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Sala cheia no Teatro-Cine de Torres Vedras para falar de Agostinho da Silva e do cooperativismo
O colóquio «A Jangada do Sul», promovido pela Caixa Agrícola de Torres Vedras, reuniu oradores portugueses e brasileiros e contou com uma forte participação de alunos das escolas do concelho.
07 Nov 2026 - 07:30
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O debate começou com a intervenção dos pensadores brasileiros José Maurício de Carvalho e o Renato Epifânio
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O debate começou com a intervenção dos pensadores brasileiros José Maurício de Carvalho e o Renato Epifânio
O Teatro-Cine de Torres Vedras encheu-se, a 3 de novembro, para o colóquio “A Jangada do Sul: Agostinho da Silva e o Cooperativismo”, promovido pela Caixa Agrícola de Torres Vedras no âmbito dos XII Colóquios Internacionais Luso-Brasileiros. Entre o público destacaram-se os alunos das escolas do concelho, que acompanharam uma tarde de reflexão sobre o pensamento do filósofo, a cultura e os valores da cooperação.
A sessão integrou uma edição dos colóquios que decorreu entre 2 e 6 de novembro, no Porto, em Torres Vedras e em Lisboa, assinalando os 120 anos do nascimento de Agostinho da Silva e os 30 anos da CPLP.
Cultura, liberdade e cooperativismo
A abertura esteve a cargo de Manuel José Guerreiro, presidente do Conselho de Administração da Caixa Agrícola de Torres Vedras, com a intervenção O pensamento de Joaquim de Fiore a Vieira: as raízes da Idade do Espírito Santo. Nas boas-vindas, o vereador da Cultura da Câmara Municipal, Rui Estrela, e a diretora da Biblioteca Municipal, Goretti Cascalheira, assinalaram a importância do encontro.

Manuel José Guerreiro começou por destacar a cultura como instrumento de descoberta e liberdade: “A cultura serve para tudo e não serve para nada. A cultura é a capacidade que nós temos de nos descobrirmos. É aquilo que nos inventa.” Evocou depois Agostinho da Silva como um pensador da liberdade e da transformação do espírito, sublinhando a importância da infância e de uma sociedade assente na fraternidade, em vez da competição.
Dirigindo-se aos jovens presentes, deixou uma mensagem de confiança: “Apostamos em cada um de vós. O nosso projeto é um projeto de humanismo.” Para o presidente da Caixa, o cooperativismo traduz também essa visão, através da criação de valor e do seu reinvestimento nas comunidades.
De Portugal ao Brasil: um pensamento para o futuro
Na sessão seguinte, o filósofo brasileiro José Maurício de Carvalho e o professor universitário e pensador Renato Epifânio abordaram o percurso de Agostinho da Silva entre Portugal e o Brasil. Renato Epifânio destacou o cooperativismo como um dos legados do filósofo e recordou a importância da experiência brasileira na evolução do seu pensamento.

A conversa entre José Mauricio de Carvalho e Renato Epifânio sobre o percurso de Agostinho da Silva entre Portugal e o Brasil
José Maurício de Carvalho, por sua vez, desafiou os jovens a refletirem sobre o tipo de sociedade que querem construir. Alertou para os efeitos da globalização, que tende a afastar o capital dos territórios, e para os riscos de uma vida cada vez mais condicionada pela velocidade do digital e pela inteligência artificial, defendendo a necessidade de preservar a capacidade de reflexão e de desenvolver projetos com profundidade.
As raízes do espírito cooperativo
O escritor e professor universitário, Rodrigo Sobral Cunha e a também professora e investigadora de história de Arte, Sílvia Leite a também professora e investigadora de história de Arte dedicaram a sua intervenção à relação entre a Rainha Santa Isabel e a génese do espírito cooperativo em Portugal. A partir do pensamento de Joaquim de Fiore e da tradição franciscana, Sílvia Leite percorreu a origem das festas do Espírito Santo e o seu significado comunitário.

Rodrigo Sobral Cunha e Sílvia Leite dedicaram a sua intervenção à relação entre a Rainha Santa Isabel e a génese do espírito cooperativo em Portugal
Destacou a dimensão inclusiva destas celebrações, nas quais uma criança ou uma pessoa pobre podia assumir o papel de imperador e em que o bodo (um banquete partilhado) simbolizava a abundância e a partilha, em vez da assistência entendida como esmola. Uma tradição que os oradores relacionaram com valores de autonomia, fraternidade e cooperação.
Espiritualidade, inclusão e consciência
Paulo Borges, filósofo e professor e Ângela Santos professora e presidente do Círculo do Entre-Ser, encerraram o ciclo de intervenções temáticas com uma reflexão sobre a Idade do Espírito Santo, espiritualidade e despertar da consciência. Paulo Borges associou o pensamento de Agostinho da Silva à reconciliação do ser humano com o mundo, atribuindo ao culto do Espírito Santo uma dimensão ecológica e comunitária.

Ângela Santos dirigiu-se particularmente aos alunos, desafiando-os a descobrir a sua própria inquietação e a encontrar um sentido de realização naquilo que escolhem fazer
A partir dos três momentos da festa – a libertação de presos, o banquete gratuito e a coroação de uma criança -, destacou valores como a reconciliação social, a redistribuição da riqueza e a recuperação da capacidade de maravilhamento perante o mundo.

Paulo Borges associou o pensamento de Agostinho da Silva à reconciliação do ser humano com o mundo
Ângela Santos dirigiu-se particularmente aos alunos, desafiando-os a descobrir a sua própria inquietação e a encontrar um sentido de realização naquilo que escolhem fazer. “Vocês poderão ser um poeta à solta naquilo que mais quiserem realizar”, afirmou.
O programa terminou com o tema A ética do encontro e a inclusão, numa intervenção de Manuel José Guerreiro, precedida de uma nova leitura de poesia por Pedro Freitas, conhecido artisticamente como Poeta da Cidade. Pedro é um poeta, declamador e performer, reconhecido por aproximar a poesia do público através das redes sociais e de espetáculos ao vivo, nos quais cruza a palavra dita com a música.

O poeta da cidade vez várias intervenções ao longo da manhã
Ao longo da tarde, o pensamento de Agostinho da Silva serviu de ponto de partida para uma reflexão que cruzou filosofia, história, espiritualidade e organização da sociedade, com o cooperativismo e a valorização das comunidades como fios condutores. A forte presença de estudantes deu ao encontro uma dimensão particularmente relevante: a de aproximar os mais jovens de ideias que continuam a desafiar a forma como pensamos o futuro.
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