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Especialistas do BCE aconselham prudência sobre o efeito da subida dos juros no serviço da dívida

Numa altura em que o mercado já incorporou uma nova subida das taxas em outubro, alguns economistas defendem que o aumento dos juros tem um efeito muito mais poderoso na economia do que a sua descida

16 Set 2026 - 15:45

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Sede do BCE em Frankfurt/Foto: BCE

Sede do BCE em Frankfurt/Foto: BCE

É um trabalho que chega na altura certa. Quando os mercados já incorporam uma nova subida das taxas de juro pelo Banco Central Europeu (BCE) em outubro, dois economistas, Valerio Scalone (BCE) e Silvana Tenreyro (FMI), produziram um documento, revelado nesta terça-feira, no qual analisam a “eficácia endógena da política monetária”.

De acordo com aquele trabalho, “desde a crise financeira mundial, os bancos centrais têm prestado particular atenção à forma como a exposição financeira do setor privado condiciona a transmissão da política monetária à economia. As famílias e empresas fortemente endividadas, ou que enfrentam um aumento dos custos do serviço da dívida, tendem a reduzir o consumo e o investimento de forma mais acentuada quando as taxas de juro sobem”. Os autores acrescentam que “isto significa que a mesma alteração das taxas de juro pode ter efeitos muito diferentes sobre o crescimento, a inflação e a estabilidade financeira, consoante o grau de exposição dos mutuários”.

Segundo referem aqueles economistas, “um aspeto que tem recebido menos atenção é o facto de a própria política monetária poder alterar o grau de exposição dos mutuários. Isto significa que uma sequência de subidas ou descidas das taxas de juro pode, gradualmente, alterar a sua própria eficácia à medida que se desenvolve”.

Segundo os modelos desenvolvidos por aqueles economistas, “a política monetária tem um efeito substancialmente mais forte sobre a produção e a inflação quando a exposição financeira é elevada do que quando é reduzida”.

Os autores verificaram também “que os aumentos das taxas de juro tendem a elevar a exposição financeira no curto prazo, o que torna novas medidas de aperto progressivamente mais poderosas quanto mais tempo durar um ciclo de subida das taxas”.

“Em sentido inverso, as descidas das taxas de juro reduzem a exposição financeira ao longo do tempo, fazendo com que um ciclo de flexibilização se torne progressivamente menos eficaz quanto mais tempo se prolongar”, acrescentam.

Também a dimensão e a velocidade de um ciclo de subida ou descida das taxas de juro reforçam este padrão: “alterações mais rápidas e de maior magnitude nas taxas de juro provocam mais rapidamente a alteração da eficácia da política monetária”, referem.

Os resultados do trabalho desenvolvido pelos dois economistas revelam ainda que “um ciclo de aperto monetário deixa a economia mais sensível a outros choques, como uma queda dos preços da habitação ou uma desaceleração mais generalizada da procura, enquanto um ciclo de flexibilização reduz os efeitos que estes choques têm sobre a economia”.

“Contudo, esta dependência do estado da economia não é meramente mecânica: o facto de um episódio de aperto monetário aumentar a exposição financeira depende também do contexto económico. Quando um aperto monetário ocorre em simultâneo com uma expansão económica, o aumento dos rendimentos tende a compensar o maior custo da dívida, mantendo a exposição financeira e a eficácia da política monetária globalmente inalteradas”, referem aqueles responsáveis.

“Quando, pelo contrário, o aperto monetário coincide com uma desaceleração económica, a exposição financeira aumenta de forma significativa e o impacto da política monetária sobre a produção, a inflação e os riscos para a estabilidade financeira é ainda mais amplificado”, acrescentam.

Os economistas pedem atenção aos responsáveis no momento de calibrar a política monetária, “não só para o nível atual da exposição financeira do setor privado, mas também para a forma como uma determinada trajetória de política monetária irá, por si própria, alterar essa exposição e, consequentemente, a eficácia de futuras alterações das taxas de juro”.

“Um aumento das taxas de juro efetuado numa fase avançada de um ciclo de aperto monetário, ou que ocorra em simultâneo com um enfraquecimento da economia, terá provavelmente um efeito mais forte do que uma alteração de magnitude equivalente efetuada numa fase mais inicial do ciclo ou num contexto económico mais favorável”, referem.

“Na sequência de um período de aperto monetário num contexto neutro ou recessivo, os rácios do serviço da dívida aumentam e a economia torna-se mais sensível a subsequentes choques da procura e dos preços da habitação. O contrário verifica-se após um período de flexibilização da política monetária”, conclui aquele trabalho.

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