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Mário Centeno, o Extrawurst

por Cristina Dias Neves, fundadora do JornalPT50

19 Out 2026 - 08:14

4 min leitura

Os alemães têm uma expressão muito cómica para aqueles que querem sempre ser exceção. São os Extrawurst, em tradução literal, a salsicha extra! Aqueles que acham natural ser a exceção à regra e agir como se tivessem direito a um tratamento especial. Há sempre alguém na família ou no escritório que merece este epíteto, pouco abonatório numa cultura que preza a norma acima de tudo.

Trago este tema a propósito da nomeação de Mário Centeno para uma seguradora do Abanca, em Espanha. Li com atenção a notícia da jornalista Isabel Vicente, no Expresso, e a versão do jornalista Diogo Cavaleiro, no Público, ambos distintos profissionais que acompanham o setor bancário. Não me sentiria bem se não deixasse aqui o meu comentário.

Não tenho dúvidas de que o professor Mário Centeno aceitou esta nova posição com todo o respaldo legal. Por outro lado, também não duvido de que a Comissão de Ética do Banco de Portugal, presidida pelo inquestionável Rui Vilar, tomou uma decisão em consciência, «seguindo o parecer do BCE».

Mas é também aqui que começam a surgir as minhas dúvidas. Mas o parecer do BCE é vinculativo? Parece que não. E quais são os fundamentos para antecipar em um ano o fim do período de nojo? Ainda não são públicos, mas talvez esteja em causa o argumento de que não se trata de um banco e de que a instituição está sediada em Espanha, pelo que não esteve sob a supervisão do governador Mário Centeno.

Sim, nunca esteve. Mas os seus acionistas negociaram a entrada no EuroBic no tempo do ministro Mário Centeno e, posteriormente, o desfecho dessa operação e as questões de governance com o Banco de Portugal, liderado pelo governador Mário Centeno. Não ver aqui qualquer potencial conflito de interesses é, no mínimo, displicente.

Mas, mais do que uma crítica a estas comissões de ética, que provavelmente se limitam a avaliar os comportamentos dos visados à luz das normas vigentes e não necessariamente dos princípios éticos que lhes estão subjacentes — não estão lá para problematizar as opções éticas, mas para garantir o cumprimento das normas — o que me chama a atenção é a incoerente coerência deste comportamento de Mário Centeno, um homem admirado por todos pela sua inteligência e preparação técnica.

Vejamos.

Passa de ministro das Finanças diretamente para governador do Banco de Portugal. É legal, sim, mas faz sentido? Não havia mais ninguém? Não deveríamos preservar a independência política do Banco de Portugal? Ou pelo menos a sua imagem de independência?

Sim, mas não é um filiado no partido, argumentam. Para alguns não interessa nada que tenha feito parte de um governo socialista durante vários anos, que seja muito próximo do primeiro-ministro António Costa, tão próximo que se tornou candidato assumido à sua substituição com toda a naturalidade.

Vendo bem as coisas, quem passa de ministro das Finanças para governador do Banco de Portugal também pode passar de governador do Banco de Portugal diretamente para primeiro-ministro. Porque não?

Depois, pretende continuar como governador do Banco de Portugal, já com um novo Governo, de outro partido, porque, naturalmente, acredita que este novo governo alternativo o deve considerar independente. E também porque, mantendo-se, pode vir a ser elevado a vice-presidente do BCE. Porque não? É bom para o país. É bom para todos.

Agora, decide não esperar mais um ano para assumir uma função num órgão social de uma seguradora. Ora essa, é em Espanha! E, afinal, foram os acionistas do Abanca os seus interlocutores, não a gestão do banco. Mas a quem responde a gestão do Abanca?

Por muita admiração que se possa ter pelo professor Mário Centeno, por muita alegria que este nos tenha proporcionado com as suas «contas certas», isso não lhe garante um lugar de exceção.

E, considerando o potencial que teria para ajudar este país a governar-se, deveria ser o próprio o primeiro a preocupar-se em manter uma reputação à prova de bala, evitando optar, sistematicamente, por ser o Extrawurst.

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