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BCE mostra que os bancos atrasam a remuneração das poupanças quando as taxas de juro sobem para proteger os lucros futuros
Estudo do Banco Central Europeu sobre a transmissão da política monetária às famílias revela que a subida das taxas penaliza sobretudo os mais endividados, enquanto a descida beneficia quem tem maior acesso ao crédito e mais património
06 Jul 2026 - 17:42
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BCE sede | Foto: ecb multimedia
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BCE sede | Foto: ecb multimedia
É um dos estudos mais relevantes sobre a forma como as decisões de política monetária afetam o dia a dia das famílias europeias. Elaborado por 14 economistas do Banco Central Europeu (BCE), entre os quais os portugueses Afonso Souto Moura e Diana Bonfim, o trabalho, intitulado Transmissão da Política Monetária através do Sistema Financeiro para as Famílias, divulgado nesta segunda-feira apresenta conclusões relevantes sobre o impacto das alterações das taxas de juro diretoras na vida das famílias.
Uma das principais conclusões diz respeito ao comportamento dos bancos, em particular à lentidão com que aumentam a remuneração dos depósitos após uma subida das taxas de juro.
«Tal como demonstra a literatura, os bancos europeus com elevado poder de mercado no segmento dos depósitos ou fortemente dependentes do financiamento através de depósitos ajustam de forma mais lenta as taxas de juro dos depósitos e dos empréstimos, atenuando e atrasando a transmissão da política monetária», refere o estudo.
Segundo os autores, esta demora explica-se pelo facto de os bancos anteciparem lucros futuros decorrentes da comercialização conjunta de produtos financeiros (cross-selling). «Por isso, têm menos incentivos para oferecer taxas de remuneração dos depósitos mais atrativas quando as taxas diretoras aumentam, uma vez que o valor atual líquido dos lucros futuros esperados com essas estratégias é mais fortemente descontado. Este fator influencia a resposta das instituições ao aperto da política monetária e, consequentemente, a concessão de crédito», acrescenta.
O estudo identifica igualmente os efeitos redistributivos da política monetária, evidenciando que as decisões do BCE não afetam todas as famílias da mesma forma.
«O aperto da política monetária afeta de forma desproporcionada os agregados familiares mais endividados — normalmente mais jovens ou com menor património — através do aumento dos encargos com o serviço da dívida. Em contrapartida, os aforradores mais idosos ou os detentores de empréstimos com taxa fixa são menos penalizados», concluem os autores.
Num cenário de flexibilização da política monetária, o efeito é distinto. «As famílias com maior facilidade de acesso ao crédito — geralmente mais abastadas e detentoras de mais garantias reais — tendem a aumentar o recurso ao financiamento, contribuindo para a valorização dos preços dos ativos. Embora este efeito possa estimular a procura agregada, também pode agravar os problemas de acessibilidade para outros segmentos da população.»
O estudo conclui ainda que a transmissão das decisões do BCE varia significativamente consoante o tipo de crédito.
«Enquanto a repercussão das taxas de juro diretoras nas taxas do crédito à habitação é relativamente uniforme entre os países da área do euro — apesar das grandes diferenças existentes na estrutura dos contratos hipotecários —, a transmissão para as taxas do crédito ao consumo revela-se muito mais heterogénea. Diferenças institucionais, como a existência de limites máximos às taxas de juro, a concorrência de entidades financeiras não bancárias e a diversidade de produtos de crédito fazem com que, em alguns países, as taxas do crédito ao consumo reajam muito menos — ou muito mais — às alterações da política monetária do Banco Central Europeu do que noutros.»
Os investigadores salientam igualmente que a idade dos mutuários influencia a forma como as alterações das taxas de juro são transmitidas.
«Os mutuários mais jovens tendem a enfrentar uma maior transmissão das alterações das taxas de juro no crédito à habitação, enquanto os mutuários mais idosos são mais afetados pelas variações das taxas de juro no crédito ao consumo.»
A utilização de novos dados de elevada frequência permitiu ainda demonstrar que o consumo das famílias reage muito mais rapidamente às decisões de política monetária do que anteriormente se pensava.
«Estes dados mostram que a política monetária desencadeia ajustamentos rápidos do consumo, num horizonte de dias ou semanas, acompanhando de perto a velocidade das reações observadas nos mercados financeiros.»
Ainda assim, os efeitos não se fazem sentir em simultâneo em toda a economia.
«Existem diferenças no calendário destes ajustamentos. Os setores mais próximos da procura final reagem muito rapidamente, enquanto os setores a montante da cadeia produtiva, bem como o emprego e os preços, ajustam-se com algum atraso.»
Segundo o BCE, a rapidez da transmissão ao consumo resulta sobretudo da evolução dos encargos com juros.
«A rapidez da transmissão ao consumo resulta sobretudo das alterações dos encargos com juros, tornando o mecanismo de transmissão mais célere em economias caracterizadas por elevados níveis de endividamento e por uma forte predominância de empréstimos a taxa variável. Nestes contextos, a transmissão da política monetária ao consumo é mais intensa, não apenas através dos efeitos sobre os fluxos de caixa das famílias, mas também por via das alterações no comportamento dos mutuários e do efeito amplificador proporcionado pelas garantias hipotecárias.»
Por essa razão, conclui o estudo, a eficácia da política monetária na influência sobre o consumo e a procura agregada depende, em larga medida, das características específicas dos mercados da habitação e do crédito hipotecário de cada país.
Os autores recordam ainda que os mercados da habitação e do crédito hipotecário ocupam um lugar central neste processo, uma vez que a habitação representa, regra geral, o principal ativo e o maior passivo das famílias.
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