6 min leitura
Commerzbank vs UniCredit: uma luta pela independência com quase dez anos de história
Fundado em 1870, o Commerzbank começou a sua história em Hamburgo, passou por Berlim e acabou a aterrar em Frankfurt. OPA do UniCredit foi culminar de uma intenção que fervilha há quase uma década.
10 Mai 2026 - 10:00
6 min leitura
commerzbank
Mais recentes
- Commerzbank vs UniCredit: uma luta pela independência com quase dez anos de história
- Será a soberania financeira incompatível com a União Bancária?
- Independência dos bancos centrais, dívida pública e desregulação: os avisos de Isabel Schnabel
- Paulo Macedo: “A garantia pública tem impacto no preço das casas”
- Um ano depois, margem do BCP continua a ser a única a resistir na banca portuguesa
- CGD com lucros de 397 milhões nos primeiros três meses de 2026
commerzbank
O Commerzbank vê-se a braços com uma possível aquisição hostil por parte do rival UniCredit, que anunciou em março a sua Oferta Pública de Aquisição de cerca de 37 mil milhões de euros sobre o segundo maior banco alemão. A histórias é cíclica e a banca não é exceção.
Desde a sua fundação, o Commerzbank passou por vários processos de vendas e aquisições, mas nunca foi um animal cercado por um predador maior. Apesar da oposição da administração e até do Governo germânico, só o mercado pode ditar o sucesso ou fracasso desta operação.
Fica uma breve comparação entre as suas instituições bancárias e uma cronologia da história do Commerzbank, que não se cruza com o UniCredit apenas uma vez.
Commerzbank: 156 anos de independência em risco
1870 até 1970
Fundação do Commerzbank em Hamburgo. Mudança para Berlim e, mais tarde, para Frankfurt.
Anos 70 a 90
Expansão internacional por toda a Europa, Américas e Ásia através de escritórios e aquisições. Entrada em várias bolsas europeias.
2008
Chega a acordo para adquirir o Dresdner Bank, um dos maiores da Alemanha, à seguradora Allianz por 14,5 mil milhões de dólares.
No mesmo ano, torna-se o primeiro banco germânico a recorrer ao Estado para uma injeção de capital. O Special Fund Financial Market Stabilization (soFFin) concorda com uma participação passiva de 8,2 mil milhões e garante ainda até 15 mil milhões em obrigações.
2009
O Estado alemão injeta mais 10 mil milhões de euros no Commerzbank, ficando com uma posição de capital de 25% mais uma ação. Banco regista prejuízo de 2,27 mil milhões no ano.
2010
Commerzbank regressa aos lucros um ano antes do previsto com um resultado líquido de 1,4 mil milhões.
2011
O banco começa a pagar de volta ao SoFFin, devolvendo 14,3 mil milhões.
A crise financeira e o momento negativo não impedem o Commerzbank de continuar a crescer e integra ainda o Deutsche Schiffsbank.
2012
Dá-se um aumento de capital, levando o SoFFin a converter participação passiva em ações, de forma a manter posição de 25% mais uma ação. No mesmo ano, o Commerzbank vende as participações no russo Promsvyazbank e no Ukrainian Bank Forum.
2013
Uma emissão de 555.555.556 ações permite ao Commerzbank arrecadar 2,5 mil milhões, que usa para pagar a restante participação passiva de 1,6 mil milhões da SoFFin, bem como a de 750 milhões da Allianz. Como resultado, a SoFFin baixa a sua participação no banco para cerca de 17%.
2016
O Commerzbank embarca numa reestruturação plurianual.
2017
A ofensiva italiana dá os primeiros sinais. A Reuters avança que o UniCredit está em conversações com Berlim para uma eventual fusão com o banco alemão.
Cerberus, um investidor dos EUA, adquire 5% dos direitos de voto do banco.
2018
O Commerzbank sai do DAX após as ações baixarem 32% nesse ano e um prejuízo de 583 milhões.
2019
A Cerberus diz estar aberta a uma fusão entre o Commerzbank e o Deutsche Bank. São iniciadas conversações entre as duas empresas, mas que acabam por cair semanas depois.
Por sua vez, o UniCredit aborda banqueiros de investimento para obter aconselhamento sobre uma possível proposta para adquirir o banco alemão, que entretanto havia anunciado um corte de milhares de postos de trabalho e uma redução de 20% dos balcões.
2020
O Commerzbank revela que afinal não vai vender a sua subsidiária polaca, o mBank, devido a más condições de mercado. O ‘chairman’ e o CEO demitem-se, cedendo às exigências da Cerberus.
2021
O novo CEO, Manfred Knof, pretende cortar 10 mil empregos e fechar centenas de balcões. O novo líder do banco garante que este está a trabalhar para se manter independente.
2022 e 2023
O CEO do UniCredit, Andrea Orcel, aborda Knof sobre uma possível aquisição, em fevereiro de 2022, segundos reportes da Reuters. Entretanto, o Commerzbank regressa ao DAX e aos lucros após um ano de prejuízos marcados pelo início da pandemia COVID-19 e um 2021 de lucro modesto.
2024
Em setembro, o UniCredit tenta iniciar conversações sobre uma possível fusão, segundo revela fonte próxima do assunto citada pela Reuters, após ter adquirido uma posição de 9% no banco. A instituição liderada por Andrea Orcel reúne com o Governo alemão.
Knof afirma ter os seus próprios planos para o Commerzbank, que quer manter independente. Já o Governo declara que não pretende vender mais ações suas do banco e o chanceler Olaf Scholz considera a participação do UniCredit, que entretanto subira para 21%, “um ataque hostil”.
Bettina Orlopp torna-se CEO do Commerzbank a 1 de outubro e reitera a vontade de manter o banco independente.
Em dezembro, o UniCredit anuncia que a sua posição, direta e indireta, no rival alemão ascende a cerca de 28%.
2025
Em fevereiro, o Commerzbank reporta um resultado líquido para 2024 de 2,68 mil milhões, mais 20%, e mais um corte de postos de trabalho, desta feita de 3900.
O UniCredit não avançou mais ao longo do ano, tendo-se concentrado na sua OPA em curso sobre o rival doméstico, Banco BPM, que acabou por colapsar no verão. No entanto, Orcel continuou sempre a confirmar o seu interesse no Commerzbank, admitindo, contudo, que poderia não compensar pela subida considerável do preço das ações do banco. Em tom de ameaça, chegou a sugerir vender os seus quase 30% a uma entidade não europeia, fazendo soar alarmes em Berlim numa altura em que a autonomia do sistema financeiro europeu está no centro do debate.
2026
Com o primeiro trimestre a chegar ao fim, o UniCredit anuncia oficialmente uma oferta de 35 mil milhões sobre todo o capital do Commerzbank, esclarecendo que não pretende adquirir controlo da instituição, mas sim superar a fasquia dos 30%. A administração, o Governo e os sindicatos reafirmam a sua oposição.
Dão-se conversações que caem por terra em pouco tempo.
No início de maio, o UniCredit inicia oficialmente a OPA, que decorre até 16 de junho.
O Commerzbank apresenta um lucro de 913 milhões no primeiro trimestre e atualiza a sua estratégia, ambicionando agora um lucro anual de 3,4 mil milhões até ao fim do ano e revelando que vem aí nova vaga de despedimentos, na ordem dos 3000 colaboradores.
Fontes: Site do Commerzbank e Reuters
Mais recentes
- Commerzbank vs UniCredit: uma luta pela independência com quase dez anos de história
- Será a soberania financeira incompatível com a União Bancária?
- Independência dos bancos centrais, dívida pública e desregulação: os avisos de Isabel Schnabel
- Paulo Macedo: “A garantia pública tem impacto no preço das casas”
- Um ano depois, margem do BCP continua a ser a única a resistir na banca portuguesa
- CGD com lucros de 397 milhões nos primeiros três meses de 2026