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René Petersen: “Algumas das empresas mais interessantes da Europa atualmente são pequenas e médias empresas especializadas”

O Jornal PT50 conversou com René Petersen sobre o fundo Empower Europe da Nordea AM e qual a sua visão sobre preocupações e oportunidades vindouras no mercado.

24 Out 2026 - 08:25

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René Petersen lead equity portfolio manager da Nordea AM | Foto Nordea AM

Autor

Luís Alves Almeida

Jornalista

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rené petersen nordea am

René Petersen lead equity portfolio manager da Nordea AM | Foto Nordea AM

Lançado há perto de um ano e meio, o fundo Empower Europe da Nordea Asset Management (AM) pretende focar-se nas empresas empresas europeias que estejam associadas a áreas como a resiliência energética, a defesa e a inovação industrial, seguindo aquele que tem sido um dos motores económicos europeus recentes: o reforço da soberania.

Neste sentido, o Jornal PT50 conversou com o ‘lead equity portfolio manager’ da Nordea AM, René Petersen, numa tentativa de perceber o ponto de situação do fundo e quais as perspetivas da empresa em relação ao futuro, especialmente tendo em conta o atual contexto económico e geopolítico.

 

O desempenho do fundo Empower Europe tem estado em linha com as vossas expectativas iniciais?

Sim. Quando lançámos o fundo, em junho de 2025, estávamos convictos de que a Europa estava a entrar nas fases iniciais de um ciclo de investimento plurianual, impulsionado pela resiliência energética, pela renovação industrial e pelo investimento em defesa e cibersegurança. Ao longo do último ano, estes temas evoluíram, em grande medida, como tínhamos antecipado, com governos, empresas e instituições a comprometerem cada vez mais capital em investimentos estratégicos em todo o continente.

É importante, no entanto, lembrar que o Empower Europe é uma estratégia temática de ações. Como em qualquer fundo temático, o desempenho pode ser volátil em períodos mais curtos, à medida que o sentimento do mercado muda, surgem preocupações macroeconómicas ou os investidores fazem rotação entre setores e estilos. Por isso, avaliamos a estratégia sobretudo à luz das tendências estruturais de longo prazo que procura captar, e não dos movimentos de mercado de curto prazo.

Espera retornos semelhantes em 2027?

Na verdade não fazemos previsões de retorno, e os investidores não devem esperar um resultado específico num determinado ano.

O que nos dá confiança é o facto de os fatores estruturais que sustentam a estratégia se manterem firmes. A Europa continua a investir em infraestruturas energéticas, competitividade industrial, resiliência das cadeias de abastecimento e capacidades de segurança. Estas são prioridades estratégicas, e não iniciativas políticas de curto prazo, o que significa que o ciclo de investimento poderá prolongar-se muito para além dos próximos anos.

Os retornos de mercado raramente são lineares, e devem esperar-se períodos de volatilidade. No entanto, acreditamos que muitas das empresas expostas a estes temas continuam a oferecer um potencial de crescimento atrativo a longo prazo, porque o mercado continua a subestimar a dimensão e a duração da transformação da Europa.

De que forma o fundo foi afetado, positiva ou negativamente, pelos desenvolvimentos geopolíticos do último ano?

Os desenvolvimentos geopolíticos reforçaram, em grande medida, a lógica da estratégia. A Europa tem tomado cada vez mais consciência das suas dependências externas em termos de energia, produção industrial e segurança. Como resultado, assistimos a um maior compromisso político e a um aumento do investimento com o objetivo de reforçar a resiliência nestas áreas.

Isto tem sido, de forma geral, positivo para muitas das empresas em que investimos, sobretudo as que atuam em infraestruturas de rede, eletrificação, automação, tecnologias de defesa e cibersegurança. Ao mesmo tempo, a incerteza geopolítica pode gerar volatilidade nos mercados, em especial em torno da política comercial, das tarifas e das relações internacionais. Vemos essa volatilidade como parte do contexto de investimento e, enquanto gestores ativos, em alguns casos até como uma oportunidade de compra, e não como um motivo para alterar a nossa convicção de longo prazo.

Olhando para as principais posições do fundo, com base nos dados disponíveis para agosto, há uma forte alocação a empresas alemãs. A recente recuperação da economia alemã trouxe maior otimismo aos investidores e mais confiança na rentabilidade das empresas da maior economia da Europa?

Embora a Alemanha continue a ser uma das maiores exposições do fundo por país, a nossa abordagem de investimento assenta na seleção de empresas (bottom-up) e não numa visão macroeconómica (top-down). Dito isto, sentimo-nos encorajados pelos sinais de que o sentimento em relação à Alemanha está a melhorar. Depois de vários anos difíceis, as expectativas económicas começaram a recuperar, apoiadas por estímulos orçamentais, planos de investimento em infraestruturas, pela aceleração da digitalização e por um foco renovado no reforço da competitividade industrial da Europa.

Friedrich Merz tem passado recentemente uma mensagem clara: a Alemanha está aberta aos negócios e quer posicionar-se como uma “âncora de estabilidade” para o capital internacional. Até 2040, o governo alemão pretende mobilizar capital privado adicional no valor de vários biliões de euros.

Os desenvolvimentos recentes mostram que a Alemanha está a ser vista, cada vez mais (e novamente), como um destino-chave para o investimento orientado para o futuro. Na primeira edição do “Invest in Germany Summit”, que decorreu em Berlim a 19 e 20 de outubro de 2026, o governo alemão anunciou compromissos de investimento no valor total de cerca de 230 mil milhões de euros, incluindo grandes projetos de líderes tecnológicos globais como a Amazon, a Microsoft e a Nvidia. A cimeira resultou também num acordo de cooperação estratégica entre a Alemanha e a Nvidia para acelerar a adoção da inteligência artificial industrial e reforçar o ecossistema europeu de IA.

Acreditamos que estes desenvolvimentos são muito relevantes para a tese de investimento do Empower Europe. Um dos pilares do fundo é a nossa convicção de que a Europa pode beneficiar de um maior investimento em indústrias estratégicas, infraestruturas digitais, automação, tecnologia industrial e segurança energética. A disponibilidade de algumas das maiores empresas tecnológicas do mundo para investir capital significativo na Alemanha reforça a nossa visão de que a Europa continua a ser a casa de empresas globalmente competitivas e de polos de inovação capazes de participar em tendências estruturais de crescimento a longo prazo.

O fundo tem uma forte concentração nos setores industrial e de tecnologias de informação, que juntos representam cerca de 70% da carteira. É uma estratégia que pretendem manter ou estão a ponderar alterações?

A exposição setorial é uma consequência da nossa abordagem temática, e não de uma decisão de alocação setorial top-down.

Muitas das empresas que estão a viabilizar a transformação da Europa enquadram-se naturalmente nos setores industrial e tecnológico. Seja em equipamentos de rede, infraestruturas elétricas, automação industrial, semicondutores, cibersegurança, tecnologias de sensores ou sistemas de defesa, estas empresas são muitas vezes classificadas como industriais ou tecnológicas.

Por isso, esperamos que a indústria e a tecnologia continuem a ser áreas importantes da carteira. No entanto, o nosso foco mantém-se na identificação das melhores empresas que beneficiam destes temas estruturais, e não na manutenção de pesos setoriais fixos. À medida que as oportunidades evoluem, a carteira também vai evoluir, mas continuamos a ver uma procura substancial a longo prazo nestas áreas.

“A nossa abordagem passa por identificar empresas que oferecem soluções para estes desafios, em vez de tentar prever os próprios acontecimentos geopolíticos”

A incerteza geopolítica é atualmente uma das principais preocupações dos mercados. Como é que isso se reflete na Nordea Asset Management e nos fundos que gere?

A geopolítica tornou-se um fator de investimento cada vez mais importante nos mercados globais. Na Nordea Asset Management, reconhecemos que temas como a segurança energética, as cadeias de abastecimento, o investimento em defesa, a política comercial e a soberania tecnológica podem ter implicações significativas nos resultados e nos perfis de risco das empresas a longo prazo.

No caso específico do Empower Europe, os desenvolvimentos geopolíticos não são apenas riscos a acompanhar; estão entre os fatores que impulsionam as mudanças estruturais em curso na Europa. Por isso, a nossa abordagem passa por identificar empresas que oferecem soluções para estes desafios, em vez de tentar prever os próprios acontecimentos geopolíticos.

Quais são as principais vulnerabilidades no horizonte?

As principais vulnerabilidades continuam a ser a segurança energética, a fragmentação do comércio, as perturbações nas cadeias de abastecimento e o risco de a Europa não conseguir executar as suas ambições de investimento estratégico com a rapidez necessária. A incerteza política e as mudanças nas prioridades regulatórias também podem influenciar o ritmo do investimento.

Outro risco é os investidores ficarem demasiado focados nas notícias macroeconómicas de curto prazo e ignorarem as tendências estruturais de longo prazo que estão em curso. Embora o rumo pareça claro, a implementação nem sempre será fácil, e devem esperar-se períodos de volatilidade.

E quais são as maiores oportunidades que estão a surgir neste momento?

Acreditamos que as maiores oportunidades continuam a vir das empresas que estão a viabilizar a transformação da Europa, e não da transformação em si.

A eletrificação e a modernização das redes continuam a ser áreas particularmente atrativas, apoiadas pela crescente procura de eletricidade e pela necessidade de maior resiliência energética. Vemos também oportunidades interessantes na automação industrial, na produção avançada, nas tecnologias de defesa, na cibersegurança e nas infraestruturas ligadas aos semicondutores.

Importa sublinhar que muitas destas oportunidades se encontram para além das maiores empresas dos índices de referência. Algumas das empresas mais interessantes da Europa atualmente são pequenas e médias empresas especializadas, que fornecem tecnologias e serviços críticos. Na nossa opinião, é muitas vezes nestas empresas que se encontra a combinação mais forte de crescimento estrutural, inovação e oportunidade de valorização.

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