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Pare, escute e olhe

Por Cristina Casalinho, Administradora Executiva da Fundação Calouste Gulbenkian

23 Abr 2026 - 07:30

5 min leitura

 Atualmente, o mundo é frenético, nervoso, exigindo ações rápidas. Vive-se em constante alerta, identificando ameaças e como lhes sobreviver. Os mercados de capitais não escapam à pressão da combinação: imediatismo e catastrofismo, saltando de crise em crise, de turbulência em turbulência. Conduzirá a guerra no Médio Oriente a uma reedição da crise do petróleo dos anos 60/70? Evoluirá o ciclo da Inteligência Artificial (IA na sigla em inglês) para uma crise Dotcom 2.0? Poderá uma correção nos mercados privados detonar uma crise semelhante à debacle financeira associada à implosão subprime em 2008?

Apesar do dramatismo do momento, o passado mostra que as crises tendem a ser de curta duração e os ajustamentos resultantes propiciam oportunidades de crescimento saudável. Constituem-se como momentos de reequilíbrio. As crises tendem a potenciar mudanças, acelerando alterações estruturais em curso e os choques por elas produzidos. As presentes tensões no Médio Oriente poderão gerar instabilidade económica global com aumento do preço e dificuldades de abastecimento de combustíveis, agudizados pela intensa procura de energia e água para suportar a disseminação de Inteligência Artificial (IA na sigla em inglês).

Este estrangulamento deverá ser temporário e abrir novas oportunidades. Por exemplo, a dependência de fontes primárias de origem fóssil continuar-se-á a reduzir por via do investimento em energias alternativas, com a China na liderança. Em 2024, a China instalou mais capacidade de energias renováveis que a capacidade total existente nos EUA, sendo o principal (quase exclusivo) produtor mundial de painéis solares e onde se observa maior crescimento da oferta de veículos elétricos e baterias. Na Europa (e nos EUA), o investimento em energias renováveis mantém-se apesar de incerteza política e preocupações com competitividade imediata. Como as autoridades chinesas perceberam, energia barata é um fator de competitividade primordial; donde, a forte orientação estratégica para eletrificação da economia com recurso a energia renovável. Contrariamente às convicções recentes, a agenda da sustentabilidade orientada para a mitigação e adaptação a alterações climáticas, preservação da biodiversidade, combate à poluição, eficiente gestão de água e oceanos, adequado tratamento de resíduos e economia circular, é potenciadora de melhoria de produtividade, oferecendo melhor perspectiva de utilização de recursos no longo prazo.

A subida do preço do petróleo e a competição por energia barata para gestão do atual modelo económico e o modelo emergente às costas de IA poderão provocar abrandamento económico. Poder-se-á assistir à desaceleração temporária na disseminação de IA. Porém, esta marcha será inexorável. O eventual arrefecimento económico decorrente de aumento de preços da energia e da alimentação (outra consequência da guerra no Médio Oriente) combinado com acréscimo de produtividade decorrente da adoção de IA (induzindo folga no mercado de trabalho durante o período de requalificação da força de trabalho) contrariará os riscos inflacionistas.

A favor deste cenário benigno, junta-se a, frequentemente negligenciada, capacidade de gestão de crises e estabilização da atividade económica pelos Bancos Centrais. Nos últimos trinta anos, as autoridades monetárias têm sido bem-sucedidas no controlo de riscos inflacionistas e em evitar abrandamentos pronunciados e prolongados. Finalmente, a globalização económica é responsável por um mundo integrado, interdependente, o que significa que, mantendo-se o dólar norte-americano débil e as taxas de juro baixas, as economias emergentes, designadamente as exportadoras de energia, poderão continuar a apresentar níveis de crescimento encorajadores.

Um eventual abrandamento económico não deverá contrariar os principais argumentos para as atuais valorizações no mundo tecnológico associado a IA e mercados privados (exceto retalho). A fundamentação da evolução recente do preço destas classes de ativos: a capacidade regular de geração de valor por parte de empresas tecnológicas associadas a IA e, nos mercados privados, pelo acesso a gestão mais eficiente e criação de oportunidades de crescimento, mantendo, em ambos os casos, níveis de endividamento reduzidos e dependência limitada de financiamento bancário (mitigando o risco sistémico/corrida aos bancos), não deverão ser postas em causa, estruturalmente, por uma recessão associada a desequilíbrios entre procura e oferta no mercado de energia.

No caso das empresas de tecnologia, defrontamo-nos com o potencial incremento de produtividade induzido por inovação, enquanto, no caso dos mercados privados, está-se perante a correção de falhas de mercado, permitindo negócios (médios) sólidos superar obstáculos de crescimento. Portanto, os preços devem corresponder ao potencial de geração sustentada de resultados – o que, por ora, parece ser o caso, dado os múltiplos atuais (comparando com bolhas especulativas do passado.)

Ao frenesim e impulso à ação atuais, deve opor-se a análise fundamentada da capacidade de geração de valor no longo prazo. Em vez de se tentar acertar no momento de entrada ou saída do mercado, importa a seleção dos ativos que compõem a carteira. Evidência histórica da rendibilidade de longo prazo de investimento passivo em índices acionistas permanece um argumento forte em detrimento de ativismo.

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