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Ricardo Evangelista: “Há sempre a questão entre o que é uma bolha e um ‘bull market’. Eu acho que estamos num ‘bull market’ para a IA”

Em conversa com o Jornal PT50, o CEO da ActivTrades Europe, Ricardo Evangelista, comentou o que esperar da política monetária nos próximos tempos e também como o ambiente geopolítico está a influenciar os mercados.

02 Set 2026 - 07:05

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Foto: ActivTrades Europe

Foto: ActivTrades Europe

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Como tem sido a influência dos avanços e recuos da Guerra no Irão nos mercados?

O conflito tem feito diminuir o tráfego marítimo que passa pelo estreito de Ormuz, por onde normalmente passavam cerca de 20% das exportações globais de petróleo e gás. Isso tem elevado a subidas no preço da energia, o que também afeta as expectativas face à inflação. Acaba por levar a que os investidores comecem a precificar a manutenção das taxas de juro altas durante mais tempo e até subidas das taxas de juro.

Isso tem tido também um impacto negativo sobre o apetite pelo risco, que acaba por afetar os mercados de ações, por exemplo. Tem levado a que o dólar se valorize bastante, dada a expectativa de que a Fed adote uma política monetária mais restritiva, por causa dos riscos inflacionistas exacerbados por este conflito. Já os juros da dívida dos EUA têm subido por conta disso e, por consequência, outros juros de dívidas soberanas, e até corporativas, acabam por subir por arrasto.

Quais é que são as geografias mais prejudicadas devido a esta instabilidade geopolítica? Mais prejudicadas ou, por outro lado, quais é que, de alguma forma, podem beneficiar deste ambiente?

Eu penso que os mercados financeiros são mercados globais. E o efeito desta crise tem-se sentido globalmente. Os preços da energia, quando sobem, sobem para todos, porque a energia é transacionada no mercado global. E poderíamos, numa análise mais superficial depreender que um país exportador líquido de energia estivesse numa situação mais vantajosa do que aqueles que importam.

No entanto, se olharmos, por exemplo, para o preço da gasolina e do diesel nos EUA, vemos que têm havido subidas bastante importantes, apesar de os EUA serem um país exportador de energia. Isto porquê? Porque o mercado da energia é um mercado global. Portanto, todas as geografias, todas as regiões, acabam por ser afetadas por esta crise.

Como a subida dos preços da energia se verifica globalmente, a inflação acaba por ser um efeito colateral e isto também se faz sentir por todo lado. A perspetiva de políticas monetárias mais apertadas também acaba por se fazer sentir a nível global.

Eu penso que esta crise não altera significativamente as dinâmicas globais. Ou seja, aqueles países que já estavam com mais dificuldades, e as regiões que estavam a passar por um período mais desafiante, assim continuam. As economias que demonstravam maior pujança antes da crise também continuam a crescer a um ritmo mais forte do que as outras. Não considero que possamos fazer uma análise dos efeitos desta crise focando no seu impacto local. Penso que tem de ser sempre uma análise global.

Nesse sentido, tendo em conta toda esta crise e todo o ambiente geopolítico, perguntava, mesmo assim – fora a questão da crise energética, na verdade, que é o grande impacto – que outros fatores, ou que outros impactos, é que se podem notar, especificamente, no mercado europeu? Ou isto cinge-se muito à questão energética e não vai muito além disso?

Sim, eu penso que neste momento o impacto que se tem sentido no mercado europeu é um pouco o impacto que se tem feito sentir, por exemplo, nos EUA.

Ou seja, qual é que é o grande impacto? É o custo de energia mais Elevado e, por consequência, os custos subiram globalmente. O custo da dívida também está a subir, porque com a energia mais elevada temos também a inflação. A inflação é um grande problema que resulta dos custos energéticos mais elevados e acaba por levar a que os investidores antecipem políticas monetárias mais restritivas dos bancos centrais.

O que se tem sentido na Europa, neste sentido, é comparável ao que se tem sentido nos EUA.

Já que falamos das políticas monetárias mais restritivas, que os investidores esperam, eu pergunto se devem os investidores, neste momento, ter alguma aversão ao risco?

Se devem? Eu não digo que devam. Isso depende da estratégia de cada um. Mas eu penso que existem riscos significativos neste momento.

Como por exemplo?

Temos esta crise no Golfo Pérsico em que não há perspetiva de uma resolução. Ou seja, não há perspetiva realista, calendarizada, para a resolução desta crise. Ela tem sido mitigada porque os EUA, e penso que todos os países, têm utilizado as suas reservas estratégicas de petróleo para tentar compensar a diminuição na oferta e assim manter os preços mais baixos.

Agora, as reservas estão a ficar muito baixas e, não havendo uma perspetiva de resolução para esta crise, um cenário que é cada vez mais realista é o de o preço do petróleo subir bastante, ficando acima de onde está agora. E eu acho que esse é um cenário realista se não se encontrar uma solução para este conflito.

E eu confesso que, não sendo especialista em política, mas, olhando para aquilo que me chega, não estou a ver como é que isto se vai solucionar no curto prazo. Portanto, esse é um grande risco.

Outro risco é também o endividamento a que estamos a assistir. O crescimento da dívida soberana nos EUA e na Europa, mas também da dívida corporativa. Os investimentos em Inteligência Artificial (IA) têm vivido muito do endividamento.

Depois há também incertezas no mercado laboral, ou seja, qual vai ser o impacto das mudanças a que estamos a assistir no mercado laboral.

E temos ainda, é claro, a questão da guerra na Ucrânia, que cria problemas não só ao nível do fornecimento de energia, mas também ao nível do fornecimento de cereais, pois tratam-se de dois países fortes na exportação de trigo, sobretudo. Ultimamente, tem havido muitos ataques no Mar Negro, que têm feito com que tenha diminuído o fluxo de exportação de cereais. Existe ainda a exportação de fertilizantes, que vem muito da zona do Golfo e da Rússia.

Portanto, eu penso que, olhando para todos estes fatores de instabilidade que temos neste momento, há razões para alguma cautela e pode justificar-se, talvez, um menor apetite pelo risco do que aquele que vimos em 2024 e 2025.

Falou agora da questão da dívida corporativa devido ao investimento em IA. Nesse sentido, e um pouco fora do âmbito do que estávamos a falar, perguntava se considera que existe – porque já se tem falado – uma bolha em torno da IA.

É assim, há sempre aquela questão entre o que é uma bolha e o que é um ‘bull market’. Eu acho que estamos num ‘bull market’ para o setor da IA.

Um ‘bull market’ torna-se uma bolha quando ela rebenta. Neste momento, ainda não estamos nesse ponto. Então, não posso dizer que seja uma bolha. Agora, se me pergunta se há possibilidade de termos uma bolha no setor da IA, isso sim, há possibilidade.

Falávamos há pouco da questão do aumento dos juros da dívida. Na última semana, o que subiu de forma considerável foi a Bitcoin, que está a ser procurada como ativo de refúgio, tendo em conta todo o panorama da instabilidade. Podemos prever ou esperar uma nova queda da Bitcoin quando houver uma estabilização?

Relativamente à Bitcoin, não faço ideia. É a minha resposta honesta, não faço ideia, acho que é um ativo ainda um pouco especulativo.

É verdade que registou uma boa recuperação quando houve aquela questão… Algum pânico criado relativamente ao Tesouro americano dizer que ia aumentar as compras de dívida para 4 mil milhões por ação e também quando interveio no mercado comprando yen para estabilizar o yen e evitar que os japoneses vendessem títulos do Tesouro.

Houve ali uma valorização da Bitcoin, que ocorreu paralelamente à valorização do ouro, do franco suíço e dos outros ativos de refúgio. Portanto, comportou-se como um ativo de refúgio, mas eu ainda não entendo muito bem como funciona pelo que não posso dar uma opinião sobre se se vai manter ou não.

Que outros ativos de refúgio são comuns nestas situações? Falou do franco suíço, do ouro…

Há ativos que tradicionalmente funcionam como refúgio e os investidores procuram mais estes ativos quando aumenta a incerteza. No entanto, por exemplo, o ouro tem um custo de oportunidade elevado, porque é um ativo que não gera rendimentos.

E como não gera rendimento, o seu custo de oportunidade cresce quando os juros da dívida ‘prime’ sobem. Outro ativo de refúgio que tem sido procurado é o dólar, que, aumentando e subindo a sua cotação face a outras moedas, faz com que o preço do ouro para compradores que utilizam outras divisas caia.

Logo, temos visto que, embora estejamos a viver um período de grande instabilidade geopolítica, que normalmente seria propício a ganhos mais significativos do ouro, eles não estão a acontecer porque outros ativos que também têm subido cortam os cenários em que o ouro subiria mais.

Tendo em conta o discurso do presidente da Reserva Federal, que abriu caminho para uma subida de juros, e também a previsível subida de juros por parte do BCE agora em setembro, como é que isso vai impactar, a curto e médio prazo, o comportamento dos mercados e o que é que se pode prever, por exemplo, em relação à cautela dos investidores?

Eu penso que a subida dos juros pelo BCE em setembro já está precificada pelos mercados. A grande dúvida aqui é a Fed e se esta sobe os juros em setembro ou não. Neste momento, o mercado de apostas está quase 50/50, mas nesta semana já devemos ter mais clareza com a saída dos dados sobre o emprego americano, que saem na sexta-feira.

Estes dados vão mostrar o estado do mercado laboral nos EUA, que tem grande importância para a Reserva Federal. Como se sabe, a Fed tem um duplo mandato, que é a estabilidade dos preços e também a estabilidade da economia do mercado laboral.

Se os dados do emprego superarem as expectativas e se houver mais postos de trabalho criados em agosto do que se esperava, isso vai ser visto como um sinal de vitalidade da economia americana e logo tornará muito mais provável que a Fed, quando tiver a sua reunião do Comité de Política Monetária, a 14 de setembro, decida então aumentar os juros.

Por outro lado, se os resultados forem dececionantes, como têm sido nestes últimos dois meses, e se a dose se repetir, aí poderá existir motivo para maior preocupação face ao Estado da economia americana. Poderá estar a desacelerar de uma forma muito rápida, e isso nota-se pela diminuição de números de novos postos de trabalho criados, e aí a Reserva Federal poderá hesitar mais e não subir ainda a taxa de juro. Este é o cenário que está menos precificado e, portanto, sexta-feira vai ser um dia muito importante e acho que os investidores vão ajustar as suas decisões em função disto.

Se estivermos perante um cenário que deixe a porta aberta para a Fed subir taxas de juros, poderemos assistir a uma diminuição da procura por ações, por exemplo, e de outros ativos de maior risco e uma mudança para outro tipo de instrumentos, como por exemplo o ouro ou algo do género. O cenário inverso terá o efeito oposto.

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