4 min leitura
Quem roubou o dinheiro de Madame Lagarde?
Por, Miguel Alexandre Ganhão, Diretor do Jornal PT50
04 Jul 2026 - 07:47
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Miguel Alexandre Ganhão, Editor-executivo Jornal PT50
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Miguel Alexandre Ganhão, Editor-executivo Jornal PT50
Esta semana ficou marcada, entre outros temas relevantes para a economia, pela realização da 13.ª edição do Fórum do Banco Central Europeu (BCE), em Sintra, nas instalações do Hotel Penha Longa, uma das mais luxuosas unidades hoteleiras do país. O seu renascimento deve-se à família Aoki, que adquiriu a propriedade em 1987 e a projetou internacionalmente.
Atingidos pela bolha imobiliária da década de 1990, os proprietários japoneses acabaram por vender a sua “jóia da coroa”, que atualmente opera sob a marca Ritz-Carlton.
Os olhares dos mercados financeiros mundiais concentraram-se em Sintra, em especial na prestação do novo presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), Kevin Warsh, na sua primeira intervenção num grande evento internacional. Warsh não desiludiu e os banqueiros centrais encontraram no seu homólogo norte-americano um aliado.
A convergência entre as visões de Christine Lagarde e Kevin Warsh sobre a necessidade de utilizar essencialmente as taxas de juro diretoras para controlar a inflação, sem recorrer a mecanismos mais complexos de compra e venda de ativos, revelou uma sintonia estratégica entre dois bancos centrais que nem sempre partilharam as mesmas abordagens.
Ainda assim, para mim, o momento mais marcante da reunião em Sintra foi a conversa sobre Inteligência Artificial (IA) entre Aaron Chatterji, economista-chefe da OpenAI e professor da Duke University, e Philip Lane, membro da Comissão Executiva do BCE.
Tal como o Jornal PT50 noticiou foi, de facto, uma conversa. Tão estimulante que a própria presidente do BCE, Christine Lagarde, e o governador do Banco de Inglaterra, Andrew Bailey, não resistiram a juntar-se ao debate com perguntas mais ou menos provocadoras.
Lagarde, sem nunca esquecer a sua formação em Direito — foi advogada especializada em Direito do Trabalho e Direito Comercial — lançou uma questão direta ao representante da OpenAI: “Se um agente de IA roubar o meu dinheiro, quem é responsável?”
Curiosamente, Aaron Chatterji, que naquele fórum representava uma das organizações mais avançadas do mundo em matéria de inteligência artificial, utilizava uma simples folha de papel e uma caneta para tomar notas das perguntas que lhe eram colocadas.
A resposta de Chatterji foi uma recordação do que aconteceu com a evolução do negócio dos cartões de crédito e débito e a obrigação alicerçada numa jurisprudência repetida de obrigar as empresas titulares desses cartões a devolverem o dinheiro ilicitamente movimentado das contas dos seus clientes. Mais uma vez o futuro deverá aprender com o passado e o dono do agente IA prevaricador deverá ser o responsável pelo roubo do dinheiro de Madame Lagarde.
A questão lançada pela presidente do BCE permanece como um desafio civilazional: num futuro próximo, quem será responsável pelo roubo das nossas poupanças quando for a IA a gerir as nosso aforro, a decidir os nossos investimentos e a fazer as nossas compras?
A questão, que encerra uma evidente dimensão filosófica, remete-nos para um presente em que a IA generativa parece dispor de uma liberdade quase ilimitada.
Lagarde demonstra preocupação. Mas também o economista-chefe da OpenAI revelou ter os seus receios. Aaron Chatterji afirmou que a sua maior inquietação é perceber de que forma a inteligência artificial será integrada nas escolas e utilizada pelas gerações mais jovens.
Mais do que um debate sobre política monetária, o que saiu de Sintra foi uma reflexão sobre um mundo novo, em que as mudanças acontecem a uma velocidade sem precedentes e onde as economias continuam a demonstrar uma capacidade de adaptação e uma resiliência que poucos imaginavam ser possível.
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