Subscrever Newsletter - Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa no sistema financeiro.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa no sistema financeiro.

Submeter

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade

6 min leitura

O segredo da banca digital: mais rapidez e agressividade na adaptação dos depósitos e dos empréstimos

BCE analisou a atuação de 170 neobancos nas fases de aperto (2022-2023) e expansão da política monetária (2024-2025) e mostra como a pressão sobre as margens pode comprometer a rentabilidade destas instituições.

08 Mai 2026 - 07:30

6 min leitura

Foto: Freepik

Foto: Freepik

A crescente digitalização está a reformular o negócio bancário. Esta semana, o Banco Central Europeu (BCE) realizou um exercício comparativo entre os neobancos e os bancos tradicionais no que diz respeito à transmissão dos efeitos da política monetária. A rapidez na repercussão desses efeitos e a agressividade com que a banca digital atua, nomeadamente ao nível dos depósitos, colocam uma pressão acrescida sobre os resultados destas instituições financeiras.

Da autoria de Katarzyna Budnik, a análise baseou-se num painel de mais de 170 bancos digitais a operar na área do euro, observados através de relatórios de supervisão entre 2016 e 2025. Estes bancos podem ser agrupados em três modelos de negócio: retalho digital financiado por depósitos e orientado para particulares; e-service, focado em pagamentos e serviços de elevado rendimento; e e-grossista, centrado no mercado empresarial.

O comportamento destas instituições foi analisado em dois cenários: o do aperto da política monetária, correspondente aos anos de 2022-2023, e o da expansão da política monetária, referente ao período de 2024-2025.

“Durante a fase de aperto da política monetária de 2022-2023, os bancos digitais ajustaram as taxas de juro pagas sobre os depósitos de forma mais rápida e mais intensa do que os bancos tradicionais. Ao oferecerem taxas de juro mais elevadas, conseguiram manter os fluxos de depósitos de retalho. Ao mesmo tempo, não aumentaram as taxas de empréstimo acima das praticadas pelos seus concorrentes. Isso comprimiu as suas margens — a diferença entre o que os bancos digitais recebiam dos empréstimos e o que pagavam pelos depósitos — em comparação com outros bancos. Consequentemente, os bancos digitais expandiram menos o crédito”, refere o relatório.

Já no cenário de expansão da política monetária de 2024-2025 verificou-se um movimento inverso. “Os bancos digitais começaram a reduzir as taxas de depósito para novos clientes mais rapidamente do que os bancos tradicionais. Isso contribuiu para uma recuperação das margens e reduziu a vantagem anteriormente observada na captação de depósitos. O panorama geral demonstra que a digitalização bancária reforça o canal de financiamento bancário da transmissão monetária.”

Isto significa, em primeiro lugar, que “a formação de preços dos depósitos ajusta-se muito mais rapidamente nos bancos digitais. Quando as taxas diretoras aumentaram, os bancos digitais elevaram as taxas de depósito das famílias de forma mais rápida e mais acentuada do que a concorrência”.

Trata-se de um padrão mais evidente nos bancos digitais independentes — aqueles que não beneficiam do apoio de um grupo bancário mais amplo, frequentemente composto por entidades mais tradicionais.

Por que razão isto acontece? O BCE refere que tal “reflete a natureza do sistema bancário assente em aplicações digitais, o que reduz os custos de procura e de mudança. Os bancos digitais enfrentam maior pressão para repercutir rapidamente as alterações nos depósitos e reter os clientes. Já os bancos digitais integrados em grupos financeiros tradicionais tendem a ajustar-se de forma mais gradual, porque a reputação do grupo e as redes de balcões aumentam a confiança dos depositantes, reduzindo a pressão imediata de financiamento”.

Em segundo lugar, “as taxas de empréstimo dos bancos digitais são menos reativas. Apesar dos custos de financiamento mais elevados, as taxas de empréstimo dos bancos digitais aumentaram aproximadamente o mesmo que as dos seus pares”, refere o BCE, acrescentando que “isso significa que a transmissão é mais forte do lado do financiamento do que do lado do crédito para os bancos digitais. A concorrência no crédito entre bancos digitais e o desejo de atrair novos clientes parecem limitar até que ponto conseguem repercutir custos de financiamento mais elevados através das taxas de juro dos empréstimos”.

Em terceiro lugar, “os bancos digitais conseguiram manter os fluxos de depósitos de retalho durante a fase de aperto da política monetária — sobretudo remunerando melhor os depositantes. No início da fase de aperto, não houve uma aceleração clara dos fluxos de depósitos para os bancos digitais em comparação com a banca tradicional, mas também não se verificou uma desaceleração relativa. O fluxo estruturalmente elevado de depósitos manteve-se”.

O BCE explica este fenómeno pelo facto de “os ajustamentos durante o aperto terem ocorrido sobretudo através dos preços, ou seja, por via de taxas de depósito mais elevadas, e não através de alterações nos volumes de depósitos”.

“Em quarto lugar, os bancos digitais acabaram por desacelerar a concessão de crédito em comparação com a concorrência. À medida que os custos de financiamento permaneceram elevados e a repercussão nos empréstimos se revelou mais lenta, o crescimento do crédito nos bancos digitais desacelerou mais do que nos bancos tradicionais. Isto é consistente com margens comprimidas”, refere o relatório.

Por último, “a transmissão do lado do financiamento também ocorre mais cedo nos bancos digitais durante a fase de flexibilização. Com os primeiros cortes das taxas diretoras em 2024-2025, as novas taxas de depósito dos bancos digitais caíram mais rapidamente do que nos bancos tradicionais, especialmente nos prazos mais longos. Isso ajudou a normalizar as suas margens”, refere o BCE, salientando que “a vantagem inicial na captação de depósitos diminuiu, com os fluxos de depósitos das famílias a desacelerarem em relação à concorrência. As taxas de empréstimo dos bancos digitais caíram de forma mais gradual, permanecendo relativamente rígidas na trajetória descendente”.

Em termos de supervisão, o BCE considera que “a transmissão da política monetária ocorre cada vez mais através do canal de financiamento bancário. Em mercados mais digitais e mais intensivos em pesquisa, as taxas de depósito ajustam-se mais rapidamente em resposta a alterações de política monetária, enquanto as taxas de empréstimo permanecem mais rígidas. Durante um período de aperto monetário, isso reduz as margens e desacelera a expansão dos balanços bancários”.

“O que significa isto para a estabilidade financeira?”, questiona o BCE. “A compressão das margens durante o aperto da política monetária — que recupera apenas parcialmente e com atraso durante a expansão — pode pressionar os lucros dos bancos digitais e corroer o seu valor de mercado caso se prolongue.”

“Num sistema bancário cada vez mais digital, mais bancos poderão ficar expostos a pressões sobre a sua rentabilidade e à erosão de capital. Para os supervisores bancários, isto justifica uma vigilância mais rigorosa sobre a composição e a estabilidade do financiamento de retalho”, defende o supervisor europeu.

Subscrever Newsletter

Mantenha-se atualizado sobre tudo o que se passa no sistema financeiro.

Ao subscrever aceito a Política de Privacidade