCE

O Banco Central Europeu (BCE) publicou nesta segunda-feira uma análise sobre os efeitos indiretos da guerra no Médio Oriente no consumo da área do euro, concluindo que a confiança dos consumidores caiu 12 pontos percentuais entre fevereiro e abril, o que levou a uma contração imediata do consumo superior ao esperado, comparável à registada na sequência da invasão da Ucrânia pela Rússia, em abril de 2022.

Foram os agregados familiares com maiores rendimentos que mais reduziram o consumo de bens não essenciais, como vestuário e calçado de gama alta, equipamento desportivo, viagens ou refeições em restaurantes. «Isto está em consonância com o facto de os agregados familiares com rendimentos mais elevados disporem de maior margem para ajustar as suas despesas, sobretudo adiando compras discricionárias. Em contrapartida, os agregados familiares com rendimentos mais baixos ajustaram principalmente as despesas com bens duradouros e refeições em restaurantes e cafés. Tal reflete, provavelmente, a menor margem de manobra destas famílias, uma vez que uma parcela maior do seu orçamento é absorvida pelas necessidades básicas», refere o BCE.

Segundo a instituição liderada por Christine Lagarde, «isto sugere que o canal da confiança é particularmente forte no caso de grandes choques amplamente percecionados pelos consumidores. Em períodos normais, as alterações na confiança podem refletir, em parte, ruído estatístico ou perceções idiossincráticas dos agregados familiares. No contexto da guerra no Médio Oriente, porém, o choque é comum, relevante e diretamente associado aos riscos para os preços da energia, a inflação e o rendimento real. Assim, a quebra da confiança parece ter um impacto mais forte e imediato no consumo.»

«O efeito é impulsionado sobretudo pelos agregados familiares sem restrições financeiras e pelo consumo discricionário. Isto reforça a ideia de que a desaceleração não resulta de limitações de rendimento, mas sim do adiamento de compras por parte das famílias quando estas têm margem para decidir o momento em que realizam as suas despesas», acrescenta o BCE.

De um modo geral, a estreita relação entre a confiança dos consumidores e o crescimento do consumo sugere que poderão surgir novos desafios caso a recente recuperação da confiança se revele temporária.

A guerra no Médio Oriente parece ter exercido um efeito moderador sobre a procura, o que poderá afetar o dinamismo subjacente do consumo. «Poderão materializar-se riscos adicionais em baixa caso os agregados familiares considerem persistentes as perdas de rendimento real decorrentes do conflito. Contudo, dado que grande parte do ajustamento do consumo parece ter sido impulsionada pelo sentimento dos consumidores e não pelo rendimento, essa redução poderá revelar-se reversível caso as tensões diminuam e a recuperação da confiança se mantenha», considera o supervisor europeu.

O BCE acrescenta que, «nesse cenário, parte das despesas discricionárias que foram adiadas poderá regressar. No momento da redação desta análise, os dados disponíveis apontam para uma recuperação parcial da confiança dos consumidores da área do euro. No entanto, a confiança permanece significativamente abaixo dos níveis anteriores ao conflito e as perspetivas económicas continuam envoltas em elevada incerteza.»

Segundo o BCE, «a associação entre o recente choque de confiança e o consumo foi mais forte do que os padrões históricos sugeririam». Com base em microdados do Inquérito às Expectativas dos Consumidores (Consumer Expectations Survey – CES), a instituição conclui que «os agregados familiares que registaram uma quebra mais acentuada da confiança também reduziram mais o consumo. Uma diminuição de 10 pontos percentuais na confiança, em comparação com o ano anterior, esteve associada, em média, a uma redução de cerca de 0,4 pontos percentuais no crescimento do consumo nominal individual, igualmente em termos homólogos, em abril de 2026».

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