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Cristina Brízido: “investimos no reposicionamento estratégico europeu”

Não se trata de uma posição política, mas da identificação de uma oportunidade de negócio que alia os interesses de um banco às necessidades da Europa. Cristina Brízido, CEO da Caixa Gestão de Ativos, explica ao Jornal PT50 a aposta da CGD

04 Jul 2026 - 08:30

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Cristina Brízido, CEO da Caixa Gestão de Ativos/Foto: Melissa Dores

Cristina Brízido, CEO da Caixa Gestão de Ativos/Foto: Melissa Dores

Não é um statement político, como faz questão de sublinhar, mas sim a constatação de uma nova realidade geopolítica identificada pelo antigo presidente do Banco Central Europeu (BCE), Mario Draghi, no relatório estratégico elaborado a pedido da Comissão Europeia. Partindo das orientações aí definidas, a Caixa Geral de Depósitos (CGD) lançou o Caixa Ações Soberania Europeia, um fundo que permite aos investidores aceder a uma carteira de ações de empresas europeias inovadoras e, simultaneamente, contribuir para o reforço da autonomia, da soberania e da competitividade da Europa. Cristina Brízido, CEO da Caixa Gestão de Ativos, explica ao Jornal PT50 o racional deste novo produto do banco público.

Jornal PT50O que levou a CGD a lançar o Caixa Ações Soberania Europeia? Porque optaram por reunir todas as prioridades estratégicas identificadas no Relatório Draghi, em vez de se concentrarem apenas numa ou duas?

Cristina Brízido — O lançamento do Caixa Ações Soberania Europeia resulta de uma leitura clara do novo enquadramento económico e geopolítico europeu. Estamos a transitar de um modelo de globalização para um modelo de soberania estratégica, em que a competitividade passa a ser a base do poder económico.

A Europa enfrenta limitações estruturais nas cadeias de investimento, no fornecimento de energia, na segurança e no acesso a tecnologias críticas. Menor crescimento, menor investimento e maior dependência externa exigem uma resposta coordenada e transversal.

Foi precisamente esse o foco do Relatório Draghi: identificar um conjunto integrado de prioridades — inovação, transição energética e segurança — que não podem ser tratadas isoladamente, porque são interdependentes.

Quando uma região decide reforçar a sua autonomia estratégica, isso não depende apenas de decisões políticas. Implica também opções orçamentais, afetação de investimento e criação de incentivos para determinados setores de atividade, que acabam por se refletir na rentabilidade futura das empresas. É aqui que identificamos uma oportunidade de investimento: investir no reposicionamento estratégico europeu.

“Investir em setores que reforçam a autonomia europeia e apresentam elevado potencial de crescimento”

Por isso, optámos por não escolher apenas um dos temas identificados, mas por construir uma solução que capta o conjunto destes vetores estruturais. Na prática, isto traduz-se em investir em setores que reforçam simultaneamente a autonomia europeia e apresentam elevado potencial de crescimento, como a defesa, a energia, a tecnologia e as cadeias de valor estratégicas.

Para o investidor, esta abordagem traduz-se numa proposta mais robusta: alinhada com o novo ciclo de investimento europeu, diversificada dentro da própria temática e orientada para tendências estruturais de longo prazo, e não para oportunidades táticas.

PT50Como tem sido, até ao momento, a adesão ao fundo?

C.B. — O fundo foi lançado a 4 de maio. Trata-se de um fundo de ações em formato PPR e a adesão tem sido positiva, em linha com o crescente interesse por soluções temáticas associadas a tendências estruturais.

Temos observado que os investidores valorizam cada vez mais produtos com uma narrativa clara e alinhada com a realidade económica. A soberania europeia é hoje um dos temas mais relevantes no contexto internacional.

Além disso, este fundo surge num momento em que existe uma crescente consciencialização de que o investimento deve acompanhar a transformação da economia e não limitar-se a replicar índices generalistas.

PT50Uma das questões centrais da União da Poupança e do Investimento é a existência de elevados níveis de poupança pouco rentável e a falta de instrumentos capazes de canalizar esse capital para projetos estratégicos europeus. Como se ultrapassa este desafio?

C.B. — Este é um dos temas centrais da agenda europeia. A Europa tem poupança, mas não a canaliza de forma suficientemente eficiente para investimento produtivo.

A resposta passa por três dimensões complementares: desenvolver o mercado de capitais como instrumento de mobilização da poupança para financiar áreas como a inovação, a tecnologia ou a defesa; criar produtos diversificados e adequados ao perfil dos investidores europeus; e reforçar a educação financeira, permitindo aos aforradores fazer uma transição gradual e informada de parte das suas poupanças para instrumentos de investimento.

PT50Um dos fatores que poderá incentivar os europeus a investir em produtos ligados à soberania europeia será a sua rentabilidade. Como podem ser desenvolvidos mais e melhores produtos financeiros nesta área? Algumas instituições concorrentes da CGD optaram por uma estratégia mais direcionada. O grupo francês BPCE, por exemplo, lançou as chamadas “obrigações de guerra”, ligadas ao financiamento da defesa europeia, com um cupão de 3,167%. Este tipo de produto está no radar da CGD?

C.B. — O desenvolvimento de produtos financeiros nesta área exige uma abordagem integrada entre visão macroeconómica, política industrial e mercados financeiros.

Em primeiro lugar, os investimentos necessários para o reposicionamento estratégico da Europa são de grande dimensão e abrangem vários setores, exigindo soluções igualmente diversificadas.

Em segundo lugar, os produtos devem estar alinhados com iniciativas como o REPowerEU, o European Chips Act ou o ReArm Europe, que definem claramente as áreas onde será canalizado o investimento.

Por último, é essencial assegurar uma gestão ativa das carteiras, num contexto em que haverá naturalmente maior dispersão entre empresas vencedoras e perdedoras. A seleção criteriosa das empresas torna-se, por isso, determinante.

O exemplo que refere demonstra bem a evolução do mercado, com uma procura crescente por instrumentos diretamente ligados a áreas estratégicas como a defesa.

Na Caixa Gestão de Ativos acompanhamos naturalmente estas tendências. No entanto, a nossa estratégia passa por privilegiar soluções diversificadas e de longo prazo, em vez de instrumentos excessivamente concentrados num único tema ou risco.

Acreditamos que, para a maioria dos investidores, faz mais sentido aceder a estas oportunidades através de carteiras equilibradas, que integrem vários motores de crescimento associados à soberania europeia.

“Fragmentação traduz-se em menor escala”

PT50No início deste ano, a comissária europeia para os Serviços Financeiros, Maria Luís Albuquerque, afirmou que “na Europa não existe um mercado financeiro; existem 27. Temos muito dinheiro, mas guardamo-lo em 27 bolsos diferentes”, acrescentando que “é necessário garantir que as pessoas que poupam na Europa tenham oportunidade de aplicar o seu dinheiro na Europa e obter uma rentabilidade superior à inflação”. Concorda com esta análise?

C.B. — Concordo. A fragmentação dos mercados financeiros europeus continua a ser uma das principais limitações à mobilização eficiente do capital.

Essa fragmentação traduz-se em menor escala, menor eficiência na afetação de recursos e maiores dificuldades no financiamento das prioridades estratégicas europeias. Está também diretamente ligada a outro problema: a Europa dispõe de elevados níveis de poupança, mas essa poupança continua a não ser canalizada de forma eficiente para o investimento.

Por isso, iniciativas como a União da Poupança e do Investimento são fundamentais. Em última análise, a Europa precisa de garantir que o capital europeu financia a economia europeia e que proporciona aos seus aforradores uma rentabilidade adequada, superior à inflação.

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