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Liquidação 24/7: o papel do MiCA na transformação das stablecoins em infraestrutura de tesouraria
Por David Jofre, Vice President, Business Development da Shift4
03 Jul 2026 - 07:30
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David Jofre, vice-presidente de Business Development da Shift4
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David Jofre, vice-presidente de Business Development da Shift4
Imaginemos o seguinte cenário: numa noite de sábado, uma loja online concretiza uma venda. O cliente paga, a encomenda é processada e, do ponto de vista operacional, a transação está concluída. Ainda assim, o dinheiro só estará efetivamente disponível na terça-feira.
Este intervalo entre o momento da venda e o momento em que o dinheiro pode ser utilizado é tão comum que quase deixou de ser questionado. No entanto, para empresas que operam em várias geografias, com picos sazonais ou margens reduzidas, é uma fricção estrutural.
Há muito tempo que o comércio deixou de ter horários – a verdadeira questão, hoje em dia, é perceber porque é que a liquidação e a movimentação de fundos continuam presas às janelas temporais do sistema bancário.
O grande equívoco: pensar em termos de “pagar com cripto”
Durante muito tempo, falar de stablecoins em contexto empresarial reduziu-se a uma questão bastante superficial: se os consumidores vão ou não “pagar com cripto”. Esse enquadramento gerou mais ruído do que utilidade. Na prática, o potencial mais tangível surge depois da cobrança do pagamento, nomeadamente na liquidação, na reconciliação e na movimentação de tesouraria.
É aí que se define a verdadeira eficiência operacional de um negócio internacional, e onde os custos invisíveis se acumulam quando o dinheiro fica “parado” devido a horários bancários, feriados ou fricção transfronteiriça. O comércio funciona 24/7, mas o cash flow nem sempre acompanha esse ritmo. Para uma empresa, o que realmente importa é quando pode aceder a esse dinheiro, e a que custo.
Há outro ponto que começa a ganhar relevância na discussão: a capacidade de movimentar fundos entre jurisdições quase instantaneamente e, potencialmente, com menor fricção de custos do que as cadeias transfronteiriças tradicionais, especialmente quando estão envolvidos múltiplos mercados e janelas bancárias desalinhadas.
Um exemplo simples: após um pico de vendas num país, alguns comerciantes precisam de redistribuir liquidez para outra jurisdição para pagar inventário ou fornecedores. Se esse movimento depender de horários de fecho, feriados e múltiplos intermediários, tanto o custo como o “valor temporal” do dinheiro aumentam significativamente. Por outro lado, se os fundos puderem ser movimentados de forma contínua, a gestão de tesouraria ganha margem e previsibilidade.
Na Europa, este debate começa a mudar de tom com a entrada em vigor do MiCA: o enquadramento regulatório destinado a organizar o uso de criptoativos e, em particular, de stablecoins. Para além do detalhe técnico, o MiCA introduz algo invulgar neste setor: coloca o foco da narrativa nas operações.
Com regras claras, a conversa deixa de se centrar em exemplos pontuais e passa a focar-se em decisões concretas: quem emite, que garantias existem, como o risco é controlado e como a atividade é reportada. Para uma empresa que analisa este tema do ponto de vista financeiro ou de tesouraria, essa mudança é crítica. Sem enquadramento, tudo permanece teórico; com ele, entra no domínio do que é efetivamente avaliável.
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