4 min leitura
Um desconforto português
Por Miguel Alexandre Ganhão, Diretor do Jornal PT50
15 Ago 2026 - 07:30
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Miguel Alexandre Ganhão, Editor-executivo Jornal PT50
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Miguel Alexandre Ganhão, Editor-executivo Jornal PT50
Sou um dos 8,5 milhões de europeus que já votaram nas novas notas de euro. Existem trabalhos extraordinários nos dois temas — “Rios e Aves” (embora, neste grupo, algumas propostas de design me pareçam mais próximas do estilo asiático do que do europeu) e “Cultura Europeia”. Mas não deixo de manifestar aqui algum desconforto.
Em primeiro lugar, por não ter sido selecionada nenhuma das 46 propostas de designers nacionais que integraram as 1241 candidaturas oriundas dos 27 países que integram a União Europeia.
Em segundo lugar, porque, no tema “Cultura Europeia”, que tem uma enorme abrangência, também as figuras escolhidas não têm pontos de contacto com a história lusa. Eu sei que a riqueza cultural europeia é imensa e diversificada, mas também nós demos um importante contributo.
Não ajuda o Banco Central Europeu (BCE) ter exigido que os ícones da cultura europeia já tivessem falecido, o que reforça a dimensão de tributo.
Maria Callas, que dá o rosto às notas de 5 euros, foi uma soprano incomparável. Não temos, na música clássica, alguém que se lhe compare. A nossa Maria João Pires está viva e desejo-lhe muita saúde.
Na nota de 10 euros temos Beethoven. Também aqui é difícil encontrar um comparativo histórico nacional ao nível do compositor da 9.ª Sinfonia. Mas, quando passamos para a nota de 20 euros — uma das mais utilizadas na zona euro —, que tem o rosto de Marie Curie, nascida Maria Salomea Skłodowska, em Varsóvia, a 7 de novembro de 1867, e que nunca abdicou do seu nome polaco, assinando sempre Marie Skłodowska Curie, as coisas já mudam de figura.
Marie Curie acumulou dois Prémios Nobel — o da Física, em 1903, partilhado com o marido, e o da Química, em 1911, atribuído apenas a si, pela descoberta e isolamento do rádio e do polónio —, mas também nós podemos exibir um Prémio Nobel: Egas Moniz recebeu o Prémio Nobel da Medicina em 1949.
Já a nota de 50 euros tem como tema o escritor espanhol Miguel de Cervantes, que deu à estampa a imortal obra D. Quixote. Mas, na literatura, os portugueses dão cartas. Não tenho a coragem de recuar a Luís de Camões, mas atravesso-me por José Saramago (Prémio Nobel da Literatura em 1998) e por Fernando Pessoa, um dos poetas mais influentes do modernismo europeu.
Subimos na cadeia de valor e a nota de 100 euros retrata Leonardo da Vinci. O génio, pintor e inventor, que nos deixou quadros como a Mona Lisa, teve um papel decisivo na cultura europeia. Assim como tiveram Fernão de Magalhães, que realizou a primeira viagem de circum-navegação ao globo, ou Vasco da Gama, o primeiro europeu a ligar o Velho Continente à Índia.
A escolha de Bertha von Suttner, a segunda mulher a receber um Prémio Nobel depois de Marie Curie — o Prémio Nobel da Paz, em 1905 —, para ilustrar a futura nota de 200 euros, é deveras surpreendente. Ativista pelos direitos das mulheres, numa época em que essa expressão ainda não tinha o significado que hoje lhe atribuímos, Bertha enfrentou a exclusão da alta nobreza austríaca devido à sua ascendência “mista”.
A justiça da escolha é incontestável, mas não ficaria de bem comigo se não recordasse as pintoras Maria Helena Vieira da Silva e Paula Rego e a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen como figuras de relevo europeu.
Escolher é sempre excluir alguém. Respeito e considero a escolha dos vários especialistas do Banco Central Europeu, mas não consigo esconder algum desencanto que me vai na alma.
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