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A nadadora católica que serviu bolachas a Jacques Delors

Por Miguel Alexandre Ganhão, Diretor do Jornal PT50

31 Out 2026 - 07:40

5 min leitura

Miguel Alexandre Ganhão Diretor do Jornal PT50

Portrait of a middle-aged man with glasses, wearing a suit and vest, seated indoors in a circular frame.

Miguel Alexandre Ganhão Diretor do Jornal PT50

Christine Madeleine Odette Lagarde fará 71 anos no próximo dia 1 de janeiro. A primeira mulher a ocupar o cargo de ministra das Finanças em França, em 2007, anunciou esta semana que vai abandonar a presidência do Banco Central Europeu (BCE). Já em 2019 se tinha mostrado surpreendida quando Emmanuel Macron lhe lançou o desafio de liderar o BCE. Ao aceitar, Lagarde pensou que o mandato seria de cinco anos, até Macron lhe ter dito: «Minha cara Christine, são oito anos em Frankfurt!».

Filha de professores que cultivavam os valores do humanismo e eram influenciados pelo movimento católico de centro-esquerda, que procurava transformar a sociedade mantendo-se fiel aos princípios do Evangelho, Lagarde nasceu em Paris, mas passou a infância em Le Havre, na Normandia, onde frequentou o ensino secundário e desenvolveu o gosto pela natação sincronizada, que começou a praticar por volta dos 12 anos no Club Nautique Havrais.

Os filmes aquáticos protagonizados pela atriz e também nadadora norte-americana Esther Williams exerceram um grande fascínio sobre a jovem Lagarde, que, aos 15 anos, conquistou uma medalha de bronze nos campeonatos franceses, tendo posteriormente integrado a seleção francesa de natação sincronizada.

Esta experiência desportiva marcou profundamente Lagarde, que, anos mais tarde, ainda recordava as exigências da modalidade: ser uma boa nadadora, controlar a respiração, conseguir permanecer muito tempo debaixo de água e trabalhar constantemente em equipa.

Uma frase da sua treinadora acompanhou-a para sempre: «Cerra os dentes e sorri».

Em casa de Robert Lallouette, professor de inglês, e de Nicole Carré, professora de línguas e literaturas clássicas, a pequena Lagarde, então com 10 anos e ainda antes de se transformar numa «Petite fille rebelle», cirandava pela casa, ajudando a mãe a pôr a mesa para o lanche, onde se sentavam personalidades como Pierre Mendès France ou Jacques Delors.

A morte do pai, em consequência de uma doença neurodegenerativa, quando Lagarde tinha 16 anos, apressou a sua partida para o estrangeiro. O destino foram os Estados Unidos, onde obteve uma bolsa pré-universitária na Holton-Arms School, em Bethesda, Maryland.

Foi um ano académico muito importante, durante o qual Lagarde teve um contacto privilegiado com a política norte-americana, numa altura em que os Estados Unidos enfrentavam o escândalo Watergate. Realizou um estágio no Capitólio, em Washington, como assistente bilingue no gabinete do jovem congressista republicano William Cohen, futuro secretário da Defesa.

De regresso a França, formou-se no Institut d’études politiques d’Aix-en-Provence (Sciences Po Aix) e, posteriormente, concluiu um duplo mestrado na Universidade de Nanterre (Paris X), em Língua Inglesa e Direito do Trabalho.

Iniciou a carreira jurídica no escritório internacional Baker McKenzie, em Paris, onde trabalhou sobretudo nas áreas do direito do trabalho, da concorrência e das fusões e aquisições. Subiu todos os degraus da hierarquia do escritório e, 24 anos depois, chegou ao seu primeiro cargo político. Em junho de 2005, entrou para o Governo francês, no executivo liderado por Dominique de Villepin, como ministra do Comércio Externo.

Seguiram-se as pastas da Agricultura e das Finanças, sob a liderança de diferentes chefes de Governo, até chegar ao cargo de diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, em 2011.

No início de outubro, Lagarde concedeu uma entrevista aos jornalistas Jean-Claude Bourbon e Marie Dancer, na qual abordou a sua saída. Disse claramente que iria abandonar o cargo antes do fim do mandato e classificou-se como uma «coruja». «A coruja é o símbolo de Atena, representando inteligência e sabedoria, mas, acima de tudo, é a minha maneira de rejeitar rótulos. Não estou do lado dos falcões, que defendem uma política monetária restritiva para combater a inflação, nem do lado das pombas, que querem apoiar a atividade económica através de uma política monetária expansionista. Não tomo partido em matéria de política monetária. Guio-me pelos factos e estou preparada para me ajustar quando as circunstâncias o exigirem. Num mundo tão incerto, o dogmatismo não é uma boa resposta», afirmou Lagarde.

Reafirmou a sua fé católica e destacou duas encíclicas: a Magnifica humanitas, de Leão XIV, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial, e a Rerum Novarum, de Leão XIII, documento fundador da doutrina social da Igreja.

A saída de Lagarde do BCE não foi bem compreendida por muitos e poderá não ser bem aceite por todos. Apenas o primeiro presidente do BCE, o neerlandês Willem F. Duisenberg, não cumpriu integralmente o mandato, tendo a sua saída sido previamente acordada com o seu sucessor, Jean-Claude Trichet.

Numa altura em que se agravam os riscos geopolíticos, o afastamento de Lagarde poderá fragilizar o BCE, que está empenhado em várias frentes de modernização do sistema financeiro europeu.

A escolha do sucessor de Lagarde terá de ser um momento de união entre aqueles que defendem a «fortaleza Europa». Se assim for, será também um momento de reafirmação dos valores europeus num mundo em que os blocos de interesses se confrontam nas vertentes política, económica e militar.

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