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Portugal: de País de Talento a Economia de Valor

Por Marcos Soares Ribeiro, Presidente da CFA Society Portugal

21 Ago 2026 - 07:30

12 min leitura

Marcos Soares Ribeiro, Presidente da CFA Society Portugal

Marcos Soares Ribeiro, Presidente da CFA Society Portugal

O ensino superior em Portugal constitui uma das mais profundas e silenciosas transformações estruturais do país nas últimas décadas.

Num período relativamente curto, Portugal passou de uma economia com níveis de escolarização reduzidos para um sistema em que o acesso ao ensino superior se generalizou e, mais importante ainda, em que a qualidade e a relevância internacional desse ensino atingiram níveis inesperados para um país de pequena dimensão.

Hoje, com mais de 450 mil estudantes inscritos no ensino superior, Portugal apresenta taxas de escolarização superiores a 40% e uma geração jovem que, em termos de qualificações, já converge com os padrões europeus.

Este progresso não deve ser lido apenas como um indicador social. Trata-se de uma transformação com implicações económicas profundas, que tem contribuído para a modernização do país, para a sua integração nas cadeias globais de valor e para a construção de uma base de competitividade sustentada no conhecimento.

Ao mesmo tempo, este sucesso revela novos desafios. A economia portuguesa não tem sido capaz de absorver plenamente o capital humano que forma e enfrenta um diferencial persistente de produtividade face aos seus pares europeus.

É neste contexto que emerge uma nova oportunidade estratégica: a possibilidade de transformar o capital humano e a atratividade internacional de Portugal num motor de desenvolvimento económico mais sofisticado, nomeadamente através do reforço do setor financeiro, do investimento e da gestão de patrimónios.

Da expansão à excelência: uma evolução estrutural

A evolução do ensino superior em Portugal está intimamente ligada à democratização do acesso à educação e à integração europeia.

A partir das décadas finais do século XX, o país investiu de forma consistente na expansão da rede de universidades e institutos politécnicos, criando condições para que um número crescente de jovens pudesse aceder ao ensino superior.

Este crescimento quantitativo foi acompanhado por um esforço de qualificação e internacionalização. A adesão ao Processo de Bolonha, a participação em programas como o Erasmus e o reforço da investigação científica contribuíram para alinhar o sistema português com os padrões internacionais.

Os resultados são evidentes. O número de diplomados aumentou de forma significativa, e a qualidade do ensino superior melhorou de forma sustentada.

Portugal deixou de ser um país periférico em termos académicos para se afirmar como um participante ativo no espaço europeu e global de ensino superior.

Mais relevante ainda, esta evolução teve impactos diretos na economia. A melhoria do capital humano permitiu aumentar a capacidade de adaptação tecnológica, desenvolver novos setores e atrair investimento estrangeiro.

O ensino superior tornou-se, assim, um dos principais motores do desenvolvimento económico.

Internacionalização: da periferia ao centro das redes globais

Um dos traços mais marcantes do ensino superior português contemporâneo é a sua crescente internacionalização.

Portugal passou de um sistema predominantemente doméstico para um sistema que atrai estudantes de todo o mundo.

Esta internacionalização assume formas distintas consoante o nível de ensino.

Nas licenciaturas, a presença de estudantes internacionais situa-se, em média, entre 10% e 15%, sendo fortemente marcada pela lusofonia. Estudantes provenientes do Brasil, de países africanos de língua portuguesa e de Timor-Leste representam uma parte significativa deste universo.

O idioma continua a ser um fator determinante.

Já ao nível dos mestrados, o panorama é substancialmente diferente. Os mestrados representam o verdadeiro “produto de exportação” do ensino superior português.

Estima-se que entre 20% e 30% dos estudantes de mestrado sejam internacionais, com percentagens significativamente mais elevadas nas principais escolas.

Em instituições como a Nova School of Business and Economics, os estudantes internacionais podem representar cerca de 60% do total nos programas de mestrado.

Esta diferença entre licenciaturas e mestrados reflete uma transformação estrutural.

Os mestrados são frequentemente lecionados em inglês, orientados para o mercado global e desenhados para atrair estudantes de múltiplas geografias.

Portugal posiciona-se aqui como um destino competitivo, oferecendo qualidade académica, custos relativamente baixos e uma elevada qualidade de vida.

Este fenómeno tem implicações económicas relevantes. A atração de estudantes internacionais não só gera receita direta, como contribui para a criação de redes globais de talento e para o reforço da reputação internacional do país.

As escolas de economia e negócios: um caso de sucesso internacional

Dentro do sistema de ensino superior, as áreas de economia, gestão e finanças destacam-se pela sua relevância e pelo seu nível de internacionalização.

Estas áreas não só concentram uma parte significativa dos estudantes, como têm uma ligação direta ao funcionamento da economia.

Portugal possui hoje um conjunto de escolas de negócios com reconhecimento internacional.

Instituições como a Nova SBE, a Católica Lisbon School of Business and Economics, a Católica Porto Business School, o ISEG, o Iscte Business School e a Faculdade de Economia da Universidade do Porto alcançaram posições de destaque em rankings internacionais e obtiveram acreditações exigentes como AACSB, EQUIS e AMBA.

Algumas integram o restrito grupo de escolas com “triple crown accreditation”, um selo de qualidade atribuído a menos de 1% das escolas de negócios a nível mundial.

Este reconhecimento traduz-se numa forte capacidade de atração de estudantes internacionais e numa elevada empregabilidade dos graduados.

Em áreas como finanças e gestão, programas portugueses surgem regularmente entre os melhores do mundo, refletindo a qualidade do ensino, a ligação ao mercado e a internacionalização.

A importância destas escolas vai além do domínio académico.

Elas desempenham um papel central na formação de gestores, analistas e decisores, contribuindo diretamente para a melhoria da qualidade da gestão empresarial – um fator crítico para o aumento da produtividade e da competitividade.

Em paralelo, e talvez um dos sinais mais interessantes da maturidade do sistema, seja a mudança de ambição dos próprios estudantes.

Hoje, os alunos portugueses pensam em carreiras internacionais desde cedo, procuram experiências no estrangeiro, valorizam certificações globais e competem em contextos internacionais.

Um exemplo particularmente relevante é a participação crescente de universidades portuguesas em iniciativas internacionais como o CFA Institute Research Challenge.

Em consequência, observamos a crescente procura de profissionais portugueses por certificações internacionais como a Certificação CFA.

Competitividade, qualidade de vida e desigualdade: o impacto económico do ensino superior

O impacto do ensino superior na economia portuguesa pode ser analisado através de vários indicadores internacionais.

Nos rankings de competitividade, como o IMD World Competitiveness Ranking ou o Global Competitiveness Index do World Economic Forum, Portugal posiciona-se tipicamente entre o 30.º e o 40.º lugar mundial.

Este posicionamento reflete um desempenho intermédio, com pontos fortes claros e fragilidades persistentes.

Entre os pontos fortes destacam-se precisamente a educação e o capital humano.

Portugal apresenta níveis de qualificação e resultados educativos que superam o seu posicionamento global em competitividade.

Em contraste, indicadores como produtividade, eficiência empresarial e inovação revelam um desempenho mais modesto.

Esta dissociação é central para compreender a economia portuguesa.

O país já conseguiu elevar o seu capital humano, mas ainda não conseguiu traduzir plenamente esse avanço em ganhos de produtividade.

Ao mesmo tempo, Portugal apresenta bons indicadores de qualidade de vida.

Índices internacionais colocam o país entre os mais seguros do mundo, com elevados níveis de bem-estar e uma qualidade de vida reconhecida.

No domínio das desigualdades, medidas como o coeficiente de Gini mostram uma redução progressiva ao longo das últimas décadas, refletindo um certo sucesso na coesão social.

No entanto, a produtividade continua a ser o principal desafio estrutural.

O produto por trabalhador permanece abaixo da média europeia, limitando o crescimento económico e a capacidade de retenção de talento.

O paradoxo do capital humano: emigração e imigração

Este desafio manifesta-se de forma particularmente clara nos fluxos migratórios.

Portugal continua a exportar uma parte significativa do seu capital humano qualificado.

Jovens licenciados e mestres procuram oportunidades no estrangeiro, atraídos por salários mais elevados e melhores perspetivas de carreira.

Ao mesmo tempo, o país tem registado um aumento da imigração, frequentemente concentrada em setores de menor qualificação e menor valor acrescentado.

Este padrão cria um desequilíbrio: Portugal forma talento de elevado nível, mas não o retém na mesma proporção, enquanto importa mão de obra para funções menos qualificadas.

Este fenómeno não resulta de falhas do sistema educativo, mas sim da estrutura da economia.

A oferta de talento existe; o desafio reside na criação de oportunidades que permitam utilizá-lo plenamente.

Uma nova realidade: atração de talento, inovação e capital

Nos últimos anos, Portugal tem assistido a uma transformação silenciosa na sua base económica e social.

Para além dos fluxos tradicionais, o país começou a atrair novos perfis de residentes: empreendedores, profissionais ligados à inovação, trabalhadores remotos e indivíduos com elevado património.

Este movimento resulta de uma combinação de fatores: segurança, estabilidade institucional, qualidade de vida, integração na União Europeia e um posicionamento crescente como destino global.

Portugal tornou-se não apenas um lugar para visitar, mas um lugar para viver e investir.

Paralelamente, multinacionais, especialmente nos setores financeiro e tecnológico, começaram a estabelecer bases operacionais no país.

Inicialmente focadas em funções de suporte, estas operações têm vindo a subir na cadeia de valor, incorporando atividades mais complexas e estratégicas.

Este movimento é facilitado pela disponibilidade de talento qualificado proveniente das universidades portuguesas.

Este processo é ainda incipiente, mas revela um potencial significativo.

Portugal começa a posicionar-se como um hub de talento e operações para empresas globais, beneficiando da sua combinação única de fatores.

A oportunidade no setor financeiro e de investimento

Neste contexto, emerge uma oportunidade particularmente relevante: o desenvolvimento de um ecossistema de serviços financeiros de elevado valor acrescentado.

A crescente presença de indivíduos com elevado património em Portugal cria condições para o desenvolvimento de atividades como wealth management, family offices e investimento estruturado.

Atualmente, grande parte destes ativos é gerida fora do país, o que limita o impacto económico local.

Portugal reúne, no entanto, várias condições favoráveis: talento qualificado, custos competitivos, enquadramento institucional europeu e uma base crescente de clientes internacionais.

O desenvolvimento deste setor poderia criar emprego altamente qualificado, reter talento e aumentar o valor acrescentado da economia.

A instalação de family offices e a expansão de serviços financeiros sofisticados podem transformar Portugal num hub relevante neste domínio.

Ao mesmo tempo, o reforço do perfil de atração de capitais internacionais pode contribuir para dinamizar o investimento e a inovação.

Filantropia, cultura e uma nova economia criativa

Associado ao aumento da riqueza e da internacionalização, surge também o potencial de desenvolvimento da filantropia e de atividades culturais e criativas.

Portugal tem condições para se afirmar como um espaço de experimentação cultural, design e inovação social.

A criação de fundações, fundos de impacto e iniciativas culturais pode complementar o desenvolvimento económico, reforçando a identidade do país e contribuindo para a sua atratividade.

O desafio da relevância num mundo em mudança

Num plano mais amplo, as universidades enfrentam o desafio de se manterem relevantes num contexto de rápida transformação tecnológica.

A emergência da inteligência artificial e de novas formas de aprendizagem exige uma adaptação dos modelos educativos, com maior foco em competências transversais e aprendizagem contínua.

Este desafio é real, mas não diminui o papel central do ensino superior.

Pelo contrário, reforça a necessidade de instituições capazes de formar indivíduos com capacidade crítica, adaptabilidade e visão estratégica.

Portugal está em condições de poder ser um ator muito relevante neste que já é um desafio da humanidade.

Conclusão: uma base sólida para uma nova ambição

O ensino superior em Portugal é uma história de sucesso.

Transformou o país, elevou o seu capital humano e criou condições para uma economia mais sofisticada.

Mas o seu potencial ainda não foi plenamente realizado.

Portugal encontra-se hoje num ponto de inflexão.

Dispõe de talento, atrai capital e beneficia de uma reputação internacional positiva.

A combinação destes fatores cria uma oportunidade única para dar um salto qualitativo no desenvolvimento económico.

O desafio não é continuar a expandir o ensino superior, mas sim utilizá-lo como base para uma nova ambição económica.

Trata-se de transformar conhecimento em valor, talento em produtividade e atratividade em investimento.

Se conseguir fazê-lo, Portugal poderá afirmar-se não apenas como um país bem formado, mas como uma economia capaz de competir e prosperar num mundo globalizado.

O país já demonstrou que consegue formar talento ao mais alto nível.

O futuro dependerá da sua capacidade de o reter, valorizar e transformar em crescimento sustentável.

Texto originalmente publicado no livro “Capital Lusófono – Ensaios de Economia e Finanças do Mundo de Língua Portuguesa”, uma iniciativa conjunta da CFA Society Portugal e da CFA Society Brasil que contou com o apoio da CPLP.

 

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