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“Temos de fazer mais para que as empresas não saiam da Europa”

O chefe do Escritório de Representação do Banco Europeu de Investimento (BEI) em Portugal falou com o Jornal PT50 a propósito da atividade daquele que é o “braço financeiro” da União Europeia. João Fonseca Santos mostra que há dinheiro para investir

02 Mai 2026 - 08:00

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João Fonseca Santos, chefe do Escritório de Representação Banco Europeu de Investimento (BEI) em Portugal/Foto: BEI

João Fonseca Santos, chefe do Escritório de Representação Banco Europeu de Investimento (BEI) em Portugal/Foto: BEI

Financiou a construção da Ponte Vasco da Gama e os metros de Lisboa e do Porto, encontrando-se envolvido no financiamento das grandes obras que, atualmente, estão a decorrer no nosso país. Da alta velocidade à construção de habitação, passando pelo Plano Geral de Drenagem de Lisboa — que deverá evitar mais inundações na capital —, o Banco Europeu de Investimento é o “braço financeiro da União Europeia”.

Jornal PT50 O Banco Europeu de Investimento está, este ano, a comemorar 50 anos de presença em Portugal. É quase tão antigo como a democracia…

João Fonseca Santos – É um ano extraordinário para nós. Portugal está a celebrar os 40 anos de adesão à União Europeia e nós estamos a celebrar os 50 anos do BEI em Portugal.

Temos vindo a evoluir no nosso percurso. Antigamente, o BEI era conhecido por ser uma entidade que financiava quase exclusivamente grandes projetos de desenvolvimento do setor público, nomeadamente infraestruturas. Apoiámos a modernização de todo o setor das águas e do saneamento. Temos obras marcantes que financiámos, como é o caso da Ponte Vasco da Gama, que as pessoas conhecem no seu dia a dia, bem como as obras do Metro do Porto e do Metro de Lisboa.

Progressivamente, fomos também passando a apoiar ecossistemas mais inovadores e empresas de menor dimensão. Hoje em dia, através do BEI e do Fundo Europeu de Investimento (FEI), temos uma oferta de produtos que vai desde as startups até aos grandes projetos de investimento.

PT50Então existiu uma especialização do financiamento do nível macro para as PME?

J.F.S. – Sim, embora eu lhe chamasse mais um alargamento. Ou seja, hoje temos modelos tradicionais de financiamento de longo prazo para grandes infraestruturas, mas também instrumentos que incluem intermediação para apoio às PME, garantias, fundos de capital de risco e venture capital, bem como financiamentos corporativos em project finance. Ou seja, alargámos a forma como trabalhamos.

É preciso ter em conta que somos um banco que não tem a capilaridade de um banco comercial…

PT50 – Então quem são os vossos interlocutores privilegiados?

J.F.S. – Depende dos projetos em que estamos envolvidos. Se forem de maior dimensão, na ordem dos 80 a 100 milhões de euros, a nossa contraparte é o setor público ou entidades do setor privado. Para financiar projetos mais pequenos, delegamos nos intermediários financeiros, sejam bancos comerciais ou de investimento, e realizamos também algumas operações de mercado, como, por exemplo, securitizações. Tem sido um relacionamento extremamente bem-sucedido.

Também trabalhamos muito no setor das garantias de portefólios dos bancos nacionais e atuamos na componente de capital (equity), como um fundo de fundos. Ou seja, financiamos fundos de capital de risco e venture capital, e depois esses fundos fazem a alocação direta às startups e PME.

Trata-se de uma intermediação feita pelo sistema financeiro que nos permite chegar às empresas.

PT50 – E não tem havido resistências?

J.F.S. – Tem corrido muito bem. Trata-se de um relacionamento que tem evoluído e que nos tem obrigado a desenvolver novos produtos para responder com soluções inovadoras. Por exemplo, o ano passado foi muito positivo para o país: as PME beneficiaram de cerca de 500 milhões de euros deste tipo de operações intermediadas. Houve anos em que este segmento representou cerca de 50% da atividade do BEI em Portugal.

Relação muito positiva com o Banco Português de Fomento

PT50 – Gostava de falar um pouco sobre o relacionamento do BEI com o Banco Português de Fomento, a propósito dos apoios disponibilizados na sequência da catástrofe do “comboio de tempestades”.

J.F.S. – Temos tido uma relação muito positiva. O BEI sempre trabalhou com garantias, o que é, em certa medida, aquilo que o Banco de Fomento também faz. Existe atualmente uma necessidade crescente de produtos de otimização de capital por parte da banca, até mais do que de funding. Com as nossas garantias, é possível canalizar, através do Banco de Fomento e de outras instituições, mais capital a um custo mais baixo.

Em relação às tempestades, bem como ao conflito no Médio Oriente e às suas consequências no preço dos combustíveis, as PME sofreram impactos significativos. São muitas forças adversas e, nestas alturas, tal como aconteceu durante a Covid-19, as nossas linhas de financiamento para as PME intensificaram-se. O Banco de Fomento tem ajudado a canalizar os instrumentos financeiros da União Europeia para a economia nacional. Estamos a assumir papéis complementares — e essa complementaridade funciona.

Houve uma necessidade urgente de tesouraria à qual o BEI e o Banco de Fomento têm vindo a responder. Importa referir que não estamos apenas a falar de apoios às empresas, mas também da reconstrução de infraestruturas, uma área em que vamos trabalhar com a República Portuguesa.

PT50 – Em 2025, o financiamento do BEI em Portugal atingiu os 3 mil milhões de euros, uma subida de 43% face a 2024. A que se deve este crescimento?

J.F.S. – Falando do Grupo (BEI + FEI), temos andado historicamente entre 1,5 e 2 mil milhões de euros de financiamento em Portugal. Houve um ano extraordinário, 2021, em que atingimos 5 mil milhões de euros, devido à necessidade de apoiar a economia por causa da Covid-19. Foi uma resposta excecional e complementar ao esforço europeu.

Posteriormente, regressámos a valores em torno dos 2 mil milhões de euros e, no ano passado, atingimos os 3 mil milhões. O que sentimos, sobretudo, foi um aumento da procura e uma retoma do investimento público em áreas essenciais.

PT50 – Que áreas?

J.F.S. – Estamos a falar de projetos de grande dimensão, nomeadamente na habitação acessível. Tivemos também o arranque da linha de alta velocidade e, ao nível dos chamados “projetos verdes”, atingimos um recorde.

Recorde-se que, em 2020, o BEI definiu que pelo menos 50% da sua atividade deveria ser dedicada ao financiamento verde. Nos últimos dois anos, temos observado em Portugal um aumento significativo destes investimentos.

Sempre financiámos energias renováveis e acompanhámos o setor da água, mas no ano passado atingimos um recorde: 70% do financiamento foi canalizado para projetos verdes. Ou seja, 7 em cada 10 euros foram dedicados à transição verde.

Importa esclarecer que estas percentagens incluem não só o financiamento de renováveis, mas também projetos como a alta velocidade, que contribuem para o transporte sustentável. Outro exemplo é o túnel de drenagem da cidade de Lisboa, uma obra de grande relevância no contexto da adaptação às alterações climáticas.

Outro ponto muito importante é o ecossistema de inovação em Portugal, que está atualmente muito mais maduro.

PT50 – E ao nível desse ecossistema, qual tem sido o apoio do BEI?

J.F.S. – Através do FEI, lançámos três programas — Portugal Tech, Portugal Growth e Portugal Blue — que permitiram mobilizar mais de 500 milhões de euros para o ecossistema de private equity, PME e venture capital, apoiando cerca de 100 empresas. Destacam-se três unicórnios que resultaram desses programas: Sword Health, Remote e Anchorage.

Tecnologias de “duplo uso”

PT50 – Existe agora uma nova realidade ao nível do investimento, salientada pela presidente do BEI, Nadia Calviño: o setor da Defesa. Portugal poderá beneficiar destes investimentos?

J.F.S. – A estratégia do BEI foi aprovada por todos os Estados-membros em 2024. Foram definidas oito prioridades estratégicas, sendo a segurança e defesa uma delas.

Contudo, importa esclarecer que estamos a falar do financiamento de tecnologias de “duplo uso”. O BEI evoluiu na definição deste conceito: apoiamos projetos de cibersegurança, autonomia das cadeias de valor, entre outros, mas não financiamos armamento.

Portugal tem competências relevantes em setores de duplo uso, como a indústria aeronáutica e automóvel, bem como nas PME. Outra vertente importante é o financiamento da Proteção Civil, onde já estamos ativos.

PT50 – O que é prioritário para o BEI em Portugal este ano?

J.F.S. – A nível nacional, é essencial acelerar a implementação dos projetos já aprovados, nomeadamente a alta velocidade, a transição energética, a habitação acessível e a modernização das escolas.

Temos valores muito significativos já aprovados, mas o essencial agora é concretizar os projetos. Paralelamente, é fundamental que a União Europeia reforce a sua liderança tecnológica e de inovação.

O BEI lançou a plataforma TechEU, que pretende facilitar o acesso a financiamento para startups e scale-ups, mobilizando 250 mil milhões de euros entre 2025 e 2027.

Este é um dos grandes desafios da Europa: apoiar o crescimento das empresas inovadoras para que se tornem escala global.

PT50 – Mas tudo isso requer investimento, e o investimento exige rentabilidade…

J.F.S. – A Europa é um enorme polo de inovação. Temos ideias, empresas e também retorno. Nos últimos 10 anos, os fundos europeus de capital de risco tiveram retornos de 19%, face a 15% nos Estados Unidos. O que nos falta é escala.

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